Joaquim e as músicas que continuam acontecendo depois

Entrevista e playlist do Joaquim para o deepbeep

Enquanto muita música tenta capturar atenção imediatamente, Joaquim parece mais interessado naquilo que continua reverberando depois que a faixa termina.

Existe uma diferença importante entre música que impressiona rápido e música que continua reverberando internamente muito depois do fim. O trabalho de Joaquim parece nascer exatamente desse segundo lugar.

As canções dele partem de experiências íntimas, vulneráveis e silenciosas, mas raramente funcionam como simples confissão. Existe sempre uma transformação acontecendo no caminho entre sentimento e música. O que era pessoal deixa de pertencer completamente ao autor assim que encontra verso, melodia e escuta coletiva.

Talvez por isso o palco tenha se tornado tão importante dentro do universo dele. Quando músicas originalmente construídas num espaço mais interno encontram a energia imprevisível de um show ao vivo, a vulnerabilidade muda de escala. O público interfere diretamente na intensidade da experiência. O que já era emocionalmente exposto ganha outro tipo de risco quando encontra reação imediata do outro lado.

Ao mesmo tempo, Joaquim parece operar numa direção quase oposta à lógica acelerada do consumo contemporâneo. Em vez de tentar resolver sentimento rapidamente, suas músicas parecem interessadas justamente em prolongar permanência, demora e elaboração emocional. Existe uma confiança rara no tempo. Não como lentidão performática, mas como tentativa real de deixar as emoções assentarem antes de desaparecerem.

A 7ª edição do Circuito Nova Música atravessa São Paulo, Campinas, Sorocaba e Limeira entre os dias 28 e 31 de maio reunindo artistas que operam fora da lógica mais imediata do consumo musical acelerado. Joaquim faz parte dessa edição.

A playlist “o que continua depois” acompanha exatamente essa lógica. Entre Stevie Wonder, Rubel, Nina Simone, Almir Guineto e faixas autorais, Joaquim organiza músicas que permanecem reverberando por causa de uma frase, uma melodia ou uma sensação difícil de explicar completamente.

Na conversa com o deepbeep, Joaquim fala sobre vulnerabilidade, palco, permanência emocional e sobre por que algumas músicas parecem continuar acontecendo mesmo depois do silêncio.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Joaquim, as suas músicas partem de detalhes muito íntimos, mas acabam criando identificação coletiva. Em que momento você percebe que algo pessoal deixou de ser só seu?
Normalmente já ocorre um distanciamento natural entre aquilo que eu experiencio e aquilo que vira canção. Faz sentido que outra pessoa se relacione com os enredos das minhas canções, mais até do que eu algumas vezes, justamente por isso. Claro que muita coisa parte de dentro e assim fica, mas qualquer ideia sempre serve à música antes de servir à minha vida.
E é muitas vezes escrevendo que eu descubro que o que senti, sinto ou quero sentir cabe em verso. Então, respondendo: percebo que algo pessoal deixa de ser meu geralmente assim que a ideia ou o sentimento vira música.

Grande parte do seu trabalho parece nascer num lugar silencioso e muito interno. O que muda quando essas músicas encontram a energia imprevisível do palco?
Acho que o mais destacável é o contato extremamente direto com o impacto emocional que algumas das faixas causam em parte do público. Venho descobrindo que o repertório do Varanda dos Palpites combina muito com essa dinâmica mais fluida de um show voz e piano, e o que já era rasgado, vulnerável, fica mais estimulante na performance ao vivo. É bem doido.

Existe uma intensidade emocional muito forte no que você faz, mas ela nunca soa exagerada. O que você evita para não transformar sentimento em excesso?
Não penso muito nisso. Faço o óbvio, que é evitar aquilo que me soa cafona no instinto, mas nada muito pragmático nem constante. Como eu disse na primeira resposta, o meu texto se desvencilha às vezes do que eu vivo ou do que eu acho. Inclusive, diria que passa mais por extrapolar meus estímulos mais comedidos do dia a dia do que por controlá-los.

Seu som mistura precisão e vulnerabilidade de um jeito raro. O que você faz questão de deixar aberto ou desorganizado dentro de uma música?
Depende muito da música. E, sinceramente, não faço questão de muita coisa, não. Só de pouca amarra para pensar, talvez. Ainda assim, é difícil cravar. Realmente varia muito.

Hoje muita música tenta capturar atenção rápido. O seu trabalho parece confiar mais no tempo. O que ainda merece demora para você?
Gosto de demorar em sentimentos, gastar um tempo tanto no êxtase quanto na melancolia. Geralmente eles vão ganhando mais forma e fazendo mais sentido quando me esforço para impedir que sumam rápido. Fica mais fácil criar consciência quando você dá tempo para os ânimos assentarem. Não baixarem, mas se estabelecerem. E, quando a consciência anda em harmonia com eles, fica mais legal.

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Fotos por Livia Rodrigues e Mari Blum

Agradecimentos à Francine Ramos pela conexão

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