
Às vésperas do lançamento do lado B de Ray, Rayane Fortes fala sobre produção musical, identidade e as escolhas que fazem uma música encontrar a própria voz.
Toda música é resultado de uma sequência de decisões. Um timbre, um silêncio, um riff, uma mudança de andamento ou um elemento que alguém resolveu retirar. Para Rayane Fortes, é nesse conjunto de escolhas que uma canção começa a desenvolver identidade. Por isso, ao longo dos últimos anos, a cantora, compositora, guitarrista e produtora passou a ocupar um papel cada vez mais ativo em todas as etapas da criação. O lançamento do lado B de Ray reforça esse processo ao completar um projeto concebido como uma obra única, construída em parceria com a banda, mas guiada por uma direção artística muito clara.
Essa conversa nasce justamente desse lugar. Rayane fala sobre referências, autoria, produção musical e sobre o momento em que percebeu que produzir também era uma forma de compor. Histórias diferentes que acabam respondendo à mesma pergunta: quando uma música encontra a própria voz?
A playlist “Não Mexe Mais” selecionada por ela prolonga essa conversa com canções em que cada detalhe parece ocupar exatamente o lugar certo.
Lísias Paiva, criador e editor
Em que momento uma referência deixa de ser inspiração e passa a ser voz própria?
Acho que a gente está o tempo inteiro sendo atravessado por referências. São músicas, artistas, sons e experiências. Algumas de forma consciente, muitas de forma inconsciente. É importante entender isso e não tentar negar essas influências. Ao mesmo tempo, nunca tento fazer algo igual a ninguém. O desafio é justamente acrescentar algo que seja meu. A voz própria aparece quando todas essas referências passam pelo seu filtro, pela sua vivência, e acabam resultando em algo único. A gente é a soma de tudo o que escuta, mas o resultado precisa soar verdadeiro.
Você costuma colocar a mão em todas as etapas da criação. O que uma música perde quando quem cria abre mão de decidir como ela vai soar?
Participo praticamente de todas as etapas da criação. A única fase em que não costumo atuar diretamente é a mixagem e a masterização, porque já envolvem questões muito técnicas. Mas a produção musical, os arranjos, os riffs, as letras e os temas passam por mim. Claro que gosto de dividir ideias com músicos que admiro, principalmente em arranjos de sopro ou detalhes de execução, mas estou sempre muito presente em todo o processo.
Uma vez, o Torquato Mariano me disse uma frase que nunca esqueci: “Quanto mais você coloca a mão na sua criação, mais identidade ela vai ter.” Isso ficou muito marcado em mim. Acho que uma música perde um pouco da personalidade quando o artista se distancia completamente da forma como ela vai soar.
Qual escolha muda mais uma música: acrescentar alguma coisa ou ter coragem de tirar?
As duas podem mudar tudo. Às vezes, é preciso ter coragem de tirar um elemento porque ele está sobrando e a música respira melhor sem ele. Mas também existe o movimento contrário: ter coragem de manter uma ideia, mesmo quando pessoas importantes sugerem tirá-la. Se você acredita profundamente que aquilo faz parte da identidade da música, vale defender essa escolha. Produzir também é saber equilibrar desapego e convicção.
Qual parte de uma música você nunca consegue delegar?
Hoje, a produção musical. Tentei delegar mais esse processo no começo da minha relação com a gravadora e percebi que, por mais que o resultado ficasse ótimo, sentia falta de enxergar mais da minha identidade ali. Foi nesse momento que entendi que produzir também é uma forma de compor. É durante a produção que escolho timbres, dinâmicas, texturas e pequenos detalhes que acabam se tornando parte da minha assinatura. Hoje, realmente sinto dificuldade de abrir mão dessa etapa.
Hoje, como você percebe que encontrou o som certo, antes mesmo de alguém dizer que gostou?
Eu sinto. Antes de qualquer validação, preciso acreditar profundamente no que fiz. A criação carrega muita energia e, quando você realmente acredita naquilo que está entregando, isso aparece na música. Claro que ouvir o público é importante, mas tento não criar pensando em como as pessoas vão reagir. Primeiro preciso sentir que aquela obra me representa. Depois ela deixa de ser só minha.
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Pack de Sons por Rayane Fortes
Pré-save de Ray (Lado B) por Rayane Fortes
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Fotos por Eduardo Maranhão
Agradecimentos à Jaqueline Esteves da Lupa Comunicação
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Canções escolhidas por Rayane Fortes em que cada decisão faz diferença. Músicas que encontraram exatamente a forma que precisavam ter e mostram como identidade também se constrói nos detalhes.
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