Gabriel do Borel acha que o funk mudou menos do que parece

Gabriel do Borel em entrevista e playlist para o deepbeep sobre funk, pertencimento, comunidade e a mudança de percepção sobre a cultura periférica brasileira.

Gabriel do Borel viu o funk sair da condição de problema e virar referência global. O curioso é que, para ele, a cultura continuou tão potente quanto antes.

Antes do funk ocupar festivais internacionais, playlists globais e colaborações entre artistas de diferentes países, Gabriel do Borel já estava ali. Nascido e criado no Complexo do Borel, o produtor se tornou uma das figuras centrais de uma geração que ajudou a expandir o alcance do funk carioca sem abrir mão da linguagem que o tornou relevante. Ao longo dos últimos anos, trabalhou com alguns dos principais nomes da música brasileira e participou de um movimento que alterou profundamente a forma como o gênero passou a ser percebido dentro e fora do país.

Seria natural imaginar que essa trajetória levasse a uma conversa sobre crescimento, profissionalização ou reconhecimento internacional. Gabriel prefere olhar para outro lugar. Ao longo desta entrevista, ele retorna repetidamente a uma ideia simples. O funk sempre foi criativo. Sempre foi inovador. Sempre esteve conectado à realidade de quem vive a periferia. A cultura já existia. A linguagem já existia. O pertencimento já existia. O que mudou foi a disposição das pessoas para prestar atenção.

Talvez por isso a conversa acabe falando menos sobre mercado e mais sobre comunidade. Menos sobre exportação e mais sobre identidade. Menos sobre sucesso e mais sobre a capacidade da música de criar vínculos que sobrevivem muito além da pista.

A playlist “Antes de Virar Movimento” ajuda a entender essa formação. Entre Cidinho & Doca, MC Marcinho, Claudinho & Buchecha, Bonde do Tigrão, MC Sapão, DJ Marlboro, Racionais MC’s e Bob Marley, Gabriel reúne músicas que ajudaram a moldar sua forma de entender som, cultura e pertencimento.

Na conversa com o deepbeep, Gabriel do Borel fala sobre funk, comunidade e sobre por que algumas linguagens continuam sendo subestimadas mesmo depois de influenciarem o mundo inteiro.

Lísias Paiva, criador e editor

Gabriel, você cresceu vendo o funk ser tratado como problema por muita gente e hoje vê artistas do mundo inteiro olhando para ele como referência. O que mudou mais rápido, o funk ou o olhar sobre o funk?
Acho que o olhar sobre o funk mudou mais rápido. O funk sempre foi criativo, inovador e conectado com a realidade de quem vive a periferia. O que mudou foi que o mundo começou a prestar atenção. Hoje as pessoas entendem que o funk não é só um gênero musical, é cultura, linguagem, comportamento e identidade.

Qual foi a primeira música que fez você perceber que som também podia ser poder?
Não foi uma música específica. Foi perceber o impacto que o funk tinha nas pessoas. Ver uma comunidade inteira cantando a mesma música, se identificando com a mesma história e encontrando alegria mesmo em meio às dificuldades me fez entender que música é muito mais do que entretenimento. Música conecta, representa e transforma.

O sucesso costuma transformar culturas vivas em estética. Como você percebe quando alguma coisa ainda tem verdade e quando virou apenas linguagem visual?
A verdade está na intenção. Quando existe vivência, respeito e conexão real com aquilo que está sendo feito, as pessoas sentem. Quando vira apenas estética, geralmente falta profundidade. Eu acredito que cultura não é fantasia. Cultura é história, é experiência, é pertencimento.

Tem alguma regra não escrita do baile que pessoas de fora quase nunca entendem?
Respeito. O baile sempre foi um espaço coletivo. Existe uma troca de energia, um senso de comunidade e uma série de códigos que não precisam ser falados. Quem frequenta entende naturalmente que o baile é um lugar de expressão, convivência e pertencimento.

O que ainda faz você acreditar que uma música pode mudar alguma coisa além da pista?
As histórias que chegam até mim. Pessoas que encontraram motivação, felicidade, autoestima ou até oportunidades através da música. Quando uma música atravessa a vida de alguém, ela já mudou alguma coisa. Nem sempre a mudança é gigantesca, mas ela existe.

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Fotos por Brabo

Agradecimentos à Larissa Martin da Omim Comunicação

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