Mavi Veloso e o som que não aceita forma fixa

Entrevi9sta e playlist de Mavi Veloso para o deepbeep

Mavi Veloso fala sobre voz, transmutação, pista, desejo e por que certas distorções também podem funcionar como linguagem política.

Mavi Veloso trabalha com som como quem trabalha matéria viva. Vozes fragmentadas, camadas sobrepostas, distorções, modulações e frequências que parecem atravessar corpo, performance e pista ao mesmo tempo. Em vez de buscar uma identidade estável, sua música parece interessada justamente no que ainda está mudando de forma.

A formação em artes visuais e performance atravessa tudo. Em Mavi, a música raramente nasce apenas como composição sonora. Muitas vezes ela aparece primeiro como gesto, cena, corpo, movimento ou tensão física antes de virar faixa. Talvez por isso suas músicas carreguem uma sensação constante de transformação, como se estivessem sempre prestes a atravessar outro estado.

Vivendo em Amsterdã, longe do Brasil, Mavi também olha para a música brasileira a partir do deslocamento. Pop, eletrônico experimental, ballroom, techno, performance e vocalidades trans convivem sem muita preocupação em caber dentro de gênero fixo ou categoria confortável. O resultado é um som que parece tensionar tanto a pista quanto as estruturas que tentam organizar quem pode ocupar determinados espaços dentro dela.

Na conversa com o deepbeep, Mavi Veloso fala sobre modulação vocal, travestilidade, desejo, exaustão digital, corpo, vulnerabilidade e sobre como transformar fragmentação em potência estética e política.

A playlist “Frequências de Transformação” que acompanha a entrevista atravessa música eletrônica, experimentação, sensualidade e intensidade física como extensão desse mesmo universo onde vulnerabilidade e euforia continuam acontecendo ao mesmo tempo.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Sua voz raramente aparece limpa. Ela vem processada, fragmentada, às vezes irreconhecível. Em que momento a distorção deixa de ser efeito e vira linguagem?
Olha, para ser bem sincera, eu acho que normalmente, enquanto estou produzindo as músicas, especialmente na faixa vocal principal, o lead vocal, costumo deixar tudo bem sem muita coisa, viu? Existem, sim, compressão, EQ etc., mas o que rola mais são camadas. No geral, falando de vocais, costumo trabalhar uma camada central e outras duas, três ou muitas nas extremidades, direita e esquerda, dando essa sensação de panning mais aberto. Talvez isso já cause um estranhamento e, ao mesmo tempo, uma amplificação do vocal.
Daí as vozes auxiliares vêm mais carregadas, com compressão, EQ, reverb e efeitos, às vezes um stutter ou modulação grave ou aguda ou sei lá mais o quê. Eu pesquiso modulação vocal, no analógico mesmo, desde meu mestrado aqui em Amsterdã, relacionado à terapia vocal e a questões de transições e passabilidade vocal para comunidades trans, onde aprender modulação da voz pode ser uma ferramenta contra a disforia. Ou, em outros casos, como gosto de pensar, entender a modulação e a voz como um instrumento musical e político, seja através de hormonização ou através de uma prática vocal, para ampliar o alcance vocal. Hoje, eu levo isso para a minha produção musical pop eletrônica para desafiar mesmo.
Em “Satisfied”, por exemplo, o vocal lead está quase puro. O que soa como distorção é essa exploração de densidades. Para mim, e para muitas artistas trans e não binárias, a fragmentação e a sobreposição são linguagem. É sobre falar de transmutação, transformação, multiplicidades, processos que a gente vive na pele e na subjetividade. Fragmentação, transformação e manipulação da voz como um ato de poder.

Sua formação passa por artes visuais e performance. No seu caso, a música parece sempre partir do corpo antes de virar som. O que você precisa sentir fisicamente para saber que uma faixa funciona?
Olha, acho que muitas vezes minhas músicas nascem de um processo simbiótico com os meus processos de elaborar cenas performáticas. “Satisfied” e “Fck N Fly” vieram de uma performance chamada Her Delights/Traveca Delícias, uma peça bem inspirada no Jardim das Delícias da Cláudia Wonder. Depois, o que era um processo performático, visual e experimental foi se transformando, tecnologizando, “transexualizando” o som corporalmente até virar um EP pop, dance e eletrônico chamado Her Blossoming Delights.
Eu sou geminiana, estou sempre experimentando. As músicas, assim como quase todos os meus processos artísticos, são caminhos abertos. Essas últimas nasceram de forma muito espontânea enquanto eu preparava o show do EP Her Blossoming Delights, em julho do ano passado. Eu queria uma introdução, um beatzinho que fosse um catwalk. O instrumental foi ganhando corpo até virar música. Duas músicas diferentes, no caso, hahaha.
Daí, quando estou criando música, ela vai funcionando quando me causa uma resposta sinestésica também. Mobilizar o quadril e o peito, bater cabelo mesmo, ocupar o espaço fisicamente.

