
Frejat mostra que uma canção continua viva quando deixa de marcar apenas uma época e passa a acompanhar diferentes vidas.
Toda sexta-feira, milhares de músicas chegam às plataformas. A maioria desaparece antes mesmo de encontrar um lugar na vida de alguém. Algumas seguem outro caminho. Continuam atravessando décadas, aparecem em momentos inesperados, ganham novos sentidos a cada geração e passam a acompanhar histórias que seus compositores jamais poderiam prever. Elas deixam de representar apenas uma época para começar a participar da vida das pessoas.
Poucos artistas brasileiros conhecem esse processo tão profundamente quanto Frejat. Como compositor, cantor e fundador do Barão Vermelho, escreveu canções que atravessaram mudanças de comportamento, transformações da indústria da música e diferentes gerações sem perder a capacidade de emocionar, provocar ou simplesmente fazer companhia. Não porque permaneceram iguais. Porque cada pessoa passou a encontrar nelas uma história diferente.
Essa percepção organiza toda a conversa. Frejat fala sobre o tempo das canções, o ritmo das palavras, a relação entre compositor e obra e sobre aquilo que continua fazendo uma música merecer existir muito depois do lançamento. Num momento em que a novidade parece ser o principal critério de relevância, suas respostas lembram que uma canção nunca termina quando deixa as plataformas de destaque. Ela começa uma segunda vida quando encontra alguém disposto a carregá-la consigo.
A playlist “Ainda Dá Play” prolonga essa conversa. Reunida por Frejat, aproxima Cartola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque, Rita Lee, Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Stevie Wonder e outras canções que nunca dependeram da novidade para permanecer vivas. Na entrevista ao deepbeep, Frejat fala sobre o que faz uma música continuar acontecendo.
Lísias Paiva, criador e editor
Frejat, quando uma canção deixa de retratar uma época e começa a acompanhar uma vida?
Acredito que o tempo de vida da canção é fundamental para que isso aconteça. Ela passa a representar alguma coisa para as pessoas quando é ouvida. Isso pode acontecer naquele exato momento da escuta ou por tudo o que já aconteceu pela presença daquela canção na vida delas.
O que uma boa letra e uma boa conversa entendem sobre ritmo?
Tem gente que já fala suingando, e isso já diz muito. O ritmo das palavras é fundamental para uma canção. Ele pode ser fluido, assimétrico, torto. Depende do resultado a que os compositores chegam. É a confirmação de que a boa combinação entre música e letra é o que faz uma grande canção.
Você escreveu músicas que hoje pertencem à memória de muita gente. Em que momento uma canção deixa de ser sua e passa a viver outras histórias?
Ela nunca deixa de ser minha. Tenho cada uma como um filho ou uma filha que coloquei no mundo. Agora acompanho, encontro e vejo outras pessoas se relacionarem com elas. E assim vamos em frente. Meus filhos serão sempre meus filhos, com tudo o que isso implica.
Qual tipo de verdade continua encontrando espaço em qualquer geração?
As relações humanas, da forma que forem. Cada geração tem suas peculiaridades, mas esse é um assunto que não tem fim.
Depois de tantos anos escrevendo, o que ainda faz você acreditar que uma música merece existir?
Eu acredito na força da canção. Ela pode mexer com as pessoas de forma muito intensa ou muito delicada. Às vezes intensa e delicada ao mesmo tempo. É isso que me captura e me faz continuar cantando, compondo e tocando.
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