MOTOCONTINU.M e o controle antes do improviso

BLANCAh e L_cio em apresentação do MOTOCONTINU.M, projeto de live que combina música eletrônica, improviso e elementos audiovisuais.

Em MOTOCONTINU.M, BLANCAh e L_cio transformam seus métodos de live em matéria de criação.

L_cio passa o som e fica na festa até a hora de tocar. Quer sentir a pista antes de entrar no live. O hábito diz bastante sobre a maneira como trabalha. Antes de criar em público, observa o que está acontecendo ali. BLANCAh Para improvisar, precisa estar segura do que foi combinado. O show precisa ser conhecido por inteiro antes que as decisões escapem do planejamento.

Os dois fazem live sozinhos, têm métodos e repertórios próprios e acumulam mais de uma década de experiência na música eletrônica. MOTOCONTINU.M coloca esse conhecimento em uma situação diferente. Pela primeira vez, o controle de um live passa a ser dividido.

O primeiro trabalho conjunto foi O Olhar do Avesso, criado para o Ibehas. A experiência mostrou o que poderia acontecer quando suas formas de trabalhar se encontrassem. MOTOCONTINU.M nasceu dessa percepção e de uma decisão mais ambiciosa. Fazer coisas que nenhum dos dois havia feito em suas carreiras individuais.

O show precisa ser dominado antes que o improviso apareça. A estrutura muda durante a apresentação, enquanto imagem e luz acompanham o som em tempo real. O Sala28 transforma essa relação em um sistema audiovisual aberto, capaz de responder ao que os dois músicos fazem e ao que o público provoca. Há uma parte que nenhum ensaio resolve antes da primeira noite.

BLANCAh diz que aprendeu com L_cio. Ele diz que não imaginava que ela fosse tão longe nos processos criativos. Ela descobriu que ele é aficionado por futebol e basquete. Definitivamente, não esperava isso dele. MOTOCONTINU.M parte de uma dupla que já conhece muito bem o próprio trabalho. A questão agora é descobrir o que sobra desse controle quando o live deixa de pertencer a uma pessoa só.

Na entrevista ao deepbeep, BLANCAh e L_cio, o MOTOCONTINU.M, falam sobre método, discordância, improviso, público e sobre o que acontece quando dois modos de fazer música dividem o mesmo palco. A playlist MOTOCONTINU.M — ANTES DO PALCO reúne as escolhas dos dois antes da estreia.

Lísias Paiva, criador e editor

O que cada um trouxe para o MOTOCONTINU.M que o outro não encontraria sozinho?
BLANCAh: Cada um de nós tem uma bagagem musical única. Apesar de termos uma sinergia muito forte, percorremos caminhos diferentes na música e isso é muito rico quando nos encontramos. Temos métodos diferentes de fazer live e, quando somamos nossa expertise, algo único acontece.
L_cio: Complementaridade musical e técnicas aprendidas que esse projeto revelou para cada um.

Qual foi a primeira coisa que vocês fizeram juntos que nenhum dos dois faria sozinho?
BLANCAh: Por um lado, todo o projeto do MOTOCONTINU.M é uma novidade para nós. Decidimos que este seria um projeto superexperimental e que faríamos coisas que nas nossas carreiras individuais não fizemos.
L_cio: A obra O Olhar do Avesso para o IBEHAS, que nos fez perceber quão poderosa é nossa união. Esse ponto de partida deu origem ao MOTOCONTINU.M.

Existe uma hora em que vocês param de decidir e deixam acontecer?
BLANCAh: Sinto que somos artistas bastante metódicos. Precisamos estar muito seguros do que nos propomos a fazer inicialmente para só depois deixar o improviso acontecer.
L_cio: Sim. Essa hora chega quando já estamos confortáveis tocando e dominando todo o show. Aí, o improviso e as criações ao vivo aparecem de maneira muito madura.

O que acontece quando vocês discordam?
BLANCAh: Aprendemos um com o outro.
L_cio: Normalmente, a discordância revela algo que um de nós não tinha percebido, e isso gera movimento, mudança e crescimento.

O público já fez vocês mudarem alguma coisa durante um live?
BLANCAh: Não. O público não me guia, eu guio o público.
L_cio: Ainda não estreamos o projeto, mas, individualmente falando, já mudei muitas vezes o que faria no meu live. Por isso, sempre chego pra passar o som e fico na festa até a hora de tocar, o que me aproxima do sentimento da pista.

O que vocês descobriram um sobre o outro ao trabalharem juntos?
BLANCAh: Eu descobri que o Laércio adora assistir a jogos de futebol e basquete e é aficionado por esportes. Eu JAMAIS imaginei algo assim vindo dele. haha
L_cio: Não imaginava que a BLANCAh iria tão longe nos processos criativos.

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A Sala28 assina a construção visual do MOTOCONTINU.M, live conduzido por BLANCAh e L_cio. Do encontro entre os dois artistas surge uma terceira presença, feita de imagem, luz e espaço, que muda a cada apresentação e dá outras dimensões à música.
O som desloca, adensa e transforma as imagens, que guardam o que já aconteceu, respondem aos silêncios e mudam a percepção do tempo e do espaço. A luz se espalha pelo ambiente, enquanto os celulares do público entram na apresentação e podem interagir ao vivo com o live, levando o sistema visual para além do palco. É uma criação sofisticada, aberta ao acaso e muito atenta ao que acontece diante dela. Conversamos com Rodrigo Machado e Junior Costa Carvalho, da Sala28, sobre a construção dessa visualidade.

▶︎ O que a Sala28 quer provocar no encontro entre o som de BLANCAh e L_cio?
A Sala28 busca dar forma à terceira entidade que surge desse encontro. BLANCAh e L_cio trazem trajetórias consolidadas, mas, no MOTOCONTINU.M, suas identidades individuais cedem lugar a uma obra construída em conjunto. Nosso papel é criar o ambiente em que essa fusão se torne perceptível: um sistema no qual música, imagem e luz coexistem e se afetam mutuamente. Mais do que acompanhar a música, queremos alterar a forma como ela é vivida. A repetição, as estruturas hipnóticas e as variações sutis do projeto encontram, na visualidade, uma extensão capaz de transformar a percepção do tempo e do espaço. O objetivo é que cada apresentação seja reconhecida como um acontecimento único, impossível de ser repetido.

▶︎ Como criar uma visualidade que responda ao live sem apenas ilustrar o que está sendo tocado?
Tratando a imagem como parte da composição, e não como sua tradução. Em vez de reagir de forma literal a cada batida, o sistema visual possui comportamento próprio, e o som atua sobre ele como uma força que o desvia, adensa ou transforma. A imagem guarda memória do que já aconteceu, admite o contraponto e permanece em movimento mesmo nos silêncios. Como a música é composta em tempo real, a visualidade também é conduzida ao vivo, sob a mesma condição de escuta e improvisação dos artistas. A luz expande a experiência para além do palco e ocupa o espaço como matéria. As telas dos celulares também passam a integrar a apresentação: deixam de ser apenas dispositivos de registro e se tornam extensões do sistema visual, distribuídas por todo o ambiente. Assim, a imagem não descreve a música: ela participa dela.

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Acompanhe o trabalho do MOTOCONTINU.M
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Site MOTOCONTINU.M

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Ouça a playlist de MOTOCONTINU.M no seu player preferido. BLANCAh e L_cio escolheram as músicas que estavam na escuta dos dois antes da estreia.

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