DJ Mau Mau e a música que ainda falta descobrir

Mau Mau, DJ e produtor musical, em entrevista ao deepbeep sobre música eletrônica e a cena underground paulistana.

Quase quatro décadas depois de começar a tocar, Mau Mau continua em busca de sons desconhecidos e defende uma cena que construiu sua história longe do reconhecimento da indústria.

Nos anos 80, descobrir uma música nova podia significar passar a tarde em lojas de discos do centro de São Paulo, acompanhar revistas especializadas e esperar que alguém trouxesse do exterior aquele importado que não chegava ao Brasil. DJ Mau Mau frequentava a Wop-Bop, a Bossa Nova e o Museu do Disco em busca das novidades. Hoje, com a música a poucos cliques de distância, continua procurando o que ainda não conhece.

A relação com a música começou antes das picapes. Em casa, a família se reunia com amigos e músicos para fazer rodas musicais. Na adolescência, Mau Mau estudou diferentes estilos de dança e se aproximou do hip-hop e do break, frequentando os encontros da São Bento. A dança ajudou a desenvolver uma percepção de ritmo que ele levaria para a cabine.

Aos 18 anos, decidiu apostar na carreira de DJ sem o apoio dos pais. Trabalhava no banco, saiu de casa e foi morar com amigos. Depois, deixou o emprego e a faculdade para se dedicar à música. Naquela época, a profissão tinha pouco reconhecimento e poucas garantias. A escolha exigiu que ele construísse o próprio caminho.

Quase quatro décadas depois, Mau Mau continua interessado no que está fora do circuito mais previsível. Procura novos produtores, acompanha selos independentes e valoriza coletivos que mantêm a cultura underground em movimento. Também chama a atenção para uma parte da história que pode desaparecer quando a música eletrônica é contada apenas pelo tamanho de sua indústria: a experiência de quem construiu a cena quando faltavam espaço, apoio e reconhecimento.

A conversa acontece no contexto do SubLAB, projeto que começa em 24 de outubro no Centro Cultural São Paulo e reúne encontros e apresentações ligados à cena eletrônica underground. A proposta inclui registrar conversas e depoimentos para formar um acervo sobre a história da música eletrônica paulistana. Para um DJ que atravessou diferentes fases dessa história e continua pesquisando música, a memória da cena não é assunto distante da pista. Na playlist “Sem Radar”, Mau Mau abre uma janela para o que anda ouvindo agora, entre descobertas e sons que continuam surpreendendo depois de tantas escutas. Mesmo depois de quase quatro décadas, ainda tem muita música esperando para ser encontrada.

Lísias Paiva, criador e editor
Com colaboração de Claudio Thorne e arte por Mateus Nicastro

Você começou dançando break, passou pelo rock alternativo do Madame Satã e depois levou hip-hop para as pistas. O que a dança ensinou ao seu ouvido que você ainda usa quando está tocando?
A música sempre esteve muito presente na minha vida, desde a infância e a adolescência. Em casa, nossa família sempre se reunia aos finais de semana com amigos e vizinhos, inclusive alguns músicos, para fazer rodas de música. Essa convivência foi muito marcante e bacana nessa fase da vida.
Meu interesse pela dança também começou cedo. Tive a oportunidade de ganhar bolsas de estudo em algumas academias e escolas de dança, onde fiz diversos cursos, passando pelo balé clássico, dança contemporânea, street dance e breakbeat. Nos anos 80, me interessei profundamente pelo hip-hop e pelo breakdance, participando ativamente dos emblemáticos encontros no Largo da Estação São Bento.
Essa forte ligação com a dança e a música me trouxe uma compreensão natural da estrutura musical, como os compassos e os refrões. Esse conhecimento prévio facilitou muito a minha transição quando decidi seguir a carreira de DJ, pois eu já dominava a percepção do ritmo e o momento exato para realizar uma mixagem perfeita.
Tudo isso foi construído de forma autodidata. Vale lembrar que, nos anos 80, quando comecei, não existiam escolas ou cursos para DJs, muito menos internet para buscar informações. Foi essa paixão combinada entre a música e a dança que me deu a base para entender a estrutura sonora e pavimentar o meu caminho nas picapes.

