
Clemente Tadeu atravessa gerações do rock brasileiro sem abandonar o punk que formou sua trajetória.
Clemente Tadeu começou no punk quando o rock brasileiro ainda estava à margem da cultura popular. Quase cinco décadas depois, continua fazendo música, tocando com os Inocentes e a Plebe Rude e apresentando o Filhos da Pátria, programa em que recebe músicos de diferentes gerações. Sua trajetória atravessa mudanças profundas na música brasileira sem apagar o lugar de onde veio.
Inocentes e Plebe Rude têm influências próximas, mas Clemente preserva a personalidade de cada banda. A mesma atenção aparece quando fala dos músicos que recebe no programa e das diferentes histórias que formaram o rock brasileiro. Cada trajetória carrega suas próprias referências, circunstâncias e escolhas.
Clemente continua distante dos parâmetros de mercado que acompanham a música desde o começo de sua carreira. Quantidade nunca foi sua medida de qualidade artística. A cena alternativa aprendeu a encontrar outros caminhos, e ele continua trabalhando a partir deles. Os vinis que voltou a vender são um exemplo concreto de uma circulação que não depende apenas das plataformas.
O punk também ficou maior do que a imagem criada sobre ele. São quase 50 anos de estilos, gerações e posicionamentos diferentes, e Clemente continua vendo na contestação uma das forças que mantiveram essa cultura viva. A política segue entre os assuntos que o provocam, assim como a maneira pela qual as redes sociais e as plataformas interferem na formação do gosto. Na playlist para o deepbeep, Clemente escolheu as músicas que queria ouvir hoje. “Essas eu queria ouvir hoje, amanhã serão outras.”
Lísias Paiva, criador e editor
Poucos músicos estiveram tão presentes em duas bandas centrais do rock brasileiro, Inocentes e Plebe Rude. Ao transitar entre esses universos irmãos, mas distintos, o que em você se transforma? A energia criativa que você leva para cada uma é a mesma ou existe um Clemente diferente em cada palco?
Cada banda tem sua alma e procuro manter viva a alma de cada banda. Apesar de terem as mesmas influências, os resultados são bem diferentes, e o importante é manter isso vivo. O resto é diversão.
No seu programa, você virou um narrador da história do rock. Ao ouvir os relatos de tantos músicos, o que acabou descobrindo sobre a sua própria trajetória e sobre a resiliência de uma cena que, mesmo marginal, nunca deixou de existir?
Cada um tem uma trajetória única. Quando entrei para o mundo do rock, ele era marginal, estava à margem da cultura popular. Sempre toquei punk rock, que está à margem da cultura pop. Hoje, o rock não é mais mainstream, mas, mesmo quando era, eu estava à margem disso. Então, para mim, está tudo certo. Agora, para quem quer virar um mega pop star, como era nas décadas passadas, realmente deve ser um problema, rsrsrs. A gente não está no rock, a gente é o rock.
O punk sempre celebrou urgência, imperfeição e o “faça você mesmo”. Como esse espírito pode se reinventar na cultura atual, tão mediada por tecnologia e métricas de engajamento?
Eu não uso os parâmetros do mercado desde que comecei a tocar, pois eles sempre se balizam pela quantidade e não pela qualidade artística. Infelizmente, dependemos dos algoritmos, mas a cena alternativa sempre se organizou fora desses parâmetros. Se fôssemos depender deles… Temos que continuar trabalhando e usando maneiras criativas para fugir disso. Estamos vendendo vinis e o resultado é ótimo.
Suas letras sempre foram um retrato direto da vida urbana e da política. Hoje, o que ainda te cutuca e te dá a urgência de escrever, seja uma canção de protesto, seja uma crônica do agora?
As coisas que me tocam são as mesmas. O problema é que agora tem um monte de gente que se orgulha de apoiar um monte de injustiças, como se tudo o que é justo fosse “comunista”. Ou seja, as mídias sociais conseguiram destruir o senso crítico das pessoas. Na verdade, esse é o grande problema. São as mesmas pessoas que controlam essas plataformas que impõem um gosto musical único, dizendo que você é “livre para escolher”. É uma piada. A música é só reflexo desses tempos absurdos que vivemos.
Você esteve lá no começo da cena punk no Brasil. Para a nova geração que descobre o rock agora, qual é a principal lição que o punk ainda carrega como ferramenta de contestação do mundo?
O punk não é uma coisa só. São quase 50 anos de existência, ele é plural, tem vários estilos e vieses dentro do punk. A única coisa boa é que ele continua contestando um monte de coisa. O punk é uma ferramenta de contestação, apesar de várias bandas que saíram dessa cena hoje serem muito populares, como, por exemplo, o Bad Religion. Mas eu sou péssimo para dar conselhos. O importante é a pessoa mergulhar no estilo e tirar suas próprias conclusões.
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