
Entre rap, funk, punk, coral de igreja e tudo o que veio depois, Jup do Bairro construiu uma linguagem que se recusa a simplificar a própria existência.
Jup do Bairro cresceu no Capão Redondo atravessada por rap, rádio popular, coral de igreja, punk, funk, metal e hip hop. Nada disso ficou para trás. Tudo continua aparecendo na sua música. Às vezes ao mesmo tempo.
Ao longo dos últimos anos, Jup construiu um trabalho que parece menos interessado em organizar referências do que em preservar a complexidade delas. O resultado não soa como uma mistura planejada para parecer sofisticada. Soa como alguém tentando criar uma linguagem capaz de comportar todas as versões de si mesma.
Em determinado momento da entrevista, ela diz que inventou a Jup do Bairro para que a Jup Lourenço Mata Pires pudesse existir. A declaração atravessa boa parte da conversa. Criar, aqui, não aparece como representação. Aparece como construção. “Mente é corpo e corpo é mente”, ela diz em outro momento. Identidade, linguagem, curiosidade, desejo e conflito raramente aparecem separados no seu trabalho. Tudo chega misturado, como acontece na vida real.
A playlist “Fim de Festa” acompanha esse estado. Entre Leci Brandão, Yves Tumor, Death Grips, Danny Brown, Black Alien, Gilberto Gil e Daft Punk, Jup reúne músicas para momentos em que o corpo desacelera, mas a mente continua procurando caminhos. Na conversa com o deepbeep, Jup do Bairro fala sobre pertencimento, criação e sobre a necessidade de continuar se inventando sem reduzir a própria complexidade para caber nas expectativas dos outros.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Como você equilibra a precisão técnica da rima com a urgência emocional que sua mensagem exige?
É ser humano querer se sentir pertencente, comigo não foi diferente. Quando comecei a escrever, queria entender o que estava acontecendo com meu corpo e minha mente. Foi daí que comecei a ter as primeiras respostas sem nem ter formulado uma pergunta.
Mente é corpo e corpo é mente. Por isso vieram as mudanças e a percepção de que, antes de qualquer coisa, eu precisava pertencer a mim mesma. Acho que inventei a Jup do Bairro para que a Jup Lourenço Mata Pires pudesse existir. E, para minha surpresa, me perdi completamente na personagem. Hoje sou aquilo que inventei.
Por isso acho que, mais do que artista, sou muito arteira. Trabalho justamente com a matéria-prima mais complexa possível: corpo e mente.
Em que momento do seu processo a imagem deixa de ser moldura e passa a ser o próprio conteúdo da música?
Gosto de experimentar todos os universos que vivi e consumo. Sou nascida e criada no Capão Redondo, um dos berços do rap nacional, então seria estranho me afastar completamente desse lugar. Minha família e meus amigos viviam o hip hop como trabalho e lazer.
Meu pai sempre foi muito ligado à música. Já teve banda punk e participou de bateria de escola de samba. Minha mãe nunca foi musicista, mas sempre foi extremamente musical e apaixonada por rádio. Não lembro de nenhuma fase da minha vida sem música. Meu primeiro contato mais direto foi na igreja, cantando em coral, o que era muito comum para crianças periféricas dos anos 90 e 2000.
Além disso, fui emo, vivi o funk, tive namorado metaleiro. Tudo isso acaba sendo parte de mim. Então gosto de experimentar e criar um som que eu mesma teria vontade de ouvir.
Como você protege sua pesquisa musical para que ela continue sendo guiada por encontros reais e não por sugestões de algoritmos?
Quero ser uma artista do meu tempo. Esse é meu maior exercício. E o presente não é confortável.
Ao mesmo tempo em que vemos avanços políticos, debates sobre diversidade e disputa por espaço, também existe quem faça de tudo para impedir que essas pessoas existam. Pessoas como eu, por exemplo. Então preciso falar com firmeza. Fazer minha voz chegar com densidade e protesto.
Não é simples, mas continuo tentando.
Qual é a parte mais exaustiva e artesanal da sua criação que o público ainda não consegue enxergar no palco?
Não explico nem negocio minha identidade. Não é minha muleta. É meu amuleto.
É muito caro ser quem eu sou. E disso eu jamais abriria mão.
Qual sonoridade você ainda não encontrou, mas sente que precisa inventar para traduzir o que vive hoje?
Acho que tudo funciona em processo. As pessoas às vezes fingem que entenderam um pouco mais só para não se sentirem para trás. Pode ser que uma fase fique mais literal, mas também não me vejo como uma criadora excessivamente explicativa ou complexa.
Talvez eu levante mais perguntas do que respostas. Sou curiosa e gosto de compartilhar essa curiosidade com quem também gosta de um certo voyeurismo.
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Fotos por Gustavo Vieira
Agradecimentos à Iza Costa da Assessoriza
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