Bel Coelho e o tempo que a comida pede

Bel Coelho em entrevista ao deepbeep sobre cultura alimentar, território, preservação socioambiental e transformação da cozinha.

Bel Coelho pensa a cozinha a partir do território e da memória, sem ignorar o tempo necessário para que uma cultura permaneça viva.

O prato chega à mesa depois de uma história que começou muito antes dele. Há quem plante, colha, prepare e transmita o conhecimento necessário para aquele alimento existir dentro de uma cultura.

Quando processos de desenvolvimento ignoram as comunidades que vivem nos lugares onde operam, essa história começa a desaparecer. Para Bel Coelho, a identidade de um lugar está ligada à cultura de quem vive nele. A perda não acontece apenas na paisagem. Ela alcança a comida, os conhecimentos e os modos de viver.

Foi para olhar de perto essas relações que Bel pesquisou a Amazônia paraense para Floresta na Boca. O livro reúne ingredientes, pessoas e modos de vida ligados à floresta, com atenção aos conhecimentos de quem produz, coleta e prepara os alimentos.

“Transformar sem abrir mão da preservação socioambiental. Esse é o nosso maior desafio.”

Os sistemas alimentares construídos por comunidades tradicionais ainda recebem pouco incentivo, embora contribuam para a conservação das florestas, da biodiversidade e das culturas alimentares. Bel coloca uma questão difícil para uma cozinha interessada em transformação: o que precisa permanecer quando tudo ao redor muda?

Uma boa refeição e uma boa música têm, para Bel, uma capacidade em comum. As duas podem trazer o comensal ou o ouvinte para o presente pelo prazer. A playlist “Saber o tempo das coisas”, criada por ela para o deepbeep, reúne Dori Caymmi, Tiganá Santana, Os Tincoãs, Nana Caymmi, Milton Nascimento e outras faixas escolhidas para momentos de escuta na estrada, na cozinha ou quando acelerar não ajuda.

Lísias Paiva, criador e editor

Bel, em que momento um lugar começa a perder sua identidade?
Quando a cultura das comunidades se dilui em processos desenvolvimentistas que a ignoram na equação dos territórios onde passam a operar.

O que uma boa refeição e uma boa música entendem sobre ritmo?
As duas têm a capacidade de trazer o comensal ou o ouvinte para o tempo presente, conduzindo-o, por meio do prazer, a um estado que a rotina, por si só, não é capaz de proporcionar.

A comida costuma revelar coisas que as pessoas não dizem sobre si mesmas. Qual descoberta mais te surpreendeu ao longo dos anos?
Que compartilhar uma refeição entre pessoas queridas é uma das experiências mais restauradoras, física e emocionalmente, que existem.

Existe alguma riqueza brasileira que continua sendo subestimada?
O que continua subestimado e pouco incentivado são os sistemas alimentares regenerativos e sustentáveis construídos por comunidades tradicionais, que não apenas conservam nossas florestas e nossa biodiversidade, mas também preservam nossas culturas alimentares.

Entre preservar e transformar, qual é o equilíbrio mais difícil de encontrar?
Transformar sem abrir mão da preservação socioambiental. Esse é o nosso maior desafio.

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Agradecimentos à Manuela Afonso da Sopro Comunicação

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Uma seleção de Bel Coelho para o deepbeep, reunindo músicas ligadas à sua escuta e à maneira como ela pensa tempo, comida e cultura.

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