Rádio Renner: Para Se Arrumar por Luísa Viscardi

Luísa Viscardi na Rádio Renner por deepbeep

Antes da pista, existe um estado. Luísa Viscardi usa o som para ajustar a presença antes de sair de casa.

Há um momento antes da festa que define o resto da noite. Não é na pista. É em casa, entre o espelho e a porta. Um intervalo em que o corpo ainda está sozinho, mas já começa a mudar de estado. Para esta edição da Rádio Renner, com assinatura deepbeep, o foco está nesse ritual. O mood é Get Ready. Convidamos Luísa Viscardi para traduzir esse processo em som. O set começa baixo, quase meditativo. Frequências que desaceleram, organizam a respiração e alinham o corpo. Aos poucos, o ritmo sobe. Groove, soul, hip-hop. A energia muda sem pressa, mas com direção. Não é sobre construir um personagem. É sobre entrar em estado. Luísa entende esse momento como preparação interna. Um ajuste de energia que antecede qualquer imagem. O look vem depois. A atitude já está dada. No deepbeep, ela fala sobre esse processo. Sobre como a música altera percepção, organiza o corpo e sustenta presença antes mesmo da primeira interação.

Rádio Renner. Seus looks, agora com ritmo.

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O momento de se arrumar é íntimo, mas também é preparação para o mundo. Que tipo de música ajuda você a sair da dispersão e entrar num estado de confiança?
Pra mim, o momento de me arrumar é quase um ritual. É quando começo a preparar não só o corpo, mas também o espírito e a minha persona artística pra subir no palco, independentemente do tamanho do evento. Gosto de começar com calma, ouvindo músicas mais tranquilas ou frequências meditativas, com BPM mais baixo. Isso me ajuda a desacelerar a mente, me concentrar e entrar num estado de presença. Essa energia acompanha todo o processo de maquiagem, cabelo e escolha do look. Quando já estou pronta, gosto de preparar um drink, com ou sem álcool, e aí a energia começa a mudar. Vou despertando o corpo, me conectando com a vibe do set e trazendo sons mais animados. Essa transição é muito importante pra mim, porque marca a passagem do recolhimento para a potência de estar pronta pra levar a minha arte pro mundo.

Esse “get ready” é mais sobre mostrar algo para fora ou sobre alinhar algo por dentro antes de sair?
Esse momento é, acima de tudo, um alinhamento interno. Sou muito conectada com espiritualidade e energia, e acredito que o trabalho de DJ passa por isso: sentir, conduzir e “maestrar” a energia de um baile. O meu estado de espírito influencia completamente a minha entrega e a forma como essa troca acontece com a pista. Por isso, essa preparação é essencial pra mim. É de dentro pra fora que tudo se organiza. Quando esse alinhamento acontece, a confiança não precisa ser construída pra fora, ela simplesmente se manifesta. A imagem, o look e a performance vêm como consequência desse estado, e não como ponto de partida. Esse cuidado interno é o que me permite chegar inteira, presente e aberta pra criar uma conexão real com as pessoas.

Groove, soul e hip-hop pedem movimento. A sua trilha funciona como pano de fundo ou ela inevitavelmente puxa o corpo para testar o caimento da roupa, dançar, se afirmar?
O set que preparei é muito sobre sentir a música e deixar o corpo responder naturalmente. Cada faixa tem sua própria energia e vai puxando de um jeito diferente, às vezes mais devagar, às vezes com mais intensidade, mas sempre convidando ao movimento, a entrar na vibração do momento. Não é algo que fica apenas como pano de fundo. A música cria uma atmosfera que envolve, que faz querer dançar, mesmo que de forma discreta, só sentindo o ritmo. Pra mim, tocar também é conduzir essa energia, perceber como ela circula e se transforma dentro da pista. A forma como me conecto com as faixas influencia diretamente a experiência das pessoas. É uma troca constante: eu sinto a energia delas, elas sentem a minha, e a música vira esse fio que conecta todo mundo de maneira natural e orgânica. No fim, é muito mais sobre sensação, presença e fluxo do que sobre qualquer tipo de performance ou demonstração externa.

Dizem que a roupa muda a postura. Você sente que a música tem o mesmo poder de ajustar a atitude e a presença?
Sem dúvida. A música tem um impacto comprovado no nosso corpo e no nosso estado mental. Estudos em neurociência mostram como o som influencia o sistema nervoso, regula emoções, altera níveis de atenção e até a forma como percebemos o tempo e o espaço. Uma batida, uma harmonia ou uma frequência específica pode mudar a respiração, o ritmo cardíaco e a maneira como o corpo se organiza. Por isso, a música ajusta a atitude antes mesmo de qualquer gesto consciente. Ela cria um estado interno que se reflete na postura, na presença e na forma como a gente ocupa o ambiente. É algo muito profundo, quase invisível, mas totalmente perceptível. Esse é um gancho direto com o meu trabalho como DJ. Quando escolho uma trilha ou construo um set, estou lidando com esse poder de condução emocional e física. Não é só sobre tocar músicas, é sobre criar estados, alinhar energias e facilitar uma experiência onde as pessoas se sintam mais conectadas consigo mesmas e com o espaço ao redor.

Quando a gente fala em brilho, isso pode virar clichê muito rápido. Sonoramente, o que faz uma música brilhar sem exagero para você?
Eu sou uma pessoa muito eclética, e isso tem a ver com a forma como escuto música: cada estado emocional pede uma frequência diferente. Estou sempre atenta a como o som dialoga com o meu corpo e com o meu momento, e pra mim o brilho aparece exatamente aí, quando a música consegue alterar percepções internas. Às vezes ela acalma, às vezes desperta, às vezes organiza pensamentos ou muda completamente o humor. O que mais me pega é quando a música tem groove de verdade, independentemente do estilo. Amo quando a linha de baixo entra de um jeito que você sente no corpo antes mesmo de perceber racionalmente. Não precisa ser rápido, nem alto, nem cheio de elementos. É mais sobre balanço, sobre como aquilo flui e te envolve. Pra mim, o brilho está exatamente nisso: quando a música acontece sem esforço, quando ela não tenta provar nada. E talvez o mais importante seja lembrar que a música sempre vem antes da gente. O papel do DJ não é ocupar mais espaço do que ela, mas escutar, respeitar e criar o ambiente certo pra que ela brilhe. Quando isso se alinha, a magia surge sozinha.

Um guarda-roupa sonoro completo. Descubra os outros moods da Rádio Renner com curadoria deepbeep.

Acompanhe o trabalho de Luísa Viscardi
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Site Luísa Viscardi
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Vídeo por F2F Filmes

Fotos por Celso Tavares, Victor Otsuka e Thales Côrtes

Gravado no Caracol Bar

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