Mari Herzer transforma espaço em som

Mari Herzer em retrato para entrevista do deepbeep.

Mari Herzer fala sobre o som que muda a maneira como uma cena é percebida.

Mari Herzer chama algumas de suas criações de ecossistemas sonoros. A expressão faz sentido quando ela conta como trabalha. Um som pode voltar entre duas cenas. Um objeto melódico pode lembrar uma baleia sem tentar reproduzir uma baleia. Uma nota pode funcionar como percussão. Um timbre pode ganhar harmônicos, saturação, outra oitava, até que seja difícil saber onde termina a melodia e começa o ruído.

Essa escuta também aparece quando ela compõe para cinema. Uma trilha não precisa seguir cada movimento da imagem. Pode insistir em um motivo. Pode crescer. Pode ficar em outro lugar.

Mari passou oito anos tocando e trabalhando como artista residente da Mamba Negra. Em 2022, lançou Cheia, seu primeiro álbum, pela MAMBArec. A pista e a pesquisa autoral aparecem como partes da mesma investigação, sem precisarem produzir o mesmo tipo de música.

Hoje, uma partida de futebol entrou no campo de possibilidades. Mari quer transformar os movimentos de jogadores em uma espécie de homenagem sonora. A playlist “Espaços” reúne Meredith Monk, Jocy de Oliveira, Robin Fox, Arthur Russell, Egberto Gismonti, Scorn, Jetson e uma faixa própria. Na conversa com o deepbeep, Mari fala sobre como o som muda uma cena, uma pista e a maneira de perceber um lugar.

Lísias Paiva, criador e editor

Mari, como perceber quando um som cria uma atmosfera e não apenas ocupa um espaço?
Depende do tipo de trabalho que estou fazendo. Se for uma peça site-specific e não uma música “tradicional”, eu costumo usar um condutor melódico atonal, quase percussivo e pontilhista, que vai e volta entre as cenas. Gosto muito de Stockhausen, então algumas de suas peças me inspiram bastante. Um objeto melódico pode remeter a sons específicos, aves, baleias, até mesmo a formas geométricas, se você permitir tal associação na sua mente. Geralmente, eu uso o som de um animal específico e tento chegar o mais próximo possível sonoramente, mantendo as características digitais da ferramenta que estou usando, pois não pretendo criar uma imagem hiper-realista. Essas peças mais conceituais, então, eu costumo chamar de um trabalho de criação de “ecossistemas sonoros”.
No entanto, quando faço música mais “tradicional” (com partes A, B), costumo usar um condutor melódico mais tonal, que beira um certo atonalismo em dados momentos. Tento confundir o ouvinte a respeito do que, de fato, é a melodia numa faixa. Gosto de brincar nessa intersecção entre a nota e o elemento percussivo, que conduz uma cena à outra por meio de extrapolações de timbre, oitavando, introduzindo harmônicos, saturando.

Você compõe para pistas e para filmes. O que muda quando a música deixa de conduzir o corpo e passa a conduzir o olhar?
Dependendo da cena de um filme, tenho um pouco mais de liberdade para compor música sem estrofe nem refrão. Muitas vezes, uso apenas um motivo que se repete continuamente até o final da cena, seguido de crescendos para acompanhar os movimentos dos atores ou da narração. Uma boa trilha não necessariamente acompanha fielmente todos os movimentos de uma cena. Me valho disso também. De qualquer maneira, depende do caso, claro. O diretor manda.

Qual cidade continua aparecendo na sua música, mesmo quando você não pretende falar dela?
Curiosamente, Santos começou a aparecer recentemente nos meus trabalhos. Nasci em São Paulo, mas, aos 3 anos, fui morar em Ilhabela e, posteriormente, me mudei para Santos. Fui criada lá e depois voltei para São Paulo. Tenho uma relação mal resolvida com a cidade: tive experiências negativas na infância e na adolescência, mas guardo muitas características fortes de caiçara santista que aparecem nas interações do dia a dia, quase um devir-Chorão da alma.

Existe alguma sensação que você reconhece imediatamente, mas ainda não encontrou um jeito de transformá-la em som?
Tem muito tempo que não lanço música em EP ou em álbum. O último foi meu álbum Cheia, em 2022, tirando singles. Pretendo mudar isso até o fim do ano! Desde esse período, me tornei diversas pessoas, então tem bastante material para passar por transdução. Um desejo que surgiu recentemente é musicar um recorte de partida de futebol. Existe uma beleza nos movimentos futebolísticos, principalmente em partidas antigas da seleção brasileira ou na atuação dos nossos grandes jogadores em times internacionais, que merece uma homenagem sonora.

Quando uma composição termina, como você sabe que não falta mais nada?
Só quando o prazo termina…

Acompanhe o trabalho de Mari Herzer
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Mari Herzer Site

‘Cheia’ por Mari Herzer no Bandcamp
Mari Herzer no Soundcloud
Mari Herzer no Boiler Room

Mari Herzer no Spotify

Fotos por Ivi Maiga Bugrimenko e Marcos Almeida

Ouça a playlist de Mari Herzer no seu player preferido

Uma seleção de Mari Herzer de músicas que mudam a temperatura de um espaço. Meredith Monk, Jocy de Oliveira, Robin Fox, Arthur Russell, Egberto Gismonti, Scorn, Jetson e Mari Herzer aparecem aqui como diferentes maneiras de construir ambiente por meio do som.

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