Você pesquisa música há décadas, mas continua procurando sons novos. Como costuma chegar a uma música que ainda não conhece? Existe algum caminho de descoberta em que você confia mais do que nos outros?
Hoje em dia, pesquisar música ficou muito mais fácil por causa da internet, mas, nos anos 80, a realidade era outra: conseguir um disco era um verdadeiro desafio. Em São Paulo, pouquíssimas lojas no centro traziam material importado. Lugares como a Wop-Bop, a Bossa Nova e o Museu do Disco eram os meus pontos de encontro favoritos. Eu estava sempre por lá, antenado com o que chegava, ouvindo e separando as novidades.
Para nos mantermos informados sobre os clubes e os DJs de sucesso, a saída era assinar jornais e revistas especializadas. Eu vivia de olho nos charts e nas playlists que eles publicavam. O problema era a escassez: as músicas anotadas raramente chegavam ao Brasil. Dependíamos de alguém que viajasse para o exterior para trazer os discos, e nem sempre dávamos essa sorte.
A internet transformou tudo. Hoje, pesquiso diretamente em sites de venda digital e acompanho de perto os lançamentos dos selos que adoro, além de seguir as dicas e os sets dos DJs que admiro. O Shazam também virou uma ferramenta mágica: se você está em uma festa e curte o som, basta um clique para descobrir a faixa. A tecnologia mudou, mas a paixão pelo garimpo musical continua a mesma.

Você já contou que sua família não entendeu quando decidiu deixar o emprego no banco para viver de música. Hoje, olhando para aquela escolha, o que você entende sobre si mesmo que não conseguia enxergar naquele momento?
Quando eu estava perto de completar 18 anos, tive que tomar a decisão mais difícil da minha vida: investir na carreira de DJ. Naquela época, eu não tive o apoio dos meus pais. Por outro lado, a minha irmã Sônia foi a pessoa que sempre me incentivou e me apoiou. Como ela escrevia e pintava quadros, sua veia artística acabou sendo uma grande influência para mim.
Eu vivia um momento decisivo. Meus pais tinham acabado de entrar para a igreja evangélica e se tornaram muito radicais em relação à vida noturna. Nos anos 80, o cenário era completamente diferente do de hoje: a profissão de DJ era marginalizada, não tinha valor e só permanecia nela quem era realmente apaixonado pela música. Assim que completei 18 anos, bati o martelo: decidi seguir a carreira, saí de casa e fui morar com alguns amigos.
Na época, eu era funcionário do Banco Bradesco e comecei a conciliar o banco com o trabalho na noite. Com o tempo, decidi largar o emprego e também desisti da faculdade para me dedicar totalmente à carreira de DJ e produtor musical. Demorou bastante para que os meus pais entendessem que eu estava feliz e que conseguia me sustentar com a minha arte.
Olhando para trás hoje, tenho a plena certeza de que tomei a decisão certa. Não me arrependo de absolutamente nada e não faria nada diferente, pois aquela escolha moldou quem eu sou. Já são quase 40 anos de profissão, vivendo feliz e fazendo o que amo. Se eu tivesse a chance de voltar no tempo, tomaria exatamente o mesmo caminho.

Você atravessou diferentes gerações da noite paulistana. O que ainda consegue surpreender você numa pista, depois de tantos anos tocando?
Já vivi muitas fases da noite de São Paulo e do Brasil. Vi estilos nascerem, explodirem e se transformarem. No meio de tudo isso, meu foco nunca mudou: pesquisar, descobrir e mostrar o novo, longe do óbvio e dos algoritmos.
O que me move hoje continua sendo a caça pela música desconhecida, pelos novos produtores, pelos selos independentes e, principalmente, pela força dos coletivos underground que ocupam o espaço público com autonomia, peitando o mercado tradicional.
Valorizo quem pesquisa de verdade. Quem não segue modinha, não copia o top 10 e arrisca na pista com criatividade e inovação. A música eletrônica é isso: evolução constante, vanguarda e futuro. É essa curiosidade pelo que ainda ninguém ouviu que me mantém apaixonado pela profissão todos os dias.

