
Décadas de jornalismo depois, Joyce Pascowitch continua interessada nas histórias que as pessoas contam e naquilo que ainda pode surpreendê-la.
Jornalista, autora de livros e fundadora do Glamurama, Joyce Pascowitch passou décadas entrevistando gente conhecida e acompanhando de perto a cultura, o comportamento e o poder. Quando fala sobre conhecer alguém, porém, sua curiosidade começa longe das grandes questões. Em vez de perguntar em quem a pessoa vai votar, quer saber se gosta de novela. Também pergunta como vive, quanto ganha, se o dinheiro dá.
A fama não determina seu interesse. Joyce gosta de conversar com quem está fora do seu círculo habitual e descobrir histórias que não aparecem no perfil público de ninguém.
Ela já fez sete playlists no Spotify com músicas que marcaram sua vida. Algumas guardam lembranças precisas, como uma viagem a Campos do Jordão com a mãe, que morreu há três anos. Leonard Cohen também a aproxima de suas raízes judaicas. O teatro ganhou espaço entre seus interesses recentes, e o surfe continua entre as atividades que gostaria de experimentar. Há ainda a vontade de tocar numa orquestra. Joyce não quer reger, mas participar como musicista daquele encontro em que pessoas diferentes precisam tocar juntas.
Na entrevista ao deepbeep, as histórias passam pelo cotidiano, pelas músicas que acompanham suas lembranças e pelas experiências que ela ainda quer viver.
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, redes e comunidade
Joyce, tem alguma coisa específica que entrou no seu radar ultimamente?
Eu tô cada vez mais ligada em teatro. E tô gostando cada vez mais de assistir a espetáculos teatrais. Eu gosto de ver os atores atuando ao vivo. Antes não era assim. Então, para mim, isso é uma questão que chamou minha atenção ultimamente. Eu posso me lembrar mais da última, que foi a Regina Casé em Viva! Vida!. O que me chamou a atenção é como eu fui esperando a Regina de Muvuca, de Esquenta. E como eu sabia que ela era ligada em árvores, no programa Um Pé de Quê?. Mas fui surpreendida por essa coisa do planeta. E por essa coisa de que se fala tanto, mas que ainda é tão necessária ser dita. E, de uma maneira muito lúdica, ela mexia com a plateia, trazendo assuntos muito sérios para uma plateia que não estava tão a par. E também pelo tanto que ela teve que estudar para saber contar todas essas histórias.
Depois de tantas conversas com pessoas diferentes, o que ainda te dá vontade de conhecer alguém?
Eu gosto de conhecer quem eu não conheço. Gosto de conversar com quem eu não converso sempre. Com quem eu não conheço a história, que não faz parte do meu círculo. Eu gosto muito de conversar com taxistas. No mercado, com o menino que faz os pacotes. Eu gosto de conversar no avião, com quem senta perto, na fila. Eu gosto de descobrir pessoas.
E o que faz uma pessoa prender a sua atenção?
Basta ela falar a verdade sobre a vida dela. Porque, quando eu começo a conversar, eu não estou questionando grandes questões. Eu quero saber do dia a dia dela, como ela é, quanto ela ganha, se aquele dinheiro é suficiente. São esses tipos de questões que me chamam a atenção. Eu quero conhecer o dia a dia delas. Bem o comum. Não quero saber em quem elas vão votar. Gosto de saber se elas gostam de novela, isso eu pergunto. Mas nada que não seja extremamente do cotidiano, da vida normal.
E você tem assistido a alguma novela?
Minha vida inteira, desde que eu me entendo por gente, eu estou assistindo a alguma novela. De umas eu gosto mais, de outras eu gosto menos, mas isso não quer dizer que eu não assista. Eu assisto às que eu gosto e às que eu não gosto, nas quais fico reclamando. Mas eu estou amando essa atual, Quem Ama Cuida.
Pensando em informação entre as pessoas, entre a cultura, o que chega facilmente até você e o que ficou mais raro de encontrar?
O que chega fácil é a divulgação das pessoas que querem usar os veículos, que agora são outros meus veículos. Eu tenho uma newsletter que está funcionando muito bem, então as pessoas querem divulgar seus produtos, suas apresentações na newsletter. Isso é fácil. As pessoas mandam, eu analiso e aí vou vendo o que vai para onde. Se é para minhas redes, se é para YouTube, se é para a newsletter. Eu nem acho difícil estar com pessoas interessantes. Eu acho que existem muitas pessoas interessantes. Eu não tenho dificuldade no que eu vou perguntar, em nada, porque sou muito curiosa e gosto muito de aprender. Então, eu não vejo dificuldade, não tenho mais dificuldade na minha profissão. Porque eu não lido com pessoas com as quais eu também não tenho interesse. Eu escolho com quem vou entrevistar, de quem vou falar.
