Cadu Libonati não interrompe uma história

Com Cadu Libonati, as melhores conversas continuam muito depois do motivo que as colocou em movimento.

Uma conversa pode não ter muita utilidade, e ainda ser a que mais fica. Cadu Libonati foi parado por um senhor na rua que começou elogiando sua camisa e terminou contando uma história de 1976. Cadu chama esse tipo de troca de inútil, no melhor sentido. Sem destino, e, por isso mesmo, capaz de reverberar mais do que qualquer conversa com hora marcada.

Cresceu dentro do teatro, entre gente que constrói espetáculo em equipe. Mãe produtora, pai iluminador, vó atriz. E, mesmo antes de se tornar ator, sempre tratou diálogo da mesma maneira, como uma cena inventada por duas pessoas ao mesmo tempo, mesmo quando os lados discordam.

Com a música funciona parecido, uma faixa consegue hiperfocar alguém do jeito que uma criança de dois anos hiperfoca em qualquer coisa, sem chance de puxar de volta, o estado como perigoso e ótimo ao mesmo tempo. É a mesma vulnerabilidade que ele procura numa pergunta ainda não feita, uma capaz de prender alguém por mais de quinze segundos e tirar o ego do centro da cena.

Na entrevista ao deepbeep, ele fala sobre o momento em que um diálogo deixa de ser automático e sobre o que ninguém percebe nele num primeiro encontro. A playlist “Continua Depois” reúne faixas escolhidas a partir de lembranças e histórias que seguem tocando na cabeça bem depois do último acorde.

Claudio Thorne, redes e comunidade
Lísias Paiva, editor-chefe
Mateus Nicastro, arte

Como você percebe que uma pessoa parou de responder e começou a conversar?
Acho que é igual quando se joga peteca: a conversa passa a ser uma narrativa, uma dramaturgia feita a dois (mesmo que haja discordância). Apesar de, particularmente, eu apreciar muito todas as formas de diálogo, até as mais bélicas.

O que uma música faz para baixar a guarda de alguém?
Quando ela te deixa igual a um neném de 2 anos HIPERFOCADO em algo, e não existe nada que te tire dali. Sinto que, quando isso acontece, é perigoso/maravilhoso. Te deixa vulnerável.

Qual pergunta você ainda não encontrou, mas continua procurando?
Aquela que vai prender alguém por mais de 15 segundos hoje em dia. Aquela capaz de excluir todo o ego, o “narcisismo moderno” de dentro. E, assim como uma música perfeita, te deixa vulnerável. Acredito que as boas perguntas vêm dessa que me foi feita agora. Ahahaha.

Qual foi a conversa que mais continuou dentro de você depois que terminou?
Tenho conversas assim diariamente. Essa semana mesmo, um senhor me parou na rua para dizer que gostava da minha blusa. E, do nada, estava ouvindo uma história de 1976 (eu acho), sobre a adolescência de outro tempo. Esse tipo de conversa seeempre reverbera. Digamos que as mais “inúteis” são as que eu mais deixo reverberar em mim.

Você gosta de descobrir o lado menos óbvio das pessoas. O que ninguém percebe sobre você logo no primeiro encontro?
Uma vez aprendi (numa peça de teatro) que, muitas vezes, as coisas úteis têm seu “valor” atribuído depois. E que as coisas inúteis têm seu valor ali! No momento “dela”. E isso me encantou pra sempre. Eu tinha 22 anos.

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Fotos por Victor Pollak
Agradecimentos à Bruna Lys

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Cadu Libonati reúne em “Continua Depois”, músicas que continuam reverberando depois do último acorde. Uma seleção sobre encontros inesperados, histórias compartilhadas e diálogos que seguem acontecendo na memória.

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