
Cercada pela música desde a infância, Ana Morais acredita que a criação perde força quando tenta chegar rápido demais a uma definição.
Crescer cercada pela música pode produzir efeitos muito diferentes. Para algumas pessoas, isso se transforma em expectativa. Para outras, em comparação. Em certos casos, vira até uma obrigação silenciosa. Ana Morais seguiu por outro caminho.
Filha de dois artistas que ocupam um lugar raro na cultura brasileira, ela cresceu num ambiente onde criar nunca pareceu algo extraordinário. O curioso é que fala sobre arte com uma leveza pouco comum para quem nasceu tão próximo de referências tão fortes.
Ao longo da conversa, fica claro que essa relação tem origem na liberdade. Nunca houve uma cobrança para corresponder a um legado específico. Nunca houve uma exigência de seguir uma fórmula. Talvez por isso suas respostas retornem tantas vezes à mesma ideia: a criação como espaço de transformação.
Em vez de buscar uma identidade definitiva, Ana parece interessada em permanecer aberta à descoberta. Melodias, memórias, sensações e perguntas aparecem como matéria-prima de um trabalho que não tenta chegar rápido às conclusões. Existe uma frase da entrevista que ajuda a entender todo o resto. “A criação sempre foi um poder de mutação.” Ela explica a forma como Ana fala sobre música, sobre autoconhecimento e sobre o desejo de continuar se transformando sem a obrigação de sustentar uma versão fixa de si mesma.
A playlist “Sem Pressa” amplia essa conversa. Entre Rubel, Rosalía, Marina Lima, Arthur Verocai, Gal Costa, Orlando Morais e outros artistas presentes na sua escuta, Ana reúne músicas que permanecem por perto sem disputar atenção. Na conversa com o deepbeep, Ana Morais fala sobre criação, autenticidade e sobre por que a descoberta continua sendo mais interessante do que a definição.
Lísias Paiva, criador e editor
Você cresceu muito perto da música, mas seu trabalho não parece carregado de obrigação ou peso de legado. O que ajudou você a construir uma relação mais leve com a criação?
Acho que a liberdade que eu sempre tive em casa influenciou muito. Nunca senti pressão para criar nada. Sempre me deram muito espaço para pensar e criar da forma que eu quisesse me expressar. E, para mim, a criação sempre foi um poder de mutação, em que você pode fazer tudo, construir o seu mundo sem medo ou receio, com naturalidade e verdade. Aí, naturalmente, a pressão ou o peso do legado não cabem nessa forma de fazer arte.
Suas músicas dão a sensação de alguém observando o mundo antes de reagir a ele. O que normalmente chama sua atenção primeiro quando uma canção começa a nascer?
Acho que não existe uma só coisa, são várias. Desde uma memória até uma palavra ou uma sensação mesmo. Acho que é muito particular de cada canção. Mas algo que mexe muito comigo é a melodia.
Existe uma calma muito particular no seu trabalho, mas ela nunca soa distante ou fria. O que você faz para preservar suavidade sem desaparecer dentro dela?
A minha arte é intrínseca a mim. Tudo o que eu despejo nas músicas está diretamente ligado à forma como eu ajo, penso e falo. Então acho que essa suavidade existe no meu trabalho porque existe dentro de mim. Eu sou essa pessoa. Não sei ser diferente.
E eu sinto que tudo o que vem de dentro, tudo o que é verdadeiro, nunca consegue ser distante ou frio, porque está ligado diretamente à fonte, à sua essência.
E não há nada mais poderoso do que a autenticidade e a coragem de ser e mostrar quem você é.
Hoje parece existir uma pressão para todo mundo ter uma opinião, uma estética e uma versão muito definida de si mesmo o tempo inteiro. O que você ainda prefere descobrir no caminho?
Tudo. Eu amo o exercício da descoberta e do autoconhecimento. Não quero saber tudo, acho que perde a graça. Quero poder me transformar em muitas coisas ainda. Esse processo de desvendar e experimentar a vida é muito sedutor para mim e acho até que é o que me dá gás muitas vezes.
Para mim, a criação está diretamente ligada à experimentação e à possibilidade de se reinventar. Não gosto de ter tudo definido, nem na estética, muito menos na sonoridade.
Quando ninguém está esperando nada de você, o que ainda faz a música continuar importante?
A música, para mim, não está ligada a uma expectativa ou ao olhar do outro sobre mim. É algo inerente a mim, fundamental. Eu me alimento disso. Então continuar é mais uma necessidade do que qualquer outra coisa.
O meu trabalho, a música, é o que me dá propósito.
Acompanhe o trabalho de Ana Morais
Ana Morais no Instagram
Ana Morais no Threads
Ana Morais no TikTok
EP “Essa Noite”, de Ana Morais
Agradecimentos ao Lucas Lopes da Mos Agência
Ouça a playlist de Ana Morais no seu player preferido
.
.
.
A música organiza mais coisas do que parece. Toda semana, novas entrevistas, playlists e conversas sobre cultura, comportamento e o mundo que existe ao redor do som. Assine a newsletter do deepbeep no Substack.
Para projetos, parcerias e curadoria cultural: falecom@deepbeep.com.br