
Rico Manzano fala sobre o que faz uma música interromper uma escuta acostumada a ouvir muito e sobre o que ainda consegue surpreendê-lo.
Rico Manzano passa boa parte dos dias ouvindo música que ainda não conhece. Demos chegam, artistas aparecem, músicas circulam pelas redes e conversas levam a trabalhos que ele ainda não tinha escutado. Produtor musical e cofundador da Central Music, criada com Chico Lowndes, ele trabalha justamente nesse momento em que uma música ainda está descobrindo o que pode ser.
Quando algo o pega, a reação vem antes da explicação. “Eu simplesmente gosto.” Pode ser uma voz, uma combinação de referências, uma estética própria ou alguma coisa que ainda não sabe nomear. A intuição vem carregada por anos de escuta, repertório e trabalho, mas continua funcionando rápido.
Depois começa outra parte do processo. Uma música pode chegar de um jeito e terminar completamente diferente depois do arranjo, dos timbres, da interpretação e das decisões de produção. Para Rico, a transformação não precisa apagar aquilo que fez alguém prestar atenção nela pela primeira vez. O trabalho está em descobrir até onde aquela ideia consegue ir.
Ele também presta atenção no que acontece quando um artista reorganiza referências conhecidas e encontra uma linguagem própria. Técnica faz parte do trabalho, mas não explica tudo. Existem produções impecáveis que não dizem muita coisa e outras que carregam uma força estética e cultural difícil de medir.
A playlist “Antes da Imagem”, preparada para o deepbeep, reúne músicas que fazem parte dessa escuta. Gal Costa aparece ao lado de Cleo Sol, Chico Buarque divide espaço com D’Angelo, Milton Nascimento está na mesma seleção que Greentea Peng. A escolha atravessa épocas e gêneros sem tentar organizar essas diferenças.
Rico não sabe qual será a próxima música que vai fazê-lo parar. “Talvez eu não esteja procurando um som. Estou esperando o próximo que consiga me surpreender.”
Lísias Paiva, criador e editor
Rico, você costuma conhecer a pessoa antes de conhecer o projeto. O que uma pessoa revela nos primeiros minutos que nenhum briefing consegue contar?
Isso varia bastante. Às vezes conheço a pessoa primeiro, em um evento, numa conversa, e alguma coisa naquele encontro desperta minha curiosidade de conhecer o trabalho. Em outros casos, que também são muito comuns hoje, a música chega primeiro, pelas redes ou por outros caminhos, e é ela que me faz querer conhecer a pessoa por trás. Mas acho que existe algo que nenhum briefing consegue traduzir completamente, que é a autenticidade. Nos primeiros minutos de conversa, você consegue perceber a relação daquela pessoa com o próprio trabalho, a confiança que ela tem no que faz e, principalmente, se existe uma necessidade genuína de fazer arte. Para mim, isso independe completamente de ela ter mil, cem mil ou um milhão de seguidores. Tem gente em quem você reconhece imediatamente essa verdade de artista, e isso sempre me chama atenção.
Já aconteceu de uma música parecer uma coisa no primeiro dia e completamente outra depois de você trabalhar nela? O que mudou na sua escuta?
Isso acontece o tempo todo. Muitas vezes uma música nasce de uma forma e termina completamente diferente. Acho que parte do trabalho da produção musical é justamente essa lapidação, entender o que existe de essencial naquela composição e, a partir dali, descobrir até onde ela pode chegar. E isso não significa necessariamente torná-la “melhor”, mas ampliar suas possibilidades. As decisões de arranjo, timbre, interpretação, gênero e produção podem transformar completamente a maneira como uma música se apresenta, sem que ela perca aquilo que a fez ser especial desde o começo. Do mais experimental ao mais popular, praticamente tudo o que a gente escuta passou, de alguma maneira, por esse processo.
Para mim, o mais importante é que essas decisões estéticas sejam construídas em sintonia entre artista e produtor. A música pode terminar muito distante da primeira demo, mas a essência precisa continuar ali. No fim, o melhor resultado é aquele que você escuta pronto e sente orgulho da forma como aquela ideia chegou ao mundo.
Depois de ouvir tanta coisa nova, o que ainda consegue fazer você parar e pensar que encontrou alguma coisa?
Para mim, é muito intuitivo. Quando alguma coisa me pega musicalmente, eu percebo rápido. Não existe uma necessidade de racionalizar ou me convencer de que aquilo é bom. Eu simplesmente gosto. Claro que é uma intuição carregada por anos de escuta, repertório e trabalho, mas ainda assim existe uma reação muito imediata. Isso funciona, isso é autêntico, tem alguma coisa aqui.
E eu gosto muito de encontrar coisas novas, mas o novo, para mim, não precisa necessariamente ser algo completamente estranho ou que nunca tenha sido feito. Às vezes está na maneira como alguém reorganiza referências que já existem e cria uma estética própria. Inclusive, acho importante separar qualidade estética de qualidade técnica. Existem trabalhos tecnicamente impecáveis que não me dizem muita coisa e outros muito menos preocupados com a técnica, mas com uma força estética e cultural enorme. Porque música nunca foi só nota, harmonia ou produção. Ela carrega vivências, histórias, comunidades, pensamento, contexto. É uma forma de expressão humana. Se você olhar para a música somente como notas, acho que deixou de entender uma parte enorme do que ela é.
Você está cercado de artistas em momentos muito diferentes de carreira. O que faz você apostar em alguém antes de todo mundo perceber?
Esse é basicamente o meu trabalho. Entender o momento em que um artista está, perceber o que existe ali e ajudar aquilo a crescer, a chegar mais longe e a encontrar mais pessoas. E tem muita intuição envolvida nisso também. Acho que me chama a atenção quando alguém já começa a desenvolver uma linguagem própria e, principalmente, tem capacidade de construir um universo ao redor do que faz. Quando existe uma espécie de ímã que conecta música, ideias, referências, discurso, imagem e cria um lugar no qual as pessoas querem entrar e permanecer.
Porque um artista, quando realmente se conecta com seu público, passa a representar e influenciar muita gente. Música ocupa um espaço muito importante na vida das pessoas, e existe também uma responsabilidade nisso, no que você diz, em como comunica e em como se posiciona. Então, muitas vezes, apostar cedo em alguém é perceber esse potencial antes mesmo de ele estar completamente formado.
Tem algum som que você ainda está procurando e não encontrou?
Não. Na verdade, não estou procurando som nenhum específico. Acho que uma das coisas de que eu mais gosto na música é justamente ser surpreendido. A gente vive um momento de excesso de informação como talvez nunca tenha existido. Tem muita música sendo feita, muita gente fazendo coisas incríveis, muitas cenas acontecendo ao mesmo tempo em lugares completamente diferentes do mundo. Então não sinto que preciso procurar um determinado som, prefiro estar aberto ao que aparece e ao que ainda não conheço. No fundo, acho que me interesso por histórias. Gosto de conhecer pessoas, lugares, culturas, entender outras formas de enxergar o mundo. E a música inevitavelmente aparece nisso, porque ela é parte da linguagem e da história das pessoas. Então talvez eu não esteja procurando um som. Estou esperando o próximo que consiga me surpreender.
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Rico Manzano escolheu músicas que continuam produzindo imagens antes mesmo de chegar a algum lugar. A seleção atravessa épocas, gêneros e referências diferentes, com faixas que fazem parte da sua escuta e outras que continuam abrindo possibilidades.
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