Rita Batista e o que uma voz conta antes da resposta

Rita Batista em foto para entrevista para o deepbeep

Rita Batista fala sobre improviso nas entrevistas, os sinais que escapam pela fala e as músicas que ganham novos sentidos com o tempo.

Durante muito tempo, Rita Batista ouviu Flamboyant, de Emílio Santiago, como a história de um homem que precisava cantar para sustentar o filho. Hoje, a música está entre suas favoritas. Quando alguém pergunta por quê, ela recomenda prestar atenção à letra e à melodia. A relação com a canção mudou ao longo dos anos, e Rita fala dela com a convicção de quem já encontrou ali mais do que uma história para acompanhar.

Atriz, jornalista e apresentadora, Rita passou boa parte da vida profissional diante de pessoas que precisam encontrar palavras para contar alguma coisa. Uma entrevista começa com perguntas preparadas, mas nem sempre a resposta segue o caminho previsto. Ela pode trazer uma lembrança inesperada, abrir uma questão que não estava na pauta ou mudar o rumo da conversa. Rita trabalha com essa margem de improviso sem abrir mão da preparação, porque uma boa pergunta também depende da disposição de ouvir o que vem depois.

A voz ocupa um lugar particular nessa escuta. Rita trabalha com a própria desde os 12 anos e sabe como um timbre pode permanecer reconhecível mesmo depois de muitos anos. Também observa as mudanças que acontecem quando alguém tenta disfarçar o que sente. Um tremor, uma alteração na sonoridade ou uma fala que perde firmeza podem revelar desconforto antes que a pessoa encontre palavras para explicá-lo. Para ela, perceber esses sinais não significa tentar desmascarar ninguém, mas prestar atenção ao que a fala deixa escapar.

Na playlist “Músicas que Sabem Conversar” exclusiva para o deepbeep, Rita reúne canções que fazem parte de sua relação com a escuta. A história de Flamboyant ajuda a entender por que uma música conhecida não se esgota na primeira interpretação. A vida muda o repertório de quem ouve, e há letras que só encontram seu sentido mais pessoal muitos anos depois.

Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor

Rita, você já entrevistou, apresentou, ouviu e conversou com milhares de pessoas. O que costuma aparecer numa conversa quando alguém finalmente esquece que está sendo observado?
Eu acho que, quando a pessoa se volta pra você, não desvia o olhar, não procura pensar muito, demora pra responder alguma coisa, então ela percebe que aquilo é uma conversa mesmo. Não fica aguardando somente a vez de responder aquilo que foi perguntado, e sim tem uma continuidade naquele papo, e não se apega aos ditames de uma entrevista. Então, às vezes, inclusive, responde coisas que a gente iria perguntar na próxima sequência, e aí você também, por sua vez, o entrevistador, a entrevistadora, trata de fazer daquilo o mais agradável possível, respeitando o seu público, de acordo com o que você prometeu que ia revelar daquela pessoa e, obviamente, também a fonte, a pessoa que está lhe respondendo tão gentilmente questões do seu trabalho, da sua vida ou sobre o que ela acha de certos assuntos, opiniões.
Então acho que a entrevista é uma dança mesmo. Eu entendo entrevista assim. A gente tem um roteiro, claro, mas aquilo não está marcado em pedra. Aquilo pode se modificar, porque a língua, como a língua é viva, qualquer coisa que aconteça a partir disso, a língua também é viva e mutável. Acho que é assim que acontece.

Qual é a música que você entende melhor hoje do que entendia vinte anos atrás?
Flamboyant. É, Emílio Santiago canta. Antigamente, há 20 anos, há 30 anos, eu entendia só mesmo como a narrativa de um cantor que precisava cantar para sustentar seu filho e para fazer as coisas. E achava curioso porque o título da música não está no início, está no meio da canção, está no meio da letra. E é uma passagem.
E hoje Flamboyant faz muito sentido pra mim. Tanto que é uma das minhas músicas preferidas. Às vezes as pessoas, eu ouço Emílio Santiago todo santo dia, e às vezes as pessoas ficam assim: “Flamboyant? Por quê? Você gosta de flamboyants? Você tem flamboyants em casa?” E tal. Eu falo: “Não, meu amor. Preste atenção, preste atenção nessa letra e nessa melodia.” E ninguém cantará na vida, pelo menos enquanto vida eu tiver, e eu vou morrer com 120 anos, como Emílio Santiago.

