
Cauê Custódio procura filmes fora de circulação, músicas que passaram despercebidas e artistas que sabem usar referências antigas para fazer algo novo.
O que faz alguém se apaixonar por uma música que passou anos sem ouvir? Ou descobrir um filme que parece ter ficado esperando justamente por aquela sessão, naquela sala, diante daquela plateia? Cauê Custódio conhece esse impulso de continuar procurando. Uma descoberta pode mudar a maneira de ouvir um artista ou fazer alguém enxergar de outro jeito uma obra que julgava conhecer.
Desde 2014, ele desenvolve esse olhar no Cine Phenomena, que nasceu como cineclube e virou festival em 2018. O mesmo interesse aparece na Synth City, festa que mixa música eletrônica, pop, rock e cultura visual inspirada nos anos 80, sem se limitar à nostalgia. Entre a tela e a pista, Cauê aproxima clássicos, raridades esquecidas e artistas contemporâneos que encontram novas possibilidades em referências de outras épocas.
No sábado, 31 de outubro, ele é o convidado do deepbeep para a edição de Halloween do Prisma, no CCSP. Para a ocasião, preparou uma videolist que mistura rock, pop, dance, trilhas sonoras e faixas menos óbvias. Duas escolhas ganham comentários próprios. Em uma, a música vem de um filme de lobisomem pouco lembrado. Na outra, Cauê fala de uma faixa do Dead or Alive que só descobriu de verdade neste ano. São caminhos diferentes para chegar a algo que move sua pesquisa, a possibilidade de uma música revelar mais do que se esperava dela.
Lísias Paiva, criador e editor
Mateus Nicastro, arte
“Foi muito prazeroso montar essa playlist. Adoro fazer esse tipo de seleção! Escolhi o YouTube porque, para mim, a imagem é parte importante da experiência. Muitos desses videoclipes têm uma atmosfera muito particular ou contam uma história, e mesmo as montagens feitas por fãs podem ampliar bastante o universo de uma música. Aproveitei também para salpicar um pouco do espírito de Halloween, já que estamos nessa época. Tem de tudo um pouco: rock, pop, dance, trilhas sonoras e algumas pérolas mais obscuras. Espero que a playlist desperte a curiosidade de quem ouvir, abra novas fronteiras sonoras e ajude a descobrir alguns tesouros esquecidos.”
Entre as escolhas, ele comenta duas músicas que provocam associações bem diferentes. A primeira vem da trilha de um filme de lobisomem pouco celebrado. A segunda é uma faixa do Dead or Alive que ganhou outro significado para ele neste ano.
Justin Hayward, “Something Evil, Something Dangerous” – Essa música faz parte da trilha sonora de Howling IV, um filme de lobisomem bem ruim, na verdade. Mas é curioso como, às vezes, filmes fracos podem ter trilhas sonoras excepcionais. Ela me lembra que todos nós carregamos algo perigoso dentro de nós, uma sombra que pede pra ser reconhecida e observada. Vivemos numa época em que muita gente parece estar em completa negação desse lado obscuro, enquanto se preocupa cada vez mais em sinalizar virtude. Existe aquela velha metáfora dos dois lobos que vivem dentro de cada pessoa, um bom e outro mau, e de como aquele que alimentamos acaba prevalecendo. Essa música me leva diretamente para esse conflito. Ela tem uma atmosfera de perigo, de estar no limiar de perder o controle, à beira de um abismo onde os instintos mais baixos começam a chamar. Me imagino na pele de alguém prestes a se transformar num lobisomem, sentindo a sedução de um poder e de uma liberdade quase ilimitados, mas também o terror das consequências de se entregar completamente ao lado selvagem. É um tema recorrente nesses filmes e talvez um dos grandes dilemas humanos: até onde podemos liberar nossos instintos sem perder aquilo que nos torna humanos? Quando escuto essa música, me imagino lutando para continuar sendo o herói da minha história, sabendo que estou a um passo de me tornar talvez o pior vilão de todos. Acho que todo ser humano vive essa dualidade. A diferença é que poucas pessoas estão a fim de olhar na cara do bicho.
