
Michelle Abu mostra que ritmo não é uma técnica. É uma forma de escutar o mundo antes das palavras.
Existe uma ideia que organiza toda a trajetória de Michelle Abu. Quem dança toca. A frase parece simples, mas muda completamente a forma de pensar a música. O ritmo deixa de ser uma habilidade reservada a músicos e passa a ser uma capacidade que todos carregam no corpo desde antes do nascimento. O primeiro som que escutamos são as batidas de um coração. O resto é aprendizado, escuta e movimento.
Percussionista, baterista e pesquisadora, Michelle construiu uma carreira atravessando diferentes linguagens musicais sem perder essa curiosidade pelo ritmo como experiência física. Em vez de procurar fronteiras entre estilos, ela procura aquilo que continua unindo todos eles.
A playlist “O Corpo Entende Antes” prolonga essa conversa com músicas que reorganizam o corpo, alteram a percepção do tempo e lembram que escutar também é uma forma de movimento. Na entrevista ao deepbeep, Michelle Abu fala sobre ritmo, groove e por que o corpo quase sempre percebe alguma coisa antes da cabeça.
Lísias Paiva, criador e editor
Você passou a vida prestando atenção em ritmo. Existe alguma situação em que as pessoas revelam seu ritmo verdadeiro sem perceber?
Costumo dizer nas minhas oficinas que quem dança toca. Se você consegue acompanhar o ritmo de uma música dançando, só precisa escolher um instrumento e acompanhar. Quantas vezes vejo pessoas balançando o pé ou batucando no copo, na mesa do boteco, sem perceber que já estão tocando um instrumento. O primeiro som que um bebê escuta são as batidas do coração. Nascemos com o ritmo pulsando no corpo.
Tem músicas que pedem atenção e outras que parecem reorganizar o corpo inteiro. O que a música costuma reorganizar em você?
A música tem o poder de me colocar em movimento. Seja tocando ou andando de bicicleta, ela me conecta com a minha força interior, com o meu tempo, com a minha respiração e com as minhas emoções. É como se reorganizasse tudo isso ao mesmo tempo.
Você transita entre universos musicais muito diferentes. O que quase sempre acontece quando duas culturas aparentemente distantes realmente se encontram?
A base de qualquer música é o ritmo, o groove. Você precisa entender como ele funciona, os graves e os agudos, a curva que a música faz, o timbre e a função de cada instrumento. Mas tudo é música. Na polirritmia, todo mundo se encontra.
Existe algum comportamento que as pessoas chamam de espontâneo, mas que, na verdade, depende de muita escuta?
Acredito que compreender a poesia das canções faz você escutar a música mais profundamente e trazer à tona diferentes emoções.
Qual característica costuma ser confundida com força, mas raramente sustenta alguma coisa por muito tempo?
Acho que é a interpretação com mais pegada. Quando você toca uma música e chega a uma parte mais forte, com mais volume, a técnica ajuda mais do que a força. Mas não é ela que sustenta o som. O que sustenta é o jeito de tocar e de tirar o som do instrumento. Sinto muito isso quando toco bateria.
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Fotos por Gal Oppido
Agradecimentos ao Gustavo Koch da Koch MGMT pela conexão
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