O SubLAB quer registrar a memória da cena underground e abrir espaço para conversas entre gerações. Quando você olha para a história da noite paulistana, que experiência sua gostaria que as pessoas mais novas conhecessem de perto, em vez de apenas ouvir falar?
Muitos dos que hoje frequentam as pistas de dança enxergam o clube apenas como um espaço de entretenimento e escapismo de fim de semana. Mas, para nós, DJs, produtores e operários da noite, estar aqui é a consagração de uma guerra histórica. Nos anos 80, fazer música eletrônica e promover a noite eram atividades marginalizadas, criminalizadas e empurradas para a clandestinidade. Não havia glamour, patrocínio ou validação social. Era amor à arte e, acima de tudo, necessidade de união.
O que a geração atual consome como uma indústria bilionária foi fundado por pessoas que não tinham para onde ir. Entender a história da música eletrônica é compreender que a pista de dança é, fundamentalmente, um ato político.

Você vai encerrar a noite do SubLAB como residente, depois dos DJs convidados. O que muda na sua maneira de tocar quando a pista já passou por outras mãos e você precisa conduzi-la até o amanhecer?
Fazer o encerramento de uma festa é um dos momentos mais cruciais da noite. Como a pista já está aquecida, a responsabilidade é enorme: o closing set é a última memória musical que o público levará para casa. Por isso, minha prioridade é manter a energia alta e, a partir dali, conduzir o público por uma viagem através de diferentes vertentes e surpresas sonoras.
Meu trabalho recusa a linearidade; busco misturar estilos e despertar emoções genuínas na pista. Essa paixão pelo que faço é o que espero transmitir em cada transição. É uma honra imensa ser o DJ residente deste projeto, uma iniciativa que tem tudo para enriquecer a história e a cultura eletrônica do nosso país.

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O SubLAB reúne conversas, experiências e música eletrônica underground no Centro Cultural São Paulo. A programação começa com o Laboratório, espaço para trocar histórias, ouvir faixas que marcaram época e conhecer equipamentos e tecnologias que ajudaram a moldar a cena. Depois, a conversa segue para a pista, com DJs convidados e Mau Mau no encerramento. Tudo será registrado em vídeo para formar um acervo sobre a noite paulistana e alimentar um futuro documentário. Conversamos com o idealizador do projeto, Bassino Treblinsky.

▶︎ O SubLAB junta pista e arquivo, festa e memória no mesmo lugar. Como vocês estão pensando essa convivência na prática, o que rola no Laboratório que depois aparece, ou não, na pista?
O Laboratório está sendo pensado como um espaço de memória, mas também de reflexão e busca de novos rumos, então eu creio que o que vai rolar no bate-papo entre os expositores e os DJs, que é a parte final do workshop, possivelmente vai influenciar sim na escolha das tracks dos DJs, possivelmente fazendo alusão à conversa que acabou de ocorrer. E não vamos esquecer que esse material vai ser coletado, editado e transformado em um documentário que está sendo pensado em conjunto e como uma retribuição da produção da festa à cessão do espaço público

▶︎ Ocupar um espaço público no centro enquanto a cena independente lida com custos e escassez é uma escolha forte. O que essa experiência tem ensinado sobre o que falta para a noite underground de São Paulo ter mais lugares e continuidade?
A pressão dos grandes festivais internacionais, aliada à gentrificacao da cidade e o desaparecimento de clubes históricos e espaços onde a cena florescia – como no caso da Rua Augusta, por exemplo – mostra que a solução é a busca pela união dos diversos núcleos na hora de produzir os eventos, distribuir as datas e ocupar os espaços alternativos, não em um clima de concorrência mas sim de união e fortalecimento da comunidade underground e alternativa, por isso a escolha da SubLAB de fazer a cada edição a parceria com um núcleo novo ou histórico da cena, as próximas edições que já estão agendas serão com a colaboração da Carlos Capslock, da Hi Tek Soul e do histórico Hell’s.


SubLAB convida BLUM
Sábado, 24/10
Centro Cultutal São Paulo (metrô Vegueiro)
Av Vergueiro 1000 – São Paulo
Ingressos para o SubLAB


Workshop às 21h00 com Alain Patrick e DJs

Pista
23h00 Nikkatze
1h00 Renato Cohen
3h00 Mau Mau

Acompanhe o trabalho de DJ Mau Mau
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Música boa não vem com manual, muito menos com ranking. Nesta seleção de DJ Mau Mau, a busca por sons desconhecidos segue firme, entre selos independentes, novos produtores e faixas que viram a pesquisa de cabeça para baixo.

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