Carmo Dalla Vecchia parou de sustentar a própria imagem

Carmo Dalla Vecchia cria playlist para deepbeep

Parar de proteger a imagem muda o que aparece. Entre palco e feed, Carmo Dalla Vecchia sustenta o que não cabe mais em controle.

Carmo Dalla Vecchia passou anos sendo lido antes de falar. O galã organizava a expectativa, a indústria reforçava o papel e o corpo sustentava essa imagem. Em algum momento, isso saturou. No lugar do controle, entrou o risco. A presença digital não corrige o que veio antes. Expõe. Pai, ator, humor, desejo. Tudo junto, sem tentativa de organizar. Não existe versão estável. Existe convivência. Ele fala de silêncio e, ao mesmo tempo, do medo do vazio. Diz que não precisa ser visto, mas ocupa espaço. Entre o recuo e o excesso, constrói uma presença que não fecha a conta. É nesse intervalo que a música entra. Não como trilha de personagem, mas como apoio de estado. O que sustenta quando não há papel. No deepbeep, ele fala sobre timing, escuta e o desconforto de existir sem a proteção da aprovação. A conversa vem com a playlist “Música Para Sustentar a Presença”, um recorte do que ele escuta fora de cena.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Carmo, você passou anos ocupando o lugar do galã inalcançável da TV. Hoje sua presença digital é feita de ironia, humor queer e exposição doméstica. Em que momento você percebeu que desmontar a própria imagem te daria mais liberdade artística do que tentar sustentá-la?
Não foi tão premeditado. Foi uma necessidade particular e um acúmulo de sapos na garganta. A partir do momento em que decidi me expor tanto, também decidi que estaria inteiro na prateleira digital. Fiz questão de ser o pai, o ator, o cara que faz piadas com amigos e se diverte, mas que também faz sexo e pode ser apimentado. Reconhecendo essa pluralidade e falando sobre isso. Tudo convivendo junto, exatamente como são os seres humanos. Depois de tanto tempo com limites ruins, preferi não ter muitos agora.

O teatro pede um tempo de digestão lenta, enquanto a internet opera na velocidade do scroll imediato. Como esse ritmo digital afeta seu corpo de ator quando precisa voltar ao silêncio do palco? O que a velocidade das redes te ensinou sobre timing que o teatro não ensinou?
Não perdi o medo de ser chato. E isso é bom na vida. Me faz pensar no timing. Seja da internet, das relações ou de tudo o que me incomoda. Não perder o medo de estar sendo chato dá uma sensação boa de limite, nosso e dos outros. Sei quando posso ultrapassar esse timing e devo me retirar. As conquistas de espaços internos, de inquietações e de realidades que o teatro e a psicanálise me deram não se perdem facilmente. Sou um cara que, na maior parte do tempo, quer o silêncio e a não necessidade de ser visto. Ao mesmo tempo, tenho medo do vazio. Sou barroco. Tenho fascínio e repulsa pela exposição. Sou contraditório.

Sua carreira foi construída sob observação constante. Hoje parece que você devolve esse olhar e ri da expectativa que criam sobre você. O que muda nas suas escolhas em cena quando você para de proteger sua imagem e começa a brincar com ela?
Você fica mais livre. Não me importo se quebro um dente e uso isso num personagem, e digam que pareço um cara que fuma dois maços de Derby por dia. Não me importo se vão me achar ridículo de saia. Não vou corresponder nunca mais ao tradicional que esperam de mim. Talvez eu tenha corrido demais para o lado oposto. Mas é o que temos por hoje. Acho que consegui me livrar um pouco da aprovação alheia.

Fala-se muito da música para entrar no personagem, mas pouco sobre o som necessário para sair dele. Quando o trabalho acaba, que tipo de frequência sonora é necessária para limpar o sistema e trazer você de volta para a realidade?
Silêncio e cama. E o som dos bem-te-vis que fizeram ninho na minha jabuticabeira, na frente de casa, me dá a sensação de que a vida é presente e é feliz.

A indústria costuma brigar com o tempo, mas você usa a maturidade como ferramenta de soltura. Como os anos alteraram a qualidade da sua escuta em cena? O que você consegue ouvir hoje no silêncio do outro ator que passava despercebido no início da carreira?
Fui escutar os outros atores tarde demais. Achava que o que estava por fora era mais importante. Fui muito conectado à forma e negava, sem perceber, meus sensores internos. Talvez por negar por muito tempo a realidade ao meu redor. E a forma que encontramos para fazer isso é nos desconectando. Hoje sou mais real. Vivo mais no presente. Todo o meu trabalho passa por aí.

Acompanhe o trabalho de Carmo Dalla Vecchia
Carmo Dalla Vecchia no Instagram
Carne Fresca Clothing de Carmo Dalla Vecchia

Fotos de Carmos Dalla Vecchia por Johnny Moraes para a revista Total Studio Brasil

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