
Criadora da Galáxia, newsletter que acaba de completar uma década, Maria Clara Villas construiu uma comunidade em torno da curadoria de referências, arte e cultura digital.
Antes de existir a Galáxia, Maria Clara Villas já tinha o hábito de abrir várias abas, circular por fóruns, acompanhar blogs e descobrir coisas que dificilmente chegariam até ela por uma timeline. Fotolog, Tumblr, Orkut e Google Reader fizeram parte dessa formação. A internet era um lugar de pesquisa, troca e descobertas que dependiam bastante da disposição de quem estava navegando.
Em julho de 2016, ela resolveu organizar esse hábito numa newsletter. A Galáxia começou como uma maneira de compartilhar links interessantes com amigos, passou por uma parceria com a Hysteria e, desde 2022, voltou a funcionar como publicação independente no Substack. Dez anos depois, reúne uma comunidade com mais de 12 mil assinantes e mantém uma proposta que atravessou diferentes fases da internet. Procurar, selecionar e dividir referências.
Quando boa parte do que consumimos chega por sistemas de recomendação, o trabalho de procurar ganha outro peso. Maria Clara mantém uma seleção que mistura cultura, arte, comportamento, tecnologia e assuntos que despertam sua curiosidade. Seu arquivo também registra mudanças na maneira como usamos a rede e nos temas que ocupam nossas conversas.
Na entrevista ao deepbeep, ela fala sobre os critérios que orientam sua curadoria, os registros que o pai mantém de sua vida desde o nascimento e a relação entre experiência e exposição nas redes. Também conta como duas músicas ganharam novos significados em momentos diferentes. Zumbi, de Jorge Ben Jor, tornou-se uma de suas favoritas depois de ouvir um episódio do podcast Projeto Querino sobre a história dos povos africanos. Focu ’Ranni, de Rosalía, ganhou outra dimensão depois de assistir a um show da artista. As duas faixas estão na playlist “Links Que Ficaram”, preparada por Maria Clara.
Lísias Paiva, criador e editor
Claudio Thorne, redes e comunidade
Mateus Nicastro, arte
Maria Clara, como você decide que uma descoberta merece ganhar espaço na Galáxia?
A Galáxia surgiu da vontade de compartilhar com amigos e pessoas próximas coisas legais que via por aí e, até hoje, a seleção passa por esse lugar de dividir uma descoberta com alguém que eu gosto. Quero que a pessoa abra um link e sinta que encontrou algo que talvez não chegasse até ela de outro jeito.
Somos bombardeados com informações o tempo todo e vejo a curadoria da newsletter como uma parada estratégica no meio desse fluxo intenso de posts, imagens e tendências. Geralmente são conteúdos que levantam alguma questão ou me inspiram de alguma forma, em uma tentativa de quebrar o algoritmo e voltar para cantinhos da internet onde vale a pena ficar um pouco. Também procuro referências menos óbvias, novos pontos de vista e coisas que não vi mil vezes na timeline e, se for algo mais quente, um ângulo diferente ou mais aprofundado do assunto. Gosto de misturar essas análises com artigos mais atemporais, que você pode ler agora ou daqui a alguns meses.
Por que algumas referências continuam acompanhando você depois que a novidade passa?
Uma boa referência vive além do hype. Me interessa quando aquela descoberta tem algum efeito na minha vida: se conecta com outras ideias, me mostra pontos de vista de pessoas que vivem realidades diferentes da minha ou me inspira a fazer algo novo. Uma ideia que puxa outra, me leva a novos assuntos e passa a fazer parte do meu repertório.
Seu pai registra sua vida em um caderno desde o dia em que você nasceu. Como esse arquivo mudou a maneira como você olha para a própria memória?
Minha relação com a memória foi muito moldada por essa experiência. Sempre revisitamos os cadernos para lembrar de algum momento ou de uma época específica. Também cresci com a ideia de que alguns momentos merecem ser registrados e, até hoje, tenho essa relação com o meu pai de mandar uma foto ou contar algo que sei que vale o registro.
É um arquivo que continua em progresso e tem essa cara mais jornalística. Ele me ajuda a conectar o que aconteceu comigo ao que estava acontecendo no mundo. Acho que isso me fez ter uma relação mais pragmática e racional com a minha história. E tem uma coisa bem única nessa experiência, que é poder me enxergar pelo olhar do meu pai.
Como você percebe que uma experiência ainda é sua e não virou conteúdo?
Acho que passa por conseguir separar o que eu quero compartilhar do que eu quero só viver. Adoro a sensação de chegar em casa e perceber que nem toquei no celular naquele dia. Tenho pavor de gastar um tempão tirando fotos só pra postar, de ficar mais preocupada com a foto do que com o que está acontecendo.
Por que uma música consegue entrar em uma pesquisa sobre arte, viagem, comportamento ou internet sem parecer deslocada?
A música faz parte de tudo isso. Quando você gosta de um artista e começa a pesquisar sobre ele, vem muita coisa junto: o lugar de onde veio, as imagens que produz e as referências do trabalho dele. Também dá para entender melhor uma época ou uma cena musical a partir do que se produzia e do que as pessoas estavam ouvindo. Você começa por uma música e acaba chegando a outros assuntos que nem imaginava pesquisar.
E tem a relação pessoal com o que a gente escuta. Uma música pode ficar ligada a um lugar, a uma fase da vida ou ganhar outro significado depois de um show. Ela vira uma referência também pelas associações que a gente faz, pelo que viveu ouvindo aquilo.
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