Dead or Alive, “Come Home With Me Baby” – Essa música tem uma energia contagiante. Sou um grande admirador do Pete Burns, uma figura extraordinária, um verdadeiro astro do rock que sempre me pareceu pouco interessado em caber nas categorias que tentavam impor a ele. “Come Home with Me Baby” não é o maior sucesso do Dead or Alive, mas foi uma daquelas músicas que estavam bem debaixo do meu nariz e com as quais só fui me conectar de verdade este ano. Ela tem uma atitude que adoro: não pede desculpas por nada. É uma celebração do desejo, da liberdade e da vontade de ir atrás do que se quer. Me transporta para aquelas aventuras românticas que só uma grande metrópole pode proporcionar, onde você pode viver encontros intensos e ainda preservar certo anonimato. A cena que imagino é quase um clichê de cinema, daqueles que sinto falta hoje: um encontro erótico na calada da madrugada, num apartamento acima das ruas da cidade. O neon entra pela janela, enquanto os faróis dos carros lá embaixo projetam fachos de luz que deslizam pelas paredes, desenhando e desfazendo as sombras da janela. Tem alguma coisa muito especial nesses encontros, seja com alguém de quem você estava com saudade ou com uma pessoa que acabou de conhecer. A descoberta, a intimidade, a incerteza de não saber quanto tempo aquilo vai durar ou se vocês vão se encontrar novamente. Gosto dessa mistura de romance, aventura e imprevisibilidade. Existem muitas formas de viver uma conexão, e essa música me lembra que nem toda história precisa ter um destino definido para valer a pena. Às vezes, a beleza está justamente em não saber o que vai acontecer depois.
[Serviço]
Prisma no CCSP
Sábado, 31/10 · a partir das 15h
Jardim Suspenso do CCSP
Rua Vergueiro, 1000
Entrada livre e gratuita, sem retirada de ingresso
Prisma no Instagram
Cauê, você criou projetos que aproximam pessoas por meio de filmes e músicas fora do circuito mais óbvio. Antes de existirem o Cine Phenomena e a Synth City, que tipo de experiência cultural você sentia falta de encontrar por aí? O que queria colocar no mundo?
O cinema sempre foi um lugar muito acolhedor pra mim, um espaço onde vou para nutrir a alma. São Paulo sempre teve uma cena cinematográfica muito rica, então não tenho nenhuma pretensão de dizer que fui pioneiro. Mas sentia vontade de criar meu próprio espaço, onde pudesse mostrar pras pessoas os filmes que amo.
Foi assim que nasceu o Cine Phenomena, primeiro como cineclube e depois como festival. A ideia era resgatar clássicos e pérolas obscuras, mas também apresentar filmes independentes produzidos ao redor do mundo que, por diferentes razões, não chegavam ao público brasileiro. E o mais interessante é que essa descoberta nunca termina. Até hoje continuo encontrando filmes incríveis de décadas que achava já ter esgotado a pesquisa.
A Synth City nasceu de outro impulso. Sempre amei música eletrônica, mas também pop e rock. Com o passar dos anos, percebi que minha sensibilidade estava se voltando cada vez mais para a melodia, para as letras e para uma certa emoção que encontro muito na música dos anos 80.
A música eletrônica contemporânea vive uma riqueza criativa enorme, com artistas incríveis surgindo o tempo todo. Ao mesmo tempo, ficou supercorporativa e excessivamente formulaica. Mesmo a música de pista mais alternativa é muito mecânica e pesada pra eu ouvir por longas horas estando sóbrio. Continuo gostando de techno e de sons mais hipnóticos e experimentais, mas comecei a sentir falta de uma experiência de pista que também tivesse espaço para canções, melodias e letras que me dizem algo. E não se trata simplesmente de nostalgia. Uma das coisas que mais me interessam na Synth City é justamente mostrar quantas bandas atuais carregam essa sensibilidade dos anos 80, mas fazem música para o presente. Busco uma pista onde essas diferentes épocas pudessem conversar, sem precisar escolher entre o passado e o futuro.
