Julio Meloni trocou o conselho pela cidade

Roteirista, músico e compositor, Julio Meloni fala sobre o tempo que uma música pode levar para encontrar a cidade certa para existir.

Julio Meloni chegou a São Paulo em 2001, sem conhecer quase nada da cidade e sem conselhos de ninguém sobre como se virar ali. Antes de compor, já trabalhava com roteiro, e isso aparece no jeito como constrói uma música, cada letra funciona como cena, cada disco como um lugar inteiro para percorrer. A música sempre esteve por perto, rádio ligado, vitrola própria, a irmã com o toca-fitas do rock, o avô com centenas de LPs e gosto por tudo. A estreia solo só veio em 2022, depois de anos compondo sem lançamento previsto.

Nome de Santo nasceu em 2001 e só foi lançada 25 anos depois. Durante esse tempo, Julio atravessou pandemia, protestos, queda das torres gêmeas. Passou de um “forasteiro” em São Paulo, como ele mesmo se define, a alguém que entende a cidade por dentro. A letra descreve a cidade como algo capaz de ser “doce menina” e “poderoso dragão”, acolher e sufocar.

Na conversa ao deepbeep, ele fala sobre a diferença entre morar em um lugar e pertencer a ele, o custo de se livrar do celular e sobre o que a cidade ensinou sem que nenhum conselho tivesse ensinado antes. A playlist “A Cidade que Você Carrega” reúne músicas escolhidas por ele para os momentos em que um lugar explica uma fase da vida melhor do que qualquer foto.

Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, editor-chefe, e arte por Mateus Nicastro.

Existe alguma diferença entre escolher um lugar para viver e escolher um lugar para pertencer?
Acredito que sim. Uma pessoa pode escolher um lugar para viver, seja a própria cidade onde nasceu, onde foi estudar ou onde foi trabalhar. Viver é existir: a partir do momento em que nascemos, começamos a existir. Já, a meu ver, pertencer é fazer parte de, é caber dentro, é permitir que a realidade de um lugar nos afete verdadeiramente.
Comigo foi assim quando cheguei a São Paulo. Nos primeiros anos, eu vivi na cidade. Me sentia um forasteiro, buscando entender como tudo funcionava. Mas teve um dia em que tudo isso começou a fazer sentido. Passei de mero observador a alguém que se deixa afetar pelas delícias e pela loucura desta cidade. Foi assim que comecei a pertencer.
Hoje, 25 anos depois, posso dizer que faço parte deste lugar. Quando ando pelas ruas, adoro andar pelas ruas de SP, quando descubro um lugar novo, quando conheço uma pessoa, tudo isso vai contribuindo para esse pertencimento. Muita música já surgiu nessas caminhadas pela cidade.
Sou tocado diariamente pelo efeito São Paulo. Ainda hoje, me surpreendo com algum canto que não conhecia, algum prédio em que ainda não tinha reparado. Fui vendo as mudanças, participei de muitas delas. Vi a cidade vazia na pandemia. Vi a cidade saindo às ruas para protestar.
Hoje, sinto que ela não é mais a mesma. A atmosfera que paira sobre a cidade é diferente daquela que pairava em 2001, quando cheguei. A metrópole é um ser vivo, em constante transformação, assim como o ser humano.
Por essas e outras, penso que escolher um lugar para viver é diferente de pertencer a ele.

O que a música consegue acompanhar melhor: uma mudança de cidade ou uma mudança de identidade?
A música sempre esteve do meu lado, dentro de mim. Ela é minha amiga íntima, talvez me conheça melhor do que eu mesmo (risos).
Venho de uma família que ouvia muita música. Nasci e cresci no interior de São Paulo. Na minha casa, havia sempre um rádio ligado em alguma FM. Eu tinha uma vitrola; minha irmã, um toca-fitas. Cada um ouvia um estilo diferente: eu era mais ligado ao pop e ela, ao rock. Meu avô materno escutava de um tudo e me mostrou muita coisa. Ele tinha centenas de LPs, depois CDs. O fato é que a música testemunhou de perto muitos acontecimentos da minha vida. Ouço uma música e sou imediatamente transportado para algum momento.
Sobre mudanças, me mudei duas vezes de cidade. Primeiro, de Espírito Santo do Pinhal (onde nasci) para Piracicaba (onde fiz faculdade). Depois, de Piracicaba para São Paulo, onde vivo até hoje.
Já sobre identidade, posso dizer que a minha já se alterou algumas vezes (risos). Quando passamos de criança a adolescente e depois a adulto, nossos pensamentos mudam conforme vamos ficando mais velhos, e nossa identidade também muda. Acho que sou uma pessoa em constante mutação. E a música participou de cada um desses instantes, de cada uma dessas passagens.
Para quem gosta de música como eu, penso que ela pode ser uma companheira para todos os momentos. A música me acompanhou tanto nas mudanças de cidade quanto na busca pela minha verdadeira identidade.

