
Filipe Grimaldi fala sobre o instante em que um ofício deixa de ser apenas função e passa a mudar a forma como uma cidade enxerga a si mesma.
Uma placa indica um comércio. Um letreiro ajuda alguém a encontrar um endereço. Uma pintura organiza uma fachada. Antes de serem reconhecidos como cultura, esses gestos precisaram funcionar. Durante muito tempo, ninguém chamou isso de patrimônio. Chamou de ofício.
A pintura tradicional de letras pertence a esse território. Durante décadas foi tratada apenas como um serviço destinado a desaparecer. Hoje também ajuda a compreender a memória visual das cidades, a circulação da cultura popular e a maneira como uma comunidade registra a própria presença. As letras não mudaram. O olhar sobre elas, sim.
É por isso que Filipe Grimaldi pesquisa, ensina e pratica a pintura de letras tradicionais brasileiras. Hoje, esse repertório circula entre oficinas, salas de aula e museus, ampliando o reconhecimento de um ofício que durante décadas permaneceu restrito ao cotidiano. Mercados, oficinas, fachadas, muros e pequenos comércios deixam de aparecer apenas como cenário e passam a revelar escolhas estéticas, modos de viver e formas de ocupar a cidade. O que parecia apenas funcional também produz linguagem.
Na entrevista ao deepbeep, Filipe fala sobre o momento em que um objeto comum deixa de ser apenas utilitário, sobre o ritmo que aproxima música e pintura, sobre a importância da pixação paulista e sobre aquilo que ainda merece ser feito à mão.
A playlist “A Cidade Tem Ritmo” acompanha essa investigação com músicas para caminhar mais devagar. Faixas que ajudam a perceber que uma cidade também escreve sua história nas fachadas, nos mercados, nos muros e nas pequenas soluções criadas por quem trabalha nela todos os dias.
Lísias Paiva, criador e editor
Filipe, em que momento uma coisa comum deixa de ser paisagem e passa a produzir cultura?
Quando alguém enxerga um processo criativo naquilo. A partir do momento em que um banco de madeira ou um cartaz de mercado é percebido não só como ofício, mas também como um processo criativo, aquilo se torna linguagem.
O que uma boa música e um bom letreiro entendem sobre ritmo?
Para ambos, o equilíbrio dos elementos.
Toda cidade desenvolve uma caligrafia própria. Qual delas nunca deveria desaparecer?
A pixação paulista, sem dúvida. A importância dela é tão grande quanto a de qualquer pintura rupestre de milhares de anos.
O que ainda merece ser pintado à mão?
Só merece ser pintado aquilo que é verdadeiro. Se não é, não precisa pintar.
O que a cidade revela para quem diminui o passo?
A sua própria cidade. Primeiramente, pezinho no chão.
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Fotos por Felipe Galvão
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