Quando você descobre um filme, um artista ou uma música que te pega de verdade, o que acontece depois? Você começa a pesquisar quem fez, de onde veio aquela referência, o que existe ao redor dela? Como uma descoberta dessas acaba entrando na programação dos seus projetos?
Quando descubro alguma coisa que me pega de verdade, eu me apaixono. E aí fico curioso, às vezes até obsessivo. Quero saber quem está por trás daquela obra, quem é aquele ser humano, o que ele pensa, quais são seus filmes e artistas favoritos, o que o inspira.
Com música, a parte visual também me pega muito. Um videoclipe com uma identidade forte ou que conta uma boa história pode abrir as portas para todo o universo de um artista. E adoro descobrir músicas escondidas numa discografia, às vezes de artistas que conheço há décadas. Fico perplexo pensando: como é que nunca ouvi isso antes?
Com cinema, minha relação é um pouco diferente. O que mais me fascina é a construção de mundos, o storytelling, a capacidade de me transportar para outra realidade. Minha relação com a arte é muito mais emocional do que intelectual. Primeiro vem o encantamento, depois a vontade de explorar tudo ao redor. Aí vou achando conexões que me levam a novas obras.
E quando alguma coisa me entusiasma, meu impulso é compartilhar. Gosto de testar a reação das pessoas, de provocar. No Phenomena, procuro misturar obras que conversam com a sensibilidade contemporânea com outras que hoje podem parecer fora de tom ou até de mau gosto. Existe um viés de subversão que me interessa. Acho que o ser humano é complexo o suficiente para entender essas obras como artefatos de diferentes épocas e culturas.
Já no meu trabalho como DJ, depende muito do evento e da pista. Às vezes, o público quer ouvir os hits; outras vezes, tenho mais liberdade para construir uma narrativa sonora diferente. Gosto muito de pesquisar música, mas uma boa seleção também exige prestar atenção em quem está recebendo o sinal. É uma questão de calibrar essa mistura entre apresentar descobertas e presentear as pessoas com músicas que elas já conhecem e querem ouvir.
Na pesquisa para o Cine Phenomena, como você chega aos filmes que quer apresentar? Parte de um título que já conhece e vai seguindo as pistas ou começa por um assunto, uma estética ou uma época? Conta como essa busca costuma acontecer na prática.
Procuro sempre equilibrar a programação do Cine Phenomena entre ficção científica, fantasia, crime, terror e aventura. Minha pesquisa mistura filmes que já conheço e amo com outros que estou descobrindo e que também quero muito ver no cinema.
Uma das coisas que mais me alegram antes da sessão é perguntar quem tá vendo aquele filme pela primeira vez. Muitas vezes, metade da sala levanta a mão, e eu penso: é pra isso que o Phenomena existe. Pra proporcionar às pessoas o prazer de descobrir esses filmes no habitat natural deles, que é a telona.
Com a quantidade absurda de filmes que já foram produzidos e continuam sendo feitos, algumas obras acabam tendo pouquíssimas chances de voltar ao cinema. Eu gosto de criar esses encontros.
É uma pesquisa que tem muito de instinto também. Às vezes, sigo o trabalho de um diretor; outras vezes, descubro algo por um comentário na internet, uma indicação, pelas conversas em torno de um filme. E ocasionalmente aposto em uma obra que ainda não assisti, mas cujo universo já me despertou um interesse enorme.
Existe uma mistura de pesquisa, repertório, intuição e vontade de descobrir junto com o público.