Você vive em São Paulo há muitos anos. O que a cidade ensinou que nenhum conselho teria conseguido ensinar?
Moro em São Paulo desde 2001. A primeira versão de “Nome de Santo” nasceu nesse mesmo ano. A música fala das minhas primeiras impressões a respeito dessa cidade gigante, de arranha-céus que, da nossa perspectiva, parecem lamber o céu. Claro que, ao longo dos anos, mexi em versos e melodias, mas a essência é a mesma. Porém, quis o destino que essa música nascesse na mesma semana em que as Torres Gêmeas foram atingidas pelos aviões. Precisei até dar um tempo na composição, para evitar que ela ficasse obscura para mim. Só terminei a música anos depois. Em todo caso, tem um trecho de que gosto bastante: “esse mundo além da imaginação pode ser uma doce menina ou um poderoso dragão”. Essa frase define o que penso sobre SP.
Quando me mudei para cá, trouxe na mala, inclusive, um terno marrom que nunca usei, mas não trouxe muitos conselhos. Sou o primeiro da minha família a vir para SP sem um paradeiro certo; vim “para ganhar a vida”, então ninguém tinha grandes conselhos a me dar.
Tudo o que aprendi foi a cidade que me ensinou. Abri meus olhos para o que ela tinha para ensinar. Tem gente que vive uma vida inteira em São Paulo e nunca abre os olhos.
Não sou dado a conselhos; prefiro dizer que a vida acontece e que, dependendo das condições do “clima”, você vai descobrir que caminho seguir. São Paulo me ensinou que nem sempre as coisas acontecem no tempo e da forma que se deseja. Imagine só: “Nome de Santo” nasceu em 2001 e só foi lançada em 2026.

Existe alguma coisa que você acreditava sobre a vida adulta e precisou desaprender?
Hahaha. Acho que tudo. Nasci e cresci no seio de uma família de classe média, numa cidade com pouco mais de 35 mil habitantes. Na minha visão, naquela época, nos anos 90, nosso maior objetivo era curtir a vida e fazer faculdade em outra cidade. A vida adulta me parecia distante demais. E, para completar o cenário, no segundo ano de faculdade me descobri compositor e montei minha primeira banda. Não deu tempo de pensar no futuro, na vida adulta; as coisas foram acontecendo. Fui aprendendo a ser adulto sendo. E como é difícil, não é? Ainda mais hoje em dia.
O problema, ou melhor, o curioso é que não me vejo como um adulto total. Nem sei se as pessoas se enxergam completamente como adultos. Ainda carrego muito da minha criança e do adolescente que fui, continuo sendo eles, continuo sendo um tanto de gente e de diferentes idades.

Qual tipo de liberdade costuma custar mais caro do que as pessoas imaginam?
Hoje em dia, a liberdade que custa caro, na minha visão, é conseguir se livrar da tecnologia abusiva e predatória. Eu sei que vivemos a era digital, está tudo certo, não julgo valores; mas me preocupo quando ando pelas ruas e vejo tantas pessoas com o celular metido na cara, que mal enxergam por onde andam, por onde passam.
Ficar um tempinho conectado é legal, é divertido, a gente trabalha com isso; mas transformar esse aparelho na sua bússola da vida me soa como uma prisão. Acho que está cada vez mais difícil nos libertarmos, pelo menos por algumas horas, do que existe dentro de um celular.
Meses atrás, escrevi uma música nova que fala exatamente sobre isso. Tem um trecho que é assim: “diz que te ama, mas no fundo te odeia e vai te prender nessa teia…”. É algo para pensar na cama (risos).

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Se cada fase da vida tivesse uma trilha sonora, qual seria a sua? Julio Meloni escolheu músicas que guardam histórias, encontros e mudanças. Faixas que fazem a gente voltar no tempo e perceber o quanto já mudou pelo caminho.

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