
Isabeli Fontana fala sobre mistério, maturidade, exposição e por que algumas presenças continuam fortes mesmo numa cultura obcecada por excesso de visibilidade.
Isabeli Fontana surgiu em uma época em que a moda ainda produzia distância. A imagem vinha primeiro. O resto quase nunca aparecia. Existia silêncio entre uma campanha e outra. Existia espera. Existia projeção. Hoje, a lógica parece exigir o contrário: exposição contínua, intimidade performada e atualização permanente da própria imagem. Parte da aura desapareceu. Outra parte virou conteúdo diário. A indústria continua produzindo rostos o tempo inteiro, mas parece cada vez mais difícil construir presença duradoura no meio de tanta visibilidade instantânea. Ao longo da carreira, Isabeli atravessou essa mudança sem abandonar completamente o mistério. Sua imagem nunca pertenceu ao arquétipo mais previsível da moda. Existe nela uma tensão constante entre força, vulnerabilidade, silêncio e presença física que continua escapando da exposição total. Talvez porque, depois de tantos anos ocupando passarelas, campanhas e editoriais, ela tenha entendido uma coisa que a cultura da hiperexposição ainda tenta ignorar: presença não nasce da quantidade de informação. A moda continua obcecada por juventude, atualização e velocidade. Mesmo assim, certas mulheres seguem ocupando espaço por motivos que não cabem completamente no algoritmo da imagem perfeita. Isabeli parece entender exatamente esse lugar. Na conversa com o deepbeep, ela fala sobre imagem pública, corpo, maturidade, passarela, silêncio e sobre como aprendeu a ocupar espaço sem transformar tudo em explicação. A playlist “ritmo em estado de presença” acompanha essa lógica com músicas usadas para organizar energia, foco e movimento interno entre Lou Reed, Ney Matogrosso, Mulatu Astatke, Khruangbin, Criolo e The xx.
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, social media
Você construiu sua carreira em uma época em que a imagem da modelo era feita de distância, silêncio e projeção. Hoje, a indústria opera pela exposição constante, pelo cotidiano aberto e pela intimidade pública. O que se perdeu e o que se ganhou nessa virada? O mistério ainda tem espaço na cultura visual contemporânea?
Nossa, mudou bastante. Na minha época — e falo isso com orgulho — a gente era quase como figuras mitológicas. Você via a foto na revista e imaginava quem era aquela mulher. Existia um mistério, um desejo de decifrar. Mas não acho que o mistério tenha desaparecido por completo, só está mais difícil de sustentar.
Eu vivi um período em que a imagem tinha mais silêncio, em que o silêncio comunicava. Havia uma construção muito deliberada ao redor de uma imagem que o público não podia atravessar. Hoje, tudo é mais imediato, mais acessível, mais humano também. Isso aproxima, cria identificação, dá voz. Com essa necessidade de postar o café da manhã e o treino, sinto que a “aura” se desgastou um pouco. Hoje qualquer pessoa pode te ver acordada, sem maquiagem. Isso humaniza, mas também pode esvaziar.
O que se perdeu foi essa distância que gerava fascinação. O que se ganhou foi a possibilidade de ser real, de ter uma voz além do corpo. A modelo não é só um cabide, ela fala o que pensa, mostra suas causas. Sem muita nostalgia, sinto falta de épocas em que uma imagem podia durar anos na memória das pessoas sem precisar de novidades toda semana para continuar existindo.
Hoje, o mistério está naquilo que você escolhe não mostrar, na forma como constrói sua narrativa no meio de tanta exposição. Ainda existe espaço para o invisível, para o que não se explica. E, na moda, isso continua sendo muito poderoso.
Ao longo da sua trajetória, sua presença sempre fugiu do arquétipo mais previsível da moda. Existe uma tensão interessante entre personagem, imagem pública e vida real na sua trajetória. O que da Isabeli fora da câmera entra em cena quando você pisa na passarela? Onde termina a performance e começa a pessoa?
