
Entre repetição, corpo e ancestralidade, EGITOROCK constrói um som que mistura pós-punk, quebrada e afrogótico sem reduzir nenhuma dessas camadas.
EGITOROCK não parece interessado em caber no que já existe. O que aparece no trabalho dele não organiza um gênero, tensiona alguns ao mesmo tempo. Em certos momentos, isso se aproxima do que ele chama de afrogótico, mas o termo funciona mais como direção do que como definição. O ponto não é nomear, é conseguir sustentar uma mistura que vai do pós-punk à quebrada sem suavizar nenhuma das duas pontas. A música insiste. Repete, pesa, volta. Não como recurso estético, mas como forma de atravessar o corpo de quem escuta. Em vez de conduzir, ela mantém a tensão. Nem sempre resolve, e nem parece querer resolver. Esse lugar não surge agora. O elemento ritual já estava presente antes, mas aqui ganha outra intensidade. Fica mais exposto, menos mediado, mais difícil de reduzir a uma leitura só. Ao mesmo tempo, não existe nostalgia. O passado entra como matéria, não como limite. Blues, referências orientais, tudo atravessado por ferramentas digitais que não limpam o som, mas ampliam o alcance do que ele já carrega. Na conversa com o deepbeep, EGITOROCK fala desse processo sem tentar fechar sentido. Onde a música deixa de ser ideia e vira estado. Onde o algoritmo não dá conta. E porque nem toda escuta precisa entender para funcionar. A playlist “O Som Que Não É Só Música” acompanha esse movimento. Um recorte que atravessa Siouxsie and the Banshees, Twin Tribes, Tasha & Tracie, Lebanon Hanover e Chelsea Wolfe. Referências que ajudam a entender por onde esse som passa, sem limitar onde ele chega.
Lísias Paiva, sócio-fundador
Quando você assume EGITOROCK, parece que não é só um projeto novo, mas uma mudança de estado. O que você consegue acessar ali que não aparece em outros trabalhos?
EGITOROCK é uma repaginada de mim mesmo para me colocar no mundo. O som ritualístico sempre fez parte dos meus projetos, mas aqui eu transito mais pelo meu lado sombrio e melancólico. Consigo expressar com mais liberdade toda a poesia que existe dentro do meu peito.
Tem uma presença forte de ritual e repetição no seu som, quase como se a música fosse menos composição e mais invocação. Em que momento você percebe que uma faixa saiu da cabeça e entrou no corpo?
No momento em que eu verbalizo meus pensamentos. A composição surge como um chamado ancestral. Eu não sei exatamente de onde vem, mas quando chega, vem como uma linguagem espiritual. Aí eu coloco a poesia para trabalhar e encaixar tudo em uma só obra.
Seu trabalho mistura elementos muito ancestrais com ferramentas totalmente digitais. O que te interessa nessa tensão entre o que é antigo e o que é construído agora?
Minha escola musical foi o blues e músicas do oriente. Acho que é um dever usar o passado com o presente, sem se limitar a ele. O artista é porta-voz do futuro. Meu trabalho se expande melhor no tempo em que vivo, conectando o passado a algo que pode tocar outras gerações.
Hoje o algoritmo tende a empurrar tudo para um lugar mais reconhecível. Onde você sente que o que você faz entra em conflito com isso?
O algoritmo é uma faca de dois gumes. Quando você sai da bolha, encontra quem se identifica e ama o seu trabalho, mas também quem rejeita sua estética. Isso faz parte. Amor, ódio, descoberta, representatividade. Ainda mais no Brasil, é um caminho sem saída.
Quando alguém escuta sua música só como estética, sem acessar o que está por trás, isso te incomoda ou faz parte do jogo?
A música primeiro te pega pela estética. Depois você acessa outras camadas. Isso leva tempo. A identificação vem aos poucos. Eu entendi esse jogo. Faz parte para quem quer viver de arte.
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Fotos por Mädchen Vivi
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