From House to Disco e os lugares onde a liberdade encontrou pista

From House To Disco

Bruna e Lívia criaram o From House to Disco olhando para uma herança que continua atual. Antes de virar entretenimento, a pista já funcionava como espaço de liberdade, pertencimento e comunidade.

Bruna e Lívia não passam muito tempo olhando para trás. E isso ajuda a entender o From House to Disco. O projeto nasceu da house e da disco, mas nunca foi uma tentativa de reproduzir uma época. O interesse da dupla está em outra pergunta. Por que determinadas músicas continuam produzindo encontro décadas depois de terem sido criadas? A resposta não está apenas nos grooves, nos samples ou nas linhas de baixo.

Grande parte dessa música nasceu em comunidades negras, latinas e LGBTQIAPN+ que transformaram a pista em espaço de convivência, liberdade e pertencimento quando quase nenhum outro lugar oferecia isso. Essa história continua viva. Muda a geração. Mudam as ferramentas. Muda a forma de consumir música. A necessidade de encontrar outras pessoas permanece. Por isso a house e a disco continuam reaparecendo em novas pistas, novos artistas e novas releituras. Como linguagens que carregam experiências coletivas difíceis de substituir.

A playlist que acompanha esta entrevista ajuda a percorrer esse caminho. Uma seleção construída por Bruna e Lívia a partir das referências que alimentam o olhar da dupla para música, cultura de pista e comunidade. Na entrevista ao deepbeep, o From House to Disco lembra que algumas pistas nasceram para muito mais do que dançar.

Lísias Paiva, criador e editor

Bruna e Lívia, o nome do duo já é um manifesto. O que a house e a disco ainda dizem sobre o presente que outros gêneros não conseguem dizer?
Muitos gêneros musicais têm seu espaço legítimo para falar sobre comunidade e resistência. No entanto, a house e a disco ocupam um lugar de autoridade particular nesse diálogo, por ambos terem sua origem ligada a comunidades negras, latinas e LGBTQIAPN+, em um momento em que esses grupos eram marginalizados em outros espaços. Então existe um lugar muito proprietário pra se falar de liberdade e pertencimento dentro desses dois gêneros e isso é algo atemporal.

O deepbeep valoriza a música como processo e permanência, um claro contraponto às trends de 15 segundos. O trabalho de vocês é sobre essa espessura. Como vocês enxergam o desafio de mostrar a potência da disco e da house para uma geração que cresceu nesse ambiente digital acelerado?
Sempre vai existir quem queira sentir a música, não só ouvir. Mesmo num mundo acelerado, vemos que ainda existe uma geração que resiste: gente curiosa, inquieta, que não aceita que um algoritmo diga o que ela deve gostar. É pra essa galera que a gente toca e produz. A house e a disco sempre foram sobre isso: liberdade, escolha, presença.

Então, mais do que lutar contra o digital, o que vale hoje é mostrar que dá pra “remixar o tempo”, trazer de volta o que é essencial. E é lindo ver novos artistas fazendo isso: pegando samples de 40, 50 anos atrás e recontando essas histórias pra uma nova geração, pra quem quer sentir e não só ouvir por 15seg uma música. De certa forma, nos encaixamos aí.

O som do From House to Disco conecta passado e presente, mas também inventa futuro. O que guia esse filtro criativo? O prazer de redescobrir grooves esquecidos, a vontade de preservá-los ou a obsessão de reinventá-los para uma nova pista?
Acho que um pouco de tudo, viu. Existe o prazer de redescobrir grooves esquecidos e trazê-los de volta em uma nova releitura. Muita coisa boa já foi feita, é um desperdício olhar só pra frente. E sempre vai haver uma nova geração pra quem aquilo tudo é uma grande novidade.

Criar em dupla também é negociar. O que vocês aprenderam sobre convivência criativa que talvez nenhum curso de produção musical ensinaria?
Criar em dupla é um exercício constante de escuta e desapego. A gente aprendeu que nem sempre a melhor ideia é a que vem de você. Às vezes é a que a outra te faz enxergar. Abrir espaço pra isso muda tudo, porque a música acaba saindo do meio, não do ego. Convivência criativa é sobre intimidade, confiança e tempo. O FHTD tem sete anos, mas a Livia e a Bruna têm onze, então já andamos muito pra chegar nesse equilíbrio de hoje (hahaha).

A pista pode ser só diversão, mas também pode ser resistência e comunidade. Qual é a conversa invisível que vocês querem acender entre as pessoas quando o From House to Disco assume o som?
A gente quer acender um sentimento de liberdade coletiva. Quando o From House to Disco assume o som, o que importa pra gente é que as pessoas se sintam parte de algo maior, mesmo que por algumas horas. A pista pode ser divertida, mas também é espaço de expressão e de troca. A gente entende de onde a house e a disco vieram e o que elas representam, então tentamos honrar essa energia do encontro, do cuidado, do olhar que se cruza e se entende. É sobre criar um lugar onde todo mundo possa ser e estar sem pedir licença, não importa quem seja.

Remixar “Garota Sangue Bom” é, de certa forma, mexer num arquivo vivo da cultura pop brasileira. O que vocês quiseram “rasurar” ou ressaltar nessa faixa para que ela falasse com 2025?
Sim, é verdade, é uma joia rara, né? Desde o começo, a nossa maior preocupação foi tratar esse trabalho com o cuidado que ele merece. É muito comum, em remixes, que se mexa bastante nos vocais, mudando o pitch, cortando partes… Mas aqui, a nossa prioridade foi o vocal potente da Fernanda e a letra afiada de Garota Sangue Bom. Seria um desperdício mexer nisso. Então, com essa base vocal tão forte em mãos, nos demos a liberdade de explorar novos caminhos no instrumental, sempre respeitando a melodia original como referência, é claro.

O remix de “Garota Sangue Bom” mostra como a obra da Fernanda continua atual e pulsante. O que vocês acham que esse encontro entre o “Da Lata” dos anos 90 e a pista de 2025 revela sobre a força e a permanência do batuque digital brasileiro?
A gente acredita muito nesse movimento cíclico das coisas. É muito doido pensar que, lá nos anos 90, a Fernanda já estava revolucionando o pop brasileiro ao incorporar batidas eletrônicas do house e do funk. E agora, 30 anos depois, são justamente os festivais gringos de house (e de techno) que estão descobrindo os DJs e produtores de funk do Brasil. Quando algo é bom de verdade, ele volta. Ele encontra novos espaços, novas gerações, novas formas de existir. E isso é lindo, né? É assim que artistas que marcaram uma época reaparecem com frescor, com novidade, como a própria Fernanda, entre tantos outros.

Se vocês pudessem escolher uma única pista de dança na história (real ou imaginária) para tocar um set do From House to Disco, qual seria e por quê?
Uma única pista de dança na história? Pô, que sacanagem. Vamos ter que criar um híbrido aqui, algo entre o Paradise Garage (que tinha entrega, comunhão, essa coisa toda da pista como templo) e o Studio 54 (cheio de liberdade, mistura e uma estética ousada que marcou toda uma época). Seria o “Paradise 54” (hahaha). Brincadeiras à parte, o From House to Disco vive nesse meio-termo, entre o coletivo e o íntimo, o espiritual e o ousado. Então tocar em um “Paradise 54” seria simplesmente perfeito.

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Fotos por
Mo Almeida

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