Você vive em Amsterdã, longe do Brasil, mas trabalha com referências que nascem aqui. O que muda na sua escuta quando você sai do contexto? O que fica mais claro e o que se perde?
Uai, acho que a distância cria um filtro de saudade e estranhamento. O Brasil tem uma radicalidade e uma ousadia rítmica que são únicas, sabe? Quando cheguei na Europa, anos atrás, mesmo sendo muito insegura de mim e de várias coisas, eu já via que a nossa brasilidade tinha isso. O ritmo brasileiro tem uma vitalidade muito forte.
Estar fora me dá uma certa liberdade de hibridizar, de misturar a cultura club daqui com a minha vivência de mulher trans brasileira. Fica cada vez mais clara a importância de ocupar esses espaços globais com as nossas musicalidades travestis, que são muitas, variadas e têm muito a ensinar e a complexificar essa rigidez normativa.
E talvez o que vá caindo por terra seja justamente a necessidade de categorizar o que é “música brasileira” ou qual é exatamente o gênero do que eu produzo. Ultimamente eu já nem sei mais qual é o gênero musical quando termino de fazer uma faixa. Puta, o que é isso? Mistura tanta coisa, hahaha. Vai ficando tudo mais fluido, o que eu acho particularmente bem… legal, né?

Existe uma expectativa de que a pista seja um lugar de liberdade, mas ela também pode repetir padrões. Em que momento a sua música tensiona esse espaço?
Mona, totalmente. Tem muita pista e muito clube por aí que são exatamente isso: repetição da regra, da normatividade. Pode ser em qualquer lugar do mundo. É só cagação de regra e segregação pesada. Desses lugares eu saio correndo, quero distância. Eu não frequento a norma. Estou na contracultura, nos espaços underground que a gente mesma está construindo.
É a nossa comunidade, travestilidade, cuidando uma da outra. Infelizmente, a maioria dos espaços ainda é dominada por essa normatividade chata, então minha resistência e minha sobrevivência hoje acontecem nesses lugares que a gente cria. E, mesmo ali dentro, minha música já é meio deslocada, não se encaixa direito porque acho que ainda faço uma música eletrônica bem experimentalzona, talvez.
Eu faço um trânsito que incomoda a estrutura da música mesmo. Trago questões de uma travesti latino-americana transitando entre o pop, o experimental e as artes visuais. E na cena underground que tenho visto por aqui, de um techno ballroom mais pesadão e até experimental, parece que a minha música ainda se desloca.
Mas é isso. Acho que estou interessada em trazer vulnerabilidade durante a euforia. No meio de uma batida hipnótica, eu falo sobre ser “assombrada” e sobre a exaustão de “fingir mentiras”. É colocar o corpo para dançar, mas com uma poética e dúvidas que não ignoram o cansaço digital. Um corpo que deseja, deseja, deseja é estimulado a desejar… Eu espero que, mesmo nessa velocidade toda, alguma coisa desse desejo continue profunda.

Quando você escuta fora de cena, o que ainda precisa estar ali para fazer sentido? E o que você já não tolera mais?
Eu gosto de emoções fortes, do visceral, do suor, da provocação e da capacidade de dar um “fuck it up” quando você chega na frente. Seja dançando no clube com um monte de gente ou sozinha aqui na sala da minha casa.
Nesse sentido, não curto muito beat vazio que serve só de fundo. Minha mente acelerada, minhas atividades mentais extremas, como boa geminiana que sou, às vezes são bem fragmentadas, pensando mil coisas ao mesmo tempo. Mas, na hora de sentir a música, eu vou para um plano sensorial, passional e subcutâneo.
Daí, se não me faz querer morder os lábios, lamber a língua e encarar o rojão que vem pela frente, não faz sentido não.

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Agradecimentos à Iza Costa da Assessoriza

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