
Mabê Bonafé fala sobre o que uma história revela sem querer e por que uma explicação convincente ainda merece desconfiança.
Uma história bem contada pode fazer você acreditar antes de fazer você pensar. Mabê Bonafé trabalha há anos com histórias que prendem a atenção. Começou na publicidade, passou pelos roteiros e encontrou no Modus Operandi, criado com Carol Moreira, um lugar para juntar pesquisa, narrativa e uma obsessão por crimes reais, mistérios e casos difíceis de explicar. O podcast virou livro e ajudou a transformar o true crime em uma conversa muito maior no Brasil.
Mabê presta atenção no que acontece quando alguém conta uma história. O que escolhe revelar. O que deixa de fora. A maneira como julga os personagens. A confiança que consegue transmitir. Para ela, tudo isso também conta alguma coisa sobre quem está falando. A música aparece na conversa de um jeito muito mais pessoal. Ela gosta das brechas que uma letra deixa e da liberdade que cada pessoa tem para preenchê-las com a própria história.
No deepbeep, Mabê fala sobre o prazer de contar e ouvir histórias, sobre a confiança que damos a quem parece saber do que está falando e sobre o que acontece quando uma explicação não basta. Na playlist “Aqui Tem Alguma Coisa”, ela escolheu faixas de Carl Orff, Björk, Bowie, The Cure, Milton Nascimento, Bauhaus que parecem saber alguma coisa que a gente ainda não descobriu.
Lísias Paiva, criador e editor
Mabê, qual história faz você prestar atenção imediatamente?
Acho que eu sempre presto atenção nas histórias que fogem do óbvio, mas, principalmente, na forma como elas são contadas. Eu sou completamente apaixonada por narrativa. A mesma história pode soar comum ou inesquecível, dependendo de quem está contando. Adoro quando alguém sabe conduzir um relato, escolhe o momento certo de revelar uma informação, cria expectativa, esconde uma informação e faz você querer continuar ouvindo… É uma das qualidades mais fascinantes que alguém pode ter.
Tem músicas que parecem carregar um segredo mesmo quando não dizem nada explicitamente. O que elas sabem criar tão bem?
Acho que as músicas sabem criar espaço para o que não é dito. Elas deixam brechas, e cada pessoa preenche essas brechas com a própria história, com as próprias experiências. A mesma letra pode significar uma coisa para mim e algo completamente diferente para outra pessoa. Eu gosto muito dessa subjetividade. Da ideia de que uma música nunca é exatamente a mesma para duas pessoas. Ela conversa com lembranças, medos, saudades…
O que as pessoas revelam sem perceber quando estão contando uma história?
Acho que elas revelam muito sobre si mesmas. O jeito como escolhem contar uma história, o que destacam, o que deixam de fora, o julgamento que fazem dos personagens… revela os valores, os medos, as crenças e a maneira como aquela pessoa enxerga o mundo.
Existe alguma explicação que costuma ser aceita rápido demais?
Eu não sei… Quando paro para pensar nisso, o que eu sinto é que algumas pessoas são aceitas rápido demais por causa de uma autoridade percebida. Quando alguém transmite credibilidade, a gente tende a confiar antes mesmo de analisar se aquela explicação realmente faz sentido. Acho que isso diz mais sobre a nossa relação com quem está falando do que sobre a qualidade da explicação em si. Falando de maneira geral, é ruim aceitar rápido demais, porque isso nos tira a importância da reflexão das coisas. É saudável a desconfiança, a curiosidade e a investigação.
Depois de tantos anos ouvindo relatos estranhos, coincidências improváveis e experiências difíceis de explicar, o que continua despertando sua curiosidade?
Absolutamente tudo. Amo aquela frase de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia.” Quando eu não entendo algo, geralmente isso desperta a minha curiosidade. Não que tudo tenha uma explicação sobrenatural, mas porque é bonito o exercício de perceber a nossa desimportância e ignorância em relação ao universo.
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