
Entre palco, televisão, curadoria e bastidor, Chinaina fala sobre autenticidade, excesso de velocidade na música e a importância de continuar escutando fora da lógica dos números.
Chinaina atravessou diferentes fases da música brasileira sem deixar que o formato definisse completamente a forma de escutar. Da MTV ao streaming, dos palcos independentes aos bastidores da televisão, ele viu a indústria acelerar, comprimir lançamentos e transformar música em fluxo contínuo de consumo. Mas segue desconfiando de uma lógica que transforma música em fluxo contínuo de lançamento e artista em presença obrigatória o tempo inteiro. Para Chinaina, música ainda depende de tempo. Tempo para maturar ideia, testar linguagem, misturar referências e descobrir o que realmente continua vivo depois do hype inicial. Talvez por isso ele continue interessado em artistas que ainda não viraram número, tendência ou sequência automática de algoritmo. Essa lógica aparece diretamente no Caça Joia Clipes, novo programa que estreia dia 29 de maio no Canal Futura e no Globoplay, onde Chinaina apresenta videoclipes da cena independente brasileira sem transformar descoberta em dado de performance. Ao longo da carreira, transitou entre rock, frevo, pop e música experimental sem tratar mistura como acúmulo aleatório de referências. O interesse parece menos ligado à versatilidade em si e mais à possibilidade de continuar curioso. Continuar em movimento. Continuar descobrindo. Na conversa com o deepbeep, Chinaina fala sobre streaming, curadoria humana, repetição algorítmica e sobre por que autenticidade ainda é a única coisa que impede a música de virar repertório reciclado. A playlist “O Som da Descoberta” acompanha essa lógica entre risco, curiosidade e escuta fora do automático.
Lísias Paiva, sócio-editor
Chinaina, você construiu sua trajetória entre palco, mídia e bastidor. Em que momento a música deixa de ser expressão e vira ferramenta para organizar o que acontece ao redor?
Acho que nunca fiz essa separação, porque sempre foi a música que me guiou. Foi por causa dela que fui parar na TV, e ela é a causa de continuar fazendo as coisas que faço. A música sempre estará em primeiro lugar nas minhas escolhas profissionais e nunca deixou de ser minha verdadeira expressão. Acho que reorganizo as coisas que vieram com a música pra continuar fazendo discos e viabilizando minha carreira musical. Brinco dizendo que trabalho na TV para bancar meus discos e ajudar carreiras de outros artistas em que acredito.
Você atravessou fases muito diferentes da indústria, da MTV ao streaming. O que realmente mudou na forma como a música circula e o que continua igual, só com outra embalagem?
Sinto que, com os streamings, a música virou uma espécie de fast-food, com o mercado pressionando cada vez mais os artistas para que não parem de lançar músicas em um espaço de tempo muito curto. Mas pra criar, é necessário tempo e maturação das ideias. Ninguém é genial e criativo todos os dias.
Sinto que esse modelo acabou mudando a forma como o público consome música. A paciência pra entender e apreciar um álbum inteiro foi substituída pela pressa por um novo single, um novo feat, e isso é desastroso para o artista e para o próprio público.
Mas a música tem essa coisa incrível de ser cíclica. Formatos voltam, o mercado muda. Estão aí os bons números de vendas de LPs pra provar que tudo gira e volta à tona no mundo da música. Já já veremos algo embalado como novo, mas que sempre existiu na música.
O que te faz parar em um artista que ainda não virou número?
Eu gosto de música. Gosto de descobrir coisas novas, que pouca gente conhece. Gosto de me conectar com novas cenas. É natural pra mim, sempre foi. E se hoje tenho alguma voz pra amplificar esses artistas, não me canso de usá-la. Em algum momento eu fui um artista descoberto por alguém, então, se posso fazer isso hoje, por que não? É uma forma de devolver tudo o que a música já fez por mim.
Tem vários artistas que passaram na primeira temporada do Caça Joia e que hoje têm contratos com gravadoras, estão em grandes festivais, e eu fico muito feliz com isso. É curadoria humana, sem algoritmos, sem se importar com números, e sim acreditando no talento deles.
Você sempre transitou entre gêneros e cenas. O que mantém uma mistura viva e o que faz ela virar só repertório reciclado?
Acho que a autenticidade é o grande lance. Dá pra sacar na hora quando você tá só reciclando coisas. Por isso é importante ler sobre tudo, ouvir música de tudo quanto é canto e juntar essa bagagem toda pra criar algo autêntico, que faça parte da sua verdade. É assim que tento construir minhas canções. Não tenho pressa pra fazer discos, pois me interessa sempre trazer algo consistente, algo com que eu fique totalmente satisfeito com o resultado. E, pra fazer essas coisas, é necessário tempo e maturação.
Existe um momento em que quem descobre música começa a se repetir. Como você percebe esse risco em você?
Pra começar, tento fugir dos algoritmos, que sempre tentam te entregar a mesma coisa. Hahahahahaha.
Eu ouço música de tudo quanto é canto, de tudo quanto é estilo, e eu mesmo não gosto de rotular meu som. Lanço discos de frevo, de rock, alguns com pegada mais pop, outros menos. Se eu quisesse ficar num lugar confortável, não teria saído do Sheik Tosado, minha primeira banda.
Gosto de me arriscar na música. Gosto de encher o estúdio com uma orquestra e gravar um disco de frevo da forma que gravavam antigamente. Gosto de me enfiar no estúdio, pegar músicas de outros artistas e fazer versões totalmente diferentes. Gosto de experimentar. Ouço muita música pra ficar preso em um só estilo.
Você ocupa um lugar entre artista e curador. Em algum momento isso entra em conflito? Já deixou de apostar em algo porque sabia que não cabia no seu próprio discurso?
Separo muito bem essas coisas. Inclusive, no Caça Joia Clipes, programa que vai ao ar dia 29 de maio no Canal Futura e no Globoplay, isso foi um bom exercício.
Na hora em que estou fazendo curadoria, tenho que ir além do meu gosto musical e pensar numa faixa de clipes que contemple diferentes vertentes da música brasileira, tenha equidade de gênero e também cative diferentes tipos de público. O foco é sempre a autenticidade e a qualidade artística.
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Chinaina no Caça Joia Clipes
Fotos por Jorge Bispo e Pamella Gachido
Agradecimentos à Titita Dornelas
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