
Após rodar quatro longas em sequência, Anna Muylaert ataca o tecnofeudalismo dos streamings e explica por que sua maior arma hoje é parar de trabalhar.
Anna Muylaert não parou em Que Horas Ela Volta?. Pelo contrário, a cineasta vem de uma produção frenética, tendo acabado de filmar produções inéditas como Geni e O Clube das Mulheres de Negócios. Mas sua obsessão continua a mesma: filmar o que a elite brasileira finge que não vê.
Seus filmes funcionam como exames de radiografia que expõem as fraturas expostas de um país que ainda insiste em operar na lógica da casa-grande e senzala. Mas engana-se quem pensa que a diretora vive apenas no front de batalha. Nesta conversa com o deepbeep, Anna revela que seu processo criativo nasce da dor, mas se sustenta no silêncio do Taoísmo. E para traduzir esse encontro de mundos que habitam o mesmo teto, mas vivem realidades diferentes, a cineasta aceitou nosso desafio de criar uma trilha sonora exclusiva onde a sofisticação orquestral de Villa-Lobos colide com a crueza urbana dos Racionais MC’s desenhando sonoramente as mesmas hierarquias e tensões que ela derruba na tela.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Anna, seu cinema coloca o cotidiano no centro do conflito. De que maneira você identifica o momento exato em que um gesto banal deixa de ser invisível e vira o ponto de ruptura de uma história?
Não sei dizer exatamente. Acontece quando me machuca. Meus filmes todos vêm de uma dor que precisa ser olhada, tratada, discutida e em última instância curada. Acho que quando uma história é redonda, ela se torna mítica e os mitos são remédios. Em Que Horas Ela Volta?, eu quis escrever quando tive filho e vi a pressão da minha classe social para que eu tivesse uma babá, o que eu não queria. Eu queria carregar a carroça. Eu vejo valor em carregar o peso da carroça e isso aparece no filme A Melhor Mãe do Mundo. Mas esse olhar de desprezo da minha classe social para os chamados subalternos é algo que me chama a atenção e me envergonha desde que sou criança. Já o filme Geni foi uma produção para a qual fui convidada pela Iafa Britz, que comprou os direitos da obra do Chico Buarque. Foi o único convite de fora que aceitei porque tratava de assuntos que eu estava vivendo e ainda estou infelizmente. A misoginia, seja cis ou trans, é um triste fato que enfrentamos desde o berço.
Você tem uma habilidade rara de ler as hierarquias brasileiras através da divisão de uma casa. Como você treinou o seu olhar para enxergar as tensões políticas que estão escondidas nos espaços domésticos e nos gestos de serviço?
Eu não treinei esse olhar. Eu nasci vendo tudo isso. E o louco é que o que me chamava a atenção era a questão da fotografia.
Porque as babás tinham sempre que sair na hora da foto. Ou eram decapitadas. Nos álbuns da minha família tem várias fotos
de babás decapitadas. Isso me intrigava, me constrangia – mesmo sem entender direito o porquê.
O deepbeep nasceu do conflito contra a pressa dos algoritmos que exigem entrega imediata. Como você protege o seu tempo de maturação para que a alma da história não seja atropelada pela pressão de ser produtiva o tempo todo?
Bem, eu tive a sorte de comprar um livro chamado Tao Te King do Lao Tse quando eu tinha 20 anos, que é a base do taoísmo. Eu li aquele livro e aquilo me transformou. Desde então aprendi a valorizar a pausa e o silêncio e, embora nos últimos anos eu também tenha sido atropelada pelo vício em celular, sempre há algo em mim apitando para que eu retorne ao vazio, ao nada que é a origem de tudo. Por exemplo, agora, depois de fazer quatro filmes seguidos, estou muito cansada e vou passar um ano sem trabalhar. Sei que esta pausa vai me devolver ao meu centro pessoal e criativo. Eu não tenho mais como dar um passo sem antes parar totalmente.
Uma ideia pode te perseguir por anos antes de virar um filme. Como é o processo de transformar uma intuição pessoal em uma ferramenta técnica que consiga comunicar uma narrativa coletiva para o espectador?
Esse é o grande mistério. Eu tenho um tema, um mood, um personagem que fica anos no útero. Alguns se concretizam mais rápido, outros mais devagar. Mas eu sou muito estruturalista em relação à construção de histórias, então enquanto não sinto que o mood virou plot, que o clima virou história, eu não sento pra escrever. E isso acontece magicamente. A ideia cai na sua cabeça e está feito. Não é uma questão de esforço, é como uma pescaria. O peixe morde a isca ou não.
Seus filmes costumam deslocar quem assiste de uma zona de conforto. Qual é a principal provocação que você faz questão de imprimir na memória da sociedade brasileira com o seu trabalho hoje?
Não sei dizer exatamente, mas creio que o Brasil é um país extremamente classista e racista com resquícios do período escravagista e isso nos deixa pra trás, nos deixa antiquados, perversos e enfraquecidos. Joaquim Nabuco tem uma frase em seu livro A Escravidão que diz que num país em que se existe um único escravo, a sociedade inteira está perversa. Eu acredito nisso. É preciso abolir essa mentalidade oligárquica que está no centro do pensamento brasileiro. Precisamos ser mais democráticos. Acho que, em todos os meus trabalhos, desde O Mundo da Lua, na TV Cultura, o que impera é a rebeldia. Precisamos ser rebeldes para mudar o mundo. Especialmente agora que estamos entrando no tecnofeudalismo, com os streamings dominando as produções e o modo de produção no mundo inteiro, é preciso ser rebelde.
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Fotos por Gleeson Paulino
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