E você escuta muita música no dia a dia? Como ela entra na sua rotina hoje? O que você escuta?
Escuto. Eu faço playlists. Todo verão eu faço uma playlist no Spotify, com músicas da minha vida. Já fiz sete. Só que agora eu estou com dificuldade, porque, depois de sete playlists, acho que já coloquei todas as músicas de que gosto. Claro que é mentira, mas tenho mais dificuldade em colocar alguma coisa que faça diferença para mim. Eu escuto as playlists, seja nos meus treinos de ginástica, seja nos dias, no fim de semana aqui em casa, no carro direto.
Qual é a música que está mais pegando você atualmente?
Olha, o Spotify sempre me fala isso no final do ano, né? Mas, ultimamente, quem está me pegando é o Leonard Cohen. Tem um disco dele chamado You Want It Darker, ou Eu quero mais escuro, porque é uma música que fala de questões do judaísmo e, esses dias, foram os feriados judaicos e eu fiquei com essas músicas muito presentes.
E o que acontece com você quando você escuta esse álbum, por exemplo?
Ah, eu me transporto a momentos. Por exemplo, uma vez eu fui para Campos do Jordão com a minha mãe, anoitecendo, e estava tocando essa playlist no carro. Eu nunca ia para Campos, fui convidada, levei a minha mãe e foi um momento muito profundo para mim. Minha mãe já morreu há três anos. E também me lembra as coisas judaicas, as minhas raízes.
E tem alguma coisa que você ainda não fez e tem vontade de experimentar, Joyce?
Tenho, mas vai ser difícil, que é surfar. Outra coisa que também gostaria muito é de trabalhar numa orquestra, ser uma formiguinha, sabe? Eu não quero reger. Eu gostaria de ser uma musicista da orquestra, para participar daquele momento único em que todo mundo toca junto e que é… redentor.
Por que isso está te interessando agora?
Bom, surfe, eu sempre me interessei a vida inteira. Meu cabelo, eu sempre falava para o meu cabeleireiro: “Nós vamos fazer luzes de novo?”. É surfista. Minhas luzes são surfistas. Cabelo de surfista. E eu adoro assistir ao campeonato de surfe na TV, no canal OFF. Toda noite eu passo pelo OFF. Se tiver surfe, eu fico lá. Depois da novela.
E a música. Primeiro que eu acho que a orquestra é uma união de sentimentos, de talentos, de senso comum, com tantas pessoas diferentes umas das outras e todas naquela hora, naquele grande encontro. Eu também assisti uma vez a uma série com o Gael García Bernal, que era um maestro, Mozart in the Jungle. E fiquei louca, porque os bastidores, as orquestras, achei aquilo a coisa mais interessante do mundo.
E você ainda se surpreende com as pessoas?
Sempre. Eu acho que, quando a gente trata de surpreender, é porque morreu, né? Porque as coisas nunca são e as pessoas nunca são exatamente como a gente acha. Por isso é a graça de conversar e ir descobrindo o tempo inteiro coisas diferentes, pessoas diferentes, com sentimentos diferentes, ideias, origens.
E o que costuma te surpreender nessas pessoas?
A verdade delas.
O que está merecendo a sua atenção hoje?
Tudo o que está acontecendo no Brasil merece muito a minha atenção e minha preocupação. Tudo o que acontece no mundo. Tudo o que acontece nessa confusão eterna de Israel e Palestina, que é uma guerra sem fim, horrorosa, que todo mundo sai machucado e perdendo. Eu acho que sempre o que chama a minha atenção nos dias de hoje é a preocupação com as pessoas em geral.
E só pra gente fechar mesmo, eu queria voltar a uma coisa que você falou sobre saúde, Joyce.
É que eu estou muito impressionada. Como eu lido com bastante gente, eu circulo, estou impressionada com a quantidade de pacientes com Alzheimer e crianças autistas. Porque parece que, em outros tempos, não era assim, eu não tinha essa percepção. Então, em volta de mim, pais de muita gente em volta, uma amiga minha, todos com Alzheimer. É muito angustiante isso e muito preocupante. E muitas crianças autistas também. Eu não sei o quanto isso é preocupante, porque elas são felizes, né, aparentemente. Mas são coisas que chamam a minha atenção.
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Livro Poder, estilo e ócio por Joyce Pascowitch
Livro Avental por Joyce Pascowitch
Livro Um Lugar Todinho Meu por Roberta Miranda e Joyce Pascowitch
Fotos por Paulo Freitas e Canal UOL
Agradecimentos ao Fábio Guimarães e à Juliana Tavares
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Uma seleção de músicas que guardam pedaços da vida de Joyce Pascowitch. Cada faixa carrega uma história, uma fase ou uma descoberta.
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