Como uma voz continua reconhecível mesmo quando o contexto muda completamente?
O registro sonoro, o fonema, a melodia, a métrica, então acho que isso são marcas, são marcadores que tornam essa voz reconhecível mesmo ao passar do tempo, dos anos.
Eu, que sou uma pessoa do audiovisual e tenho muito disso, desse registro sonoro na minha profissão, no meu dia a dia, e as pessoas tendem a me reconhecer muito pela voz, não sei se pelos anos de rádio. As pessoas acham que eu imposto a voz, por exemplo, e essa é a minha voz desde os 12 anos, da hora que eu acordo, da hora que eu vou dormir. Se eu tiver resfriada, ela fica mais grave, então tem mais acento.
Mas eu acho que, para além da técnica e da formação dessa vibração de cordas vocais até sua emissão, eu acho que é memória, é registro e memória. Não há nada mais valioso e mais fidedigno a alguma coisa do que o registro e a memória.
Então você veja, mesmo quando colocam, fazem remix de discos, de clássicos, enfim, você pode mexer em tudo, ou mesmo quando querem mexer em arranjos etc., a voz fica lá. A voz é impressão digital. E eu acho que é isso, acho que é assim que se perpetua.

O que as pessoas tentam esconder e acabam revelando pela forma como falam?
As pessoas tentam esconder várias coisas, o que não é confortável para elas, de uma maneira geral. Até nós, que lidamos com a voz profissionalmente, que muitas vezes somos treinados, que estamos nas locuções, na teledramaturgia, nas apresentações, no jornalismo, e que a gente tem técnica, inclusive, para esconder certas coisas, para trabalhar em parcialidade, para trabalhar em sensação, para não passar emoção ou passar emoção.
Uma emoção que o seu personagem, aquele que você está defendendo ali, está sentindo, mas você necessariamente não. Você emprestando o seu corpo, o seu aparelho fonador, para que aquilo saia inteligível para as outras pessoas, para que as outras pessoas sintam aquilo que você está passando.
Então a gente tem essas artimanhas, esses subterfúgios. Possibilidades.
Agora, geralmente, as pessoas tentam esconder o que é ruim, né? Quando estão tristes, quando estão decepcionadas, quando estão amarguradas, quando estão infelizes, quando, enfim, estão mal-humoradas, chateadas, então tentam disfarçar. Algumas conseguem, outras não, como tudo na vida.
Mas, à medida que você vai falando com uma pessoa que tá num estado desse e que tá tentando burlar isso, você percebe, se você tiver mais atenção. Assim, não precisa ter um ouvido apurado, técnico, mas, se você tiver mais atenção, você vai perceber essa voz mais trêmula, mais pra dentro ou anasalada. A pessoa está entupida porque chorou a noite inteira, ou mesmo certos gráficos de alteração de voz que revelam muito.
É por isso até que tem técnica, tem aparelho para isso, porque, à medida que essas ondas se alteram, a gente consegue, não é pegar na mentira, porque isso não é elegante, mas entender qual é a verdade. Se é aquela que a pessoa está querendo ou é a que está dentro dela e que, às vezes, vai sair de algum jeito, por algum lugar vai sair. E a fala revela muito.

Quando uma música deixa de ser novidade e vira companhia?
De novo, quando ela lhe traz memória, ou ela cria uma memória. Aí você para e presta atenção na letra, na melodia, sei lá. Isso acontece muito comigo assim, no rádio. Eu tô dirigindo, tô ouvindo o rádio e tal, aí, de repente, toca uma música, das novas ou das antigas, que eu falo: “Opa”, e aquilo me leva pra outro lugar.
Então eu acho que é assim que uma música deixa de ser novidade e vira companhia.

Existe alguma pergunta que quase sempre produz respostas interessantes?
Ah, pra mim é uma pergunta que traz descobertas. O que você quer? Me diga. O que você quer? Qualquer coisa.

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Fotos por Caio Lírio
Agradecimentos à Anne Pinto pela conexão

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De Emílio Santiago às descobertas que interrompem o trajeto com um “Opa”, a seleção de Rita Batista mostra o que acontece quando a gente presta atenção no que está ouvindo.

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