Alma Negrot

Alma Negrot deepbeep

Alma Negrot explica como a pista de dança opera como um corpo coletivo e detalha a construção de uma estética que recusa a perfeição algorítmica.

A noite de São Paulo funciona como um laboratório de sobrevivência e reinvenção. No centro dessa engrenagem, Alma Negrot dissolve as fronteiras entre a discotecagem, a maquiagem e a performance para criar uma entidade que desafia a estética plastificada do nosso tempo. O trabalho recusa a lógica do conteúdo rápido e exige a presença física, o suor e o atrito da pista. Conversamos com a artista sobre a recusa em ceder ao polimento do mercado, a transformação do próprio corpo em escultura e o papel do DJ como o coração que irriga o sistema nervoso da madrugada. A conversa com o deepbeep desce acompanhada da Trilha da Metamorfose. A seleção musical concebida por Alma Negrot é densa e extensa. Uma experiência imersiva que recusa a lógica da playlist mastigada e óbvia. O som cruza a urgência de Teto Preto, Noporn e Paulete Lindacelva com a textura de Dead Can Dance, Cocteau Twins, Madonna e PJ Harvey. Dê o play. O roteiro sonoro e a entrevista estão logo abaixo.

Lísias Paiva, editor-fundador

Seu trabalho dissolve fronteiras entre DJ, performance, artes visuais e moda. Quando você cria uma nova forma de existir no palco ou na pista, qual é a força que move essa entidade que você chama de Alma?
O que David Bowie falou sobre buscar inspiração onde seus pés não tocam mais o chão ao entrar na água moldou meu pensamento desde cedo. Quando ainda na infância, eu folheava revistas buscando imagens da Madonna sempre em situações provocativas, vestida de homem, de deusa, de dominatrix também. Sempre desejei a transgressão.
Acho que isso pode ser um ponto forte entre pessoas queers que precisam superar traumas, como famílias conservadoras e nossa descredibilização precoce por sermos quem somos. Afinal, precisamos provar nossas potências contrariando as expectativas, primeiro sendo melhores e, segundo, fazendo da maneira não linear. Entregar um buquê é muito mais interessante se ele puder esconder um coquetel molotov dentro.

Sua estética abraça o estranho, o orgânico, o disforme. É uma busca por beleza que não pede permissão. Como esse olhar nasceu em você e o que ele revela sobre a identidade que você escolheu colocar no mundo?
Meu trabalho começa, antes de tudo, com a imaginação e a reprogramação constante da minha identidade e do meu corpo por meio do fazer artístico. Seja na maquiagem, na pintura, na dança, no som.
A magia acontece na transmutação do meu sonho em forma, e os materiais são meus instrumentos mágicos. Então acho que sou um pouco amálgama e um pouco ritual que mistura glitter, planta, couro, atabaques, breakbeats e Björk pra construir um novo corpo/espaço.
Como diria Oiticica, já não se trata de criar, e sim de ressignificar e transformar o valor das coisas, incluindo suas ranhuras.

Enquanto o algoritmo premia o polido e o previsível, sua arte nasce da fricção, da noite e do corpo presente. Como você navega a pressão por conteúdo sem perder a crueza que só existe na experiência física?
Sou completamente vintage e não sei me trair. Por mais que eu tente, eu preciso fazer as coisas do meu jeito, no meu tempo. Ver moda como trend não é comigo. Acho que isso tem se resolvido de maneira muito autoral especificamente nos meus sets, que são sempre um resgate de vertentes musicais. Quando pesquiso House music, eu quero encontrar quem fez os primeiros beats e nem sempre eles estarão perfeitamente alinhados.
Às vezes começo pesquisando jazz e termino compilando música persa porque eu me emocionei com algo e acabo incorporando esses elementos na música eletrônica. Preciso do elemento humano, aquele piano dramático, o sax improvisado, a caligrafia trêmula de quem escreve acompanhando a emoção. Preciso desse espaço que se dá na experimentação do meu repertório, que basicamente é aquilo que toca minha alma e minha verdade.
Vejo na nostalgia um estado legítimo da beleza, porque através dessa beleza sentimos saudades de nós mesmos, e por um momento é como retornar pra casa.

A transformação que você cria é quase uma escultura sobre a pele. Quando você inicia esse ritual diante do espelho, como acontece a passagem entre Raphael e Alma? É um instante preciso ou um estado que vai se espalhando pelo corpo?
Sempre costumo dizer que sou o trânsito de tudo que me atravessa, então eu pintado de dourado, eu maquiado ou eu de bigode são apenas faces distintas de mim mesmo. As pessoas podem notar diferenças estéticas, mas assim como mudamos ao falar diferentes idiomas, como nos comportamos em diferentes rodas de amigos ou como dançamos diferentes ritmos musicais, no fundo, somos nós ali sempre.

Você é parte de coletivos que reinventaram a noite de São Paulo como espaço de liberdade real. Quando você assume a pista ou entra em performance, que tipo de catarse deseja acender no público?
Quando estou comandando a pista através da música enquanto DJ ou mesmo performando através do visual, eu busco transportar o espaço todo para uma outra realidade. Eu preciso, antes de tudo, fazer com que o público se sinta num espaço seguro, se sinta livre e então possa imaginar comigo para criar novas realidades.
Acho que parte da essência da cena noturna tem se perdido simplesmente porque estamos muito ocupados com nosso ego, estamos incapazes de nos entregar pro novo e também porque esquecemos que nossa potência está no coletivo. A pista é um corpo, a música, o sistema nervoso e o DJ, o coração que bombeia e irriga, mas nada tem função separadamente. Precisamos lembrar disso.
O DJ não cumpre uma função mecânica de escolher tracks para si, e a performance também não tem como ser alheia porque a arte não acontece fora do público. Uma gota lançada ao mar não se dissolve, se expande e se torna o mar.

Acompanhe o trabalho de Alma Negrot
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Fotos por Victor Takayama

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