The Twelves voltou quando uma música antiga reapareceu

The Twelves em entrevista ao deepbeep sobre o retorno da dupla, com playlist “O Som das Coisas Que Voltam Diferentes”.

Mais de uma década depois de seguir caminhos separados, João Miguel e Luciano Oliveira descobriram que algumas referências continuam chegando à pessoa certa.

Há uma música que pode atravessar quase duas décadas sem deixar de parecer uma descoberta. “Nightvision”, do Daft Punk, ganhou uma versão do The Twelves em 2009. A faixa ficou circulando em MP3, blogs e arquivos perdidos da internet até reaparecer em 2026, quando Thomas Bangalter e Fred again.. tocaram a versão da dupla em Londres. O episódio chegou a João Miguel, que mandou a descoberta para Luciano Oliveira. A conversa voltou. O The Twelves também.

Formado em 2005, o duo carioca virou um dos nomes brasileiros mais reconhecidos da música eletrônica da era dos blogs. O remix de “Boyz”, da M.I.A., em 2007, abriu a porta para uma sequência de trabalhos com artistas como La Roux, Metric, Fever Ray, Two Door Cinema Club e Daft Punk. Vieram BBC Radio 1, Coachella e uma circulação internacional que colocou o The Twelves no centro de uma cena que estava descobrindo novas maneiras de produzir, distribuir e ouvir música.

Depois, cada um seguiu sua vida. Mais de uma década se passou. A distância mudou a rotina, as referências e a própria maneira de fazer música. Quando voltaram a conversar, não havia um plano para retomar o projeto. Havia uma música, uma mensagem e uma pergunta sobre o que aquela parceria poderia ser agora.

A playlist “O Som das Coisas Que Voltam Diferentes” reúne músicas que atravessaram fases e anos de escuta sem perder a capacidade de surpreender. Algumas pertencem à história do duo. Outras chegaram durante o intervalo. Todas passaram pelo teste mais difícil para uma música conhecida: continuar encontrando alguma coisa nova em quem já a conhece. Nesta entrevista, o The Twelves fala sobre o que a distância muda numa parceria, sobre a descoberta musical antes dos algoritmos e sobre como uma referência compartilhada pode sobreviver quando a convivência termina.

Lísias Paiva, criador e editor

Vocês passaram anos criando música juntos, depois seguiram caminhos separados e agora voltaram a trabalhar lado a lado. O que uma ausência longa permite enxergar que a convivência contínua não permite?
Acho que a ausência devolve perspectiva. Quando você passa muitos anos criando com alguém, certas dinâmicas perdem o brilho porque viram rotina, até as diferenças. Quando cada um segue sua vida, trabalha em outros projetos, constrói outras referências e depois volta, fica mais fácil entender o que existia ali de especial. No nosso caso, esse reencontro veio num momento inesperado e sem planejamento. Voltamos porque, de certa forma, a cena atual começou um diálogo com esse projeto. Parece menos sobre continuar uma história e mais sobre descobrir o que essa conversa pode vir a ser.

Depois de tantos anos compartilhando referências, sets e descobertas, existe algum tipo de música que um de vocês entende imediatamente no outro sem precisar de explicação?
Você acaba, sim, internalizando um pouco da visão do outro no seu processo pessoal. Nós começamos em instrumentos diferentes, João na guitarra e eu na bateria, e acho que isso tem um impacto na sensibilidade de cada um. Com certeza tem uma estética específica de música que, quando eu escuto, penso imediatamente nele. Nas nossas conversas sobre essa volta, uma das coisas mais recorrentes era mandar alguma música que descobrimos nesse hiato dizendo: “Você podia ter feito isso”.

Vocês viveram uma internet em que a descoberta musical parecia mais acidental e outra em que ela passou a ser mediada por algoritmos. O que ficou mais fácil de encontrar e mais difícil de encontrar nesse caminho?
Com certeza eu teria adorado ter esse nível de acesso imediato aos catálogos lá em 2007. Mas os blogs dos anos 2000 tinham um frescor enorme pra gente. Para quem cresceu com a mediação da mídia de massa, aquele espaço era ótimo. Eu sentia uma conexão pessoal com aquela curadoria, que na época estava bem à frente do mainstream. É difícil fazer uma comparação. A distribuição independente era bem mais precária. Grande parte das músicas que formaram o alicerce da nossa cena eu conheci em postagens de blog. Não tinham selo ou eram edits e remixes não autorizados.

Existe alguma qualidade que vocês aprenderam a admirar um no outro só depois da pausa?
Da minha parte, acho que passei a valorizar mais um certo pragmatismo que o João traz. A minha tendência realmente é dar uma viajada, principalmente na questão de como tocar ao vivo. Fico preso, às vezes, num loop infinito de experimentação que muitas vezes acaba sendo perda de tempo. É bom ter uma pessoa de confiança para aliviar essa ansiedade.

Muita gente acredita que intimidade significa conhecer todas as respostas. O que continua imprevisível mesmo depois de tantos anos de parceria?
Acho que o mais imprevisível nesse caso foi justamente o retorno. Jamais imaginaria que o Thomas Bangalter ia pegar a nossa cover de “Nightvision” para tocar num set com Fred again.. e que isso ia gerar todo um processo de reaproximação. Depois de mais de dez anos, é realmente surreal.

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Fotos por Ivan Nishitani

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