Buhr e a vida do lado de fora

Buhr em retrato para o deepbeep durante entrevista sobre música, presença, criação e comportamento.

Buhr fala sobre caos, presença, rebeldia e por que continuar sentindo talvez seja uma das últimas formas de não viver no piloto automático.

Ao longo de mais de duas décadas, Buhr construiu uma das obras mais singulares da música brasileira. Entre discos, livros, teatro e artes visuais, nunca tratou corpo, linguagem e política como assuntos separados. Cada trabalho amplia uma investigação que atravessa toda a sua trajetória. O que ainda vale a pena sentir num tempo que transforma quase tudo em distração, performance ou ruído?

Essa pergunta atravessa a conversa com o deepbeep. O caos deixa de ser um desvio para fazer parte da vida. A rebeldia continua existindo, mas já não cabe nas imagens prontas. E nenhuma emoção perdeu o direito de ser vivida. Não porque sentir resolva tudo. Porque deixar de sentir empobrece tudo.

A playlist “Quando o Corpo Não Cabe Direito” prolonga essa conversa. Reunida por Buhr, ela aproxima Cátia de França, Isaar, Siba, Itamar Assumpção, Chico Science, Devotos e músicas da própria artista para momentos em que o corpo entende antes da cabeça. Na entrevista ao deepbeep, Buhr fala sobre presença, distração, rebeldia e sobre a decisão de continuar sentindo quando quase tudo parece incentivar o contrário.

Lísias Paiva, criador e editor

Buhr, você parece interessada em gente que vive no limite entre coragem e descontrole. O que as pessoas fazem para não entrar em contato com o próprio caos?
Não entendi essa história do limite entre coragem e descontrole. Acho coragem massa. Descontrole, gosto não.
Não sei se existe uma maneira de não entrar em contato com o próprio caos. Acho que o caos faz parte das coisas, dentro e fora das pessoas. Aí cada um encontra maneiras, saudáveis ou não, de lidar com isso.

Qual música você gostaria de nunca ter escutado pela primeira vez só para poder descobrir tudo de novo hoje?
Sempre que escuto uma música de que gosto muito, descubro tudo de novo.

Sua obra sempre teve corpo, suor, raiva, humor e desejo misturados sem muito filtro. O que ficou excessivamente domesticado nas pessoas?
As pessoas.

Hoje até a rebeldia parece acontecer dentro de formatos previsíveis. O que ficou mais comportado no jeito contemporâneo de ser transgressor?
Acho que essa “rebeldia dentro de formatos previsíveis” e esse “jeito mais comportado de ser transgressor”, que você citou, são, na verdade, padrões de discurso e de imagem alinhados para parecerem o que querem parecer, mas não são. Existe muita rebeldia e transgressão por todos os lados. Os espaços de poder ainda são dominados pelos dominadores de sempre, que só reciclaram a maneira de fazer as coisas.

Você já escreveu sobre raiva, tesão, medo, violência e prazer sem transformar nada disso em personagem confortável. O que ainda vale a pena sentir intensamente?
Tudo. Não acho que acabou o prazo de sentir as coisas.

Qual comportamento humano ainda faz você parar tudo só para observar melhor?
Adoro pessoas sem o celular na cara. Não tem nada que me angustie mais, nos últimos tempos, do que olhar para os lados e ver praticamente todas as pessoas com um celular ligado na frente do rosto e a alma sendo sugada. Eu também estou nessa roda, me esforçando bastante para sair dela. Quando estou sem celular e vejo esse movimento ao redor, dá vontade de sair distribuindo um livrinho, uma receita de bolo, um cordel, um caxixi, qualquer coisa para tirar as pessoas dali. E adoraria também receber alguma coisa dessas quando fosse eu mergulhada na tela enquanto as coisas acontecem do lado de fora.

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Fotos por Priscilla Buhr

Agradecimentos à Piky Candeias da Piky Comunicação pela conexão

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