Miranda e o caos do pequeno cotidiano

Miranda em entrevista e playlist para o deepbeep

Entre memes, cultura pop e personagens do cotidiano, Miranda transforma constrangimento coletivo, pessimismo e caos social em humor compartilhável.

Miranda entende que o cotidiano brasileiro já vem pronto para virar esquete. Uma conversa insuportável no trabalho, alguém estranho no metrô, um excesso de autoestima pop, um meme absurdo ou simplesmente a sensação coletiva de que ninguém está funcionando muito bem. Tudo pode virar personagem, roteiro ou vídeo. O humor da Miranda funciona justamente porque parece reconhecer uma exaustão compartilhada. Não existe distância confortável entre quem assiste e aquilo que ela interpreta. A identificação quase sempre vem antes da piada terminar. Em um momento que define como pessimista, ela vê no humor menos uma tentativa de resolver o caos e mais uma forma de sobreviver emocionalmente a ele. Rir, aqui, não aparece como fuga sofisticada nem como grande discurso político. É mais simples e mais brutal do que isso. Às vezes, o humor serve só para lembrar que “todo mundo tá um pouco na merda”. Essa lógica também atravessa sua playlist de inspiração e ironia. Spice Girls, NSYNC, Alicia Keys, Secos & Molhados, Djavan, Paulinho da Viola e a nova geração da música brasileira convivem na mesma lógica afetiva entre ironia, exagero pop e observação social. Na conversa com o deepbeep, Miranda fala sobre cultura pop, algoritmos, repetição de internet e sobre por que sair um pouco das redes ainda é a melhor forma de criar humor que não pareça reciclado.

Entrevista e edição por Lísias Paiva, sócio-editor e introdução por Claudio Thorne, social media

Seu humor disseca a cultura pop e o comportamento com uma precisão cirúrgica. Para você, qual é o papel do humor hoje? É uma forma de crítica, um alívio para o caos ou uma lente de aumento para enxergarmos o absurdo do nosso tempo?
Acho que é tudo isso que você falou. Existem diferentes linguagens de humor e, para cada uma delas, uma função se cumpre de forma mais assertiva; não existe humor melhor que outro (claro, desde que respeitados os direitos particulares). Se fez alguém rir, cumpriu sua função. Tô num momento extremamente pessimista da minha vida, então acho que o humor serve como uma catarse, pra eu entender que tem saídas mais leves e todo mundo tá um pouco na merda. Eu curto fazer humor que gere reflexão e crítica, e que faz a gente enxergar de outra perspectiva… é como sei trabalhar. Mas adoro consumir memes idiotas e engraçados, eles às vezes salvam o dia. Então, é isso, todo humor tem valor.

Como é o seu processo criativo para construir uma piada ou um roteiro? Começa com uma observação do dia a dia, uma notícia bizarra ou uma indignação que só pode ser processada através da comédia?
Geralmente vem através de uma observação: alguém que vi no metrô, uma pessoa esquisita com quem fiz uma reunião, alguém chato pra cacete com quem precisei conversar. Situações que me trazem um estalo: “nossa, isso daria uma personagem” ou “isso daria uma esquete engraçada”, porque sei que muitas pessoas iriam se identificar. Então, o critério acaba sendo o potencial de riso e identificação e quase sempre vem de forma espontânea. Notícias podem também ser uma ótima fonte de inspiração para o humorista, já aconteceu comigo. No Brasil, é inspiração quase todo dia, rs, só abrir o jornal.

A música pop é uma fonte inesgotável para o seu trabalho. O que um hit do momento ou a carreira de uma grande diva te contam sobre a sociedade, que talvez um noticiário sério não consiga explicar?
Não sei se a música pop necessariamente, mas a cultura pop, sem dúvidas. Eu adoro a Rihanna, ainda não consegui ir a um show da diva, ela só pensa em ter filho, haha. Ela representa uma liberdade e autenticidade pras mulheres que eu acho muito legal: ela fala palavrão, gosta de comer, veste o que quiser e não tá nem aí.

Você é uma curadora de memes e de momentos da internet para muitas pessoas. Como você mesma consome conteúdo e foge da bolha dos algoritmos para encontrar as pérolas que alimentam seu trabalho?
Pra mim, a melhor forma de criar conteúdos autênticos é sair da internet por um tempo e voltar com coisas frescas. Claro que eu amo os memes, e os brasileiros são geniais nisso. Mas se alimentar de meme pra produzir mais meme gera uma retroalimentação que acaba ficando muito repetitiva, e aí você vê um monte de influenciadores fazendo sempre coisas muito parecidas entre si. Então eu tento ler, ver filmes, teatro, séries, viajar, ir pra natureza e refrescar a mente com referências novas.

O que você espera que as pessoas sintam ou pensem depois de assistir a um vídeo seu? É a risada pura e simples, ou a reflexão que vem logo depois dela?
Primeiro, quero que elas riam, haha, é o objetivo primário. Depois, que reflitam e sintam vontade de compartilhar com alguém. O poder do riso é rir junto. E por fim, se possível, refletir sobre o tema que trouxe ali. Mas se não refletirem também, foda-se, acho muita pretensão querer que meus conteúdos mudem algo na vida das pessoas hahaha. Se a fez pensar de forma diferente, é lucro.

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