Na Synth City, filmes e videoclipes dividem espaço com a música na pista. Como você escolhe as imagens e decide quando elas entram? Você já percebeu uma imagem mudar a maneira como o público recebe uma música?
O intuito principal é criar uma alquimia em que a música fica amplificada pela imagem, e vice-versa. Eu cresci vendo videoclipes na MTV e alugando 15 VHS nos fins de semana, então, pra mim, faz todo sentido trazer essa camada visual.
Escolho as imagens pensando na vibe da música, nas letras e no universo que elas evocam. Tento construir uma narrativa, mas também deixo espaço pro improviso e pras sincronicidades do momento.
Às vezes, surge uma combinação espontânea de loop e música que muda completamente a energia da pista. É uma mistura de preparação com improviso.
O cinema fantástico e a música eletrônica de outras décadas aparecem com frequência no universo dos seus projetos. Como trabalhar com referências que já carregam tanta memória sem transformar a experiência em nostalgia? O que você procura nelas que ainda faz sentido agora?
Acho que a nostalgia é muito relativa. O que pra mim é nostálgico, porque vivi aquela época, pode ser uma descoberta completamente nova pra alguém mais jovem. A gramática melódica, visual e sonora dos anos 80 é tão forte que continua impactando até quem não viveu aquilo.
Gosto muito de encontrar artistas contemporâneos que absorveram essas referências e fizeram alguma coisa nova com elas. O Sacred Skin, por exemplo, é uma banda atual que adoro. Você percebe ali o fascínio por universos como The Lost Boys e Terminator, inclusive nos videoclipes. Mas existe também o risco de transformar tudo em pastiche pelo pastiche. É preciso garimpar, encontrar quem consegue romper um pouco o molde e trazer uma energia fresca para aquela linguagem. A gente vive uma época em que sinto falta de nuances, então me interessa justamente esse encontro entre sensibilidades contemporâneas e referências de outras décadas.
Pessoalmente, nunca tive muita escolha. Desde pequeno me identifico com essa música que evoca neon, metrópoles, neblina, garoa, mas também sol, romance e aventura. Isso está no meu espírito, na minha alma. E sinto que precisamos dessa energia hoje, talvez mais do que nunca. Vivemos tempos estranhos, de muita incerteza e polarização. Não importa se a arte soa ou parece sombria ou solar. Quero que ela desperte entusiasmo, mistério, drama, romance, vontade de viver.
Por isso, discordo completamente daquele comentário que a gente sempre encontra no YouTube: “Música boa era antigamente, não se fazem mais bandas assim.” Fazem, sim. Existem artistas incríveis criando agora, mesmo quando partem de um legado de outras épocas. Os tempos bons são os tempos de agora. E procuro fazer um movimento consciente de trazer para o meu dia a dia um pouco mais dessa energia colorida e misteriosa.
Depois de tantas sessões e festas, alguma reação do público já fez você mudar de opinião sobre um filme, uma música ou uma referência que conhecia bem? Conta um episódio em que a experiência coletiva te mostrou algo que você não tinha percebido sozinho.
Na Synth City, eu tava na dúvida se o público ia comprar alguns sons nacionais da New Wave, como Metrô e Ritchie. Às vezes, correr riscos quando seleciono filmes ou música é algo que me empolga, sabe? Quando fechei o set com “Menina Veneno”, que eu mesmo achava meio cafona, a pista cantou junto e funcionou demais. Foi ali que percebi que essas faixas, além de terem funcionado na festa, têm uma força emocional real pra mim. “Menina Veneno” é uma música linda e me faz lembrar de uma garota real que conheci, servindo como um tipo de cura emocional quando eu toco… Lembro da frase: “Não chore porque acabou, se alegre que aconteceu”. Tá, pode ser que seja cafona. =P
Acompanhe o trabalho de Cauê Custódio
Cine Phenomena por Cauê Custódio
Synth City por Cauê Custódio
Ouça a playlist de Marcos Guzman, idealizador do Prisma
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