
Leo Janeiro mostra por que reunir pessoas é só o começo. O que transforma uma cena em comunidade acontece depois que a música começa.
Boa parte da cultura eletrônica brasileira foi construída por gente que entendia que uma pista nunca era apenas um lugar para ouvir música. Era um espaço para criar vínculos, testar ideias, descobrir artistas e aproximar pessoas que dificilmente se encontrariam em outro contexto. Leo Janeiro faz parte dessa história. Como DJ, produtor e curador, ajudou a consolidar uma cultura em que a música funciona como ponto de partida para algo maior do que entretenimento. Ela cria confiança, pertencimento e relações que continuam existindo muito depois da última faixa.
Essa experiência aparece na conversa sem nostalgia e sem idealização. Leo diferencia cena de comunidade, questiona a ideia de pertencimento como adaptação e mostra por que algumas experiências continuam impossíveis de programar, por mais sofisticada que seja a tecnologia.
A playlist “Gente se Encontrando” amplia essa conversa com músicas que ele viu aproximarem desconhecidos, mudarem completamente a energia de um ambiente e transformarem uma pista em algo coletivo por algumas horas. Na entrevista ao deepbeep, Leo Janeiro fala sobre o que transforma uma cena em comunidade.
Lísias Paiva, criador e editor
Leo, depois de tantos anos observando pistas e pessoas, o que continua aproximando desconhecidos mais rápido do que qualquer algoritmo?
Com absoluta certeza, a música continua fazendo isso como nenhuma outra coisa. Eu cresci nesse ambiente, e a pista foi onde construí algumas das amizades mais importantes da minha vida. Existe algo muito especial quando pessoas que nunca se viram compartilham a mesma energia, a mesma música e o mesmo momento. Nenhum algoritmo consegue reproduzir essa troca. São conexões reais, espontâneas. E isso continua sendo algo muito foda.
O que uma música precisa ter para transformar um grupo de pessoas numa pista?
Acho que uma música precisa criar uma conexão entre o corpo e a mente. Quando isso acontece, a dança deixa de ser um movimento e passa a ser uma forma de expressão. Para mim, as melhores músicas são aquelas que despertam alguma emoção, mudam a energia do ambiente e fazem as pessoas viverem o mesmo momento de maneiras diferentes. É essa sensação que transforma um grupo de pessoas em uma pista.
Existe alguma diferença entre uma comunidade e uma cena?
Acredito que sim. Vejo a comunidade como algo mais próximo, formado por pessoas que compartilham valores, objetivos e uma vontade genuína de construir juntas. Já a cena é muito maior. Ela reúne diferentes grupos, estilos e interesses, nem sempre conectados da mesma forma. Toda comunidade faz parte de uma cena, mas uma cena só se fortalece quando consegue criar um sentimento de pertencimento.
O que as pessoas costumam entender errado sobre pertencimento?
Acho que muita gente acredita que pertencer significa se adaptar ou tentar ser igual aos outros. Para mim, é justamente o contrário. Pertencer é encontrar um espaço onde você pode ser quem realmente é e, ainda assim, se sentir acolhido. Quando existe respeito, troca e identificação verdadeira, o pertencimento acontece naturalmente. Não precisa ser forçado.
Qual foi a mudança mais importante que você viu acontecer na forma como as pessoas se encontram?
Hoje valorizo muito mais os encontros presenciais. Talvez porque tenham se tornado mais raros e especiais. Gosto de fazer coisas que fazia vinte ou vinte e cinco anos atrás: encontrar amigos para ouvir música, passar horas procurando discos e conversar besteira. Vivemos um momento em que estamos conectados o tempo todo, mas nem sempre presentes de verdade. Tenho a impressão de que muita gente também sente falta disso e está voltando a valorizar essas experiências mais simples e mais humanas.
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Agradecimentos à Iasmin Guedes da Boreal Agency
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