Delcu nunca deixa a pista confortável por muito tempo

Delcu fala ao deepbeep sobre excesso, pista, expectativa e o prazer de deslocar a pista alguns centímetros do lugar esperado.

Delcu constrói sets que misturam excesso, ruído pop e mudanças bruscas de direção sem deixar a pista respirar confortável por muito tempo.

Delcu não parece interessada em deixar a pista confortável por muito tempo. Os sets dela funcionam como um organismo em mutação contínua. Graves violentos, melodias fofas, ruído digital, pop acelerado e mudanças bruscas de direção aparecem sem pedir licença ou preocupação excessiva com coerência estável. Tudo parece perto demais do excesso. E talvez seja justamente aí que a música dela encontra força.

O interessante é que nada soa aleatório. Existe cálculo dentro da desorientação. Delcu parece menos preocupada em entregar estabilidade e mais interessada em perceber até onde um público consegue ser deslocado sem perder completamente o corpo coletivo da pista. Em vez de seguir linha reta, ela desmonta expectativa, muda temperatura, reconstrói energia e reposiciona o ambiente alguns centímetros fora do eixo esperado.

Quando define o próprio som como “meio fofo, meio violento”, ela não está falando apenas de estética. Está falando do prazer de aproximar elementos que normalmente não deveriam coexistir no mesmo espaço emocional. O acolhimento dura pouco. A ruptura também. Uma coisa reorganiza a outra o tempo inteiro.

A playlist “Sem pedir permissão” ajuda a entender esse percurso. O começo atravessa MPB, jazz, trip hop e indie antes de acelerar em direção ao pop mutante de M.I.A., Justice e Charli XCX até chegar a territórios mais agressivos da música eletrônica. A sensação é de alguém sabotando a própria zona de conforto em tempo real.

Na conversa com o deepbeep, Delcu fala sobre excesso, pista, expectativa e sobre o prazer específico de reconstruir uma pista logo depois de quase desmontar tudo.

Lísias Paiva, criador e editor

Delcu, seus sets têm uma sensação de excesso, como se várias ideias estivessem acontecendo ao mesmo tempo e ainda assim funcionassem. Em que momento o caos deixa de ser risco e vira linguagem?
Eu não acho que o caos deixe de ser risco, ele só muda de lugar. Pra mim, ele vira linguagem quando eu aprendo a sustentar isso. Essa sensação de excesso tem muito a ver comigo, com a forma como penso. Então não enxergo isso apenas como uma escolha estética, mas quase estrutural. A pista vira um espaço onde posso testar isso na hora, ver até onde dá pra ir.

Você mistura coisas que muita gente manteria separadas. Em que momento você percebe que não precisa mais escolher um lado?
Nunca teve um momento. Pessoalmente, nunca fez sentido escolher um lado só, seja tocando ou produzindo. Eu gosto de muitas coisas e quero poder mostrar isso. Admiro muitos artistas que mantêm uma linha de som mais definida, mas os sets que mais me marcam são justamente os que misturam, quebram a pista e depois reconstroem tudo de um jeito inesperado. De alguma forma, são esses que continuam ressoando em mim muito tempo depois.

Você descreve seu som como algo meio fofo, meio violento. O que te interessa nessa contradição?
O momento em que uma coisa anula a expectativa da outra. Eu gosto do choque.

Tem muita pista hoje que responde rápido ao que já conhece. O que você faz quando percebe que pode ir para um caminho mais fácil, mas escolhe tensionar um pouco mais?
Eu sempre gostei de artistas que desafiam as expectativas do público. É isso que me interessa e acho que é exatamente nesse lugar que existe a criação mais genuína, quando você não tenta colocar o seu próximo passo sob a ótica do outro, porque isso te desloca de você mesmo. Claro que existem contextos e um dos meus principais trabalhos como DJ é ler o público, mas sinto que tensionar um pouco e levar para um lugar inesperado — que ainda faça sentido dentro do todo — faz com que a construção da volta para um lugar “confortável” fique ainda mais interessante.
Eu não quero confrontar a pista o tempo inteiro, mas gosto de brincar com as expectativas, mover alguns centímetros do lugar esperado. Acho que, se você estica demais, pode acabar rompendo. Se não estica nada, pode deixar as coisas meio planas. Então tento achar um meio-termo.

Se alguém tentasse organizar seu set em categorias, o que necessariamente ficaria de fora?
Tédio.

Depois de um set intenso, quando tudo para, o que ainda fica no seu corpo?
Energia acumulada e zumbido no ouvido.

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Foto por João Moura

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