A Isabeli que entra na passarela não é uma personagem que eu visto e depois tiro. Ela é uma versão de mim que foi sendo construída ao longo do tempo, com tudo que vivi, aprendi, sofri e amei. O que muda é a intensidade do foco. Na passarela, eu edito. Deixo de fora o ruído e fico com o essencial. Fora dela, me permito ser mais dispersa, mais contraditória, mais humana no sentido mais bagunçado da palavra. Mas a mulher que sou fora da câmera é a matéria-prima de tudo que aparece dentro dela. Não tem como separar. As histórias que carrego no corpo, as maternidades, as perdas, as reconstruções, estão todas presentes em cada passo que dou. Levo tudo comigo. A câmera não mente sobre isso.
A performance é o figurino, a luz, o conceito do estilista. Mas o olhar? O olhar é 100% meu.
A passarela também trabalha ritmo, pausa e presença coletiva. Quando você desfila, existe uma música interna organizando corpo, olhar e movimento?
Com certeza. A passarela não é só visual, ela é frequência. Mesmo quando a música do desfile é uma loucura, eu tenho o meu próprio BPM interno. É um ritmo que vem da respiração, quase uma música interna, uma frequência que organiza tudo: o passo, o olhar, a respiração. Eu sinto muito o ritmo coletivo também, aquela energia que conecta todo mundo ali: modelos, equipe, público. É como se fosse uma dança silenciosa. E cada desfile tem um som diferente dentro de mim. Às vezes é algo mais forte, quase pulsante. Outras vezes, é suave, quase meditativo.
Modelar é uma forma de atuação sem texto. Tudo passa pelo gesto mínimo, pela presença e pelo controle do corpo no espaço. Como você prepara esse estado antes de um trabalho importante? Você precisa de silêncio, estímulo, caos, música?
Depende muito do momento, mas eu sempre busco um estado de presença. Pode ser no silêncio ou na música.
Antes de um trabalho, gosto de desacelerar por dentro, mesmo que tudo ao redor esteja caótico. O caos, inclusive, às vezes é estimulante. Pode ter música alta, gente correndo… o importante é eu continuar inteira. Aprendi isso com o tempo. Quando era mais nova, achava que precisava de agitação para performar. Hoje sei que é um estado de alerta, mas com calma absoluta.
A moda é obcecada pela juventude, mas presença, leitura de cena e segurança são construções que levam tempo. O que mudou na sua relação com o próprio corpo, com o olhar do outro e com a ocupação do espaço ao longo dos anos? Existe uma maturidade que não é visível, mas é sentida?
Completamente. E acho que é a parte mais interessante de tudo. Quando eu tinha vinte anos, ocupava o espaço com o corpo, mas não com presença. Hoje eu chego em algum lugar e sinto que existe algo que não precisa mais ser provado ou conquistado. Não é arrogância, é o contrário: uma espécie de leveza que vem de já ter passado pelo peso.
Minha relação com o próprio corpo mudou radicalmente. Fui mãe, enfrentei momentos em que não reconhecia o que via no espelho, reconstruí a relação com a minha imagem várias vezes.
Com o tempo, você para de se importar tanto com o olhar do outro e passa a ocupar o espaço com mais autoridade. Hoje me sinto mais confortável no meu corpo, mais dona da minha presença. O olhar do outro já não define tanto, ele dialoga. Existe uma maturidade que talvez não seja visível de imediato, mas é totalmente sentida. Está no jeito de andar, de ocupar o espaço, de sustentar o olhar.
A maturidade que não aparece na foto é justamente a que faz a foto acontecer de um jeito que não era possível antes.
Acompanhe o trabalho de Isabeli Fontana
Isabeli Fontana no Instagram
Isabeli Fontana no YouTube
Isabeli Fontana na Silent Models
Isabeli Fontana no X
Fotos por Marcio Amaral
Agradecimentos
.
.
No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.
Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br