Andreas Kisser e tudo o que ainda não virou projeto

Andreas Kisser tocando guitarra em apresentação no Rock in Rio

Depois de décadas construindo uma das linguagens mais reconhecíveis do rock brasileiro, Andreas Kisser continua buscando o que ainda não sabe fazer.

Uma guitarra pode passar quarenta anos nas mesmas mãos e continuar encontrando sons que o próprio músico ainda não conhece. Andreas Kisser está chegando ao fim de uma das histórias mais importantes do rock brasileiro. O Sepultura encerra sua trajetória em novembro, depois de mais de quatro décadas de discos, turnês e mudanças de formação. A despedida, porém, não parece estar produzindo uma pausa. Enquanto a banda atravessa seus últimos palcos, Andreas continua estudando violão, pintando, correndo, ouvindo música fora do rock e pensando em escrever para dança. O novo EP do Sepultura, The Cloud of Unknowing, também chegou durante a reta final da banda.

A própria despedida dá uma pista sobre esse modo de trabalhar. No Rock in Rio, o Sepultura escolheu tocar apenas músicas da era Derrick Green e deixou de fora clássicos que poderiam transformar o show numa celebração previsível do passado. Andreas descreveu a experiência como um risco necessário.

Na entrevista ao deepbeep, ele fala sobre o que ainda consegue surpreender seus ouvidos, sobre aprender sem a obrigação de ficar bom, sobre as relações entre pintura e música e sobre o perigo de seguir uma fórmula apenas porque ela já funcionou. Quando perguntamos o que ocupa sua cabeça antes de virar projeto, a resposta aponta para a próxima curva: música para um corpo de dança.

No dia 12 de setembro, Andreas leva essa disposição para outro contexto. Às 17h, apresenta o show Suíte LÖU, ao lado de Maria Grecco no PRISMA, no Jardim Suspenso do Centro Cultural São Paulo, em uma tarde que reúne música, performance e cinema (mais informações ao final da entrevista).

A playlist “Antes de Virar Projeto” reúne as músicas que estão rondando a cabeça de Andreas agora. Algumas são antigas. Outras são recentes. Todas têm algo em comum: ainda não sabemos exatamente no que vão dar.

Lísias Paiva, criador e editor

Andreas, você passou décadas aprendendo a fazer uma guitarra soar como ninguém espera. O que ainda consegue surpreender seu próprio ouvido?
Me surpreende ver guitarristas que têm uma linguagem própria, como o Jack White, o Angine de Poitrine, ou instrumentistas como a Vera Danilina e os irmãos Assad, que exibem uma técnica extremamente refinada, pela qual percebemos que houve muito estudo e muita estrada. Isso também acontece em shows, como no dos Eagles, que vi este ano no Sphere, em Las Vegas. A banda, sua música e sua performance deixaram todo o aparato visual sofisticado em segundo plano.
E, num espectro mais amplo, para além da música, o teatro me surpreende, especialmente experiências artísticas que nos dão outras dimensões e relações com o tempo e o espaço, como o espetáculo “Orkhéstra Phántasma”, dirigido por Felipe Hirsch, e essa turnê que o David Byrne tem feito. São coisas que rompem com o senso comum, desafiam formatos programados e ativam o “espanto” que nos faz sentir vivos.

Existe alguma coisa que você quer aprender agora sem ter nenhuma intenção de ficar bom nisso?
A corrida. Tenho corrido pelas ruas de São Paulo e participado de provas sem paranoias de tempo ou performance. Mas tendo a pensar que a intenção pouco importa. Qualquer aprendizado é válido, ainda que desprendido de expectativa de resultado, porque nada se perde, tudo é bagagem. Quando focamos num determinado projeto, tudo o que passamos até agora será de alguma forma utilizado. Imagine que eu venha a compor uma trilha sonora para um filme. Tudo o que passei com o Sepultura, fazendo álbuns e trabalhando com orquestra e percussão, certamente me ajudará a buscar possibilidades e soluções no contexto da trilha sonora. Nunca sabemos quando iremos usar uma informação aprendida hoje, ou mesmo se esse aprendizado, desprendido de resultado imediato, irá indiretamente nos tornar bons em outro feito futuro. Só é possível saber se aprendemos ou dominamos uma arte fazendo.

Você está trabalhando com música, pintura e outros projetos. O que uma linguagem consegue revelar que outra costuma esconder?
A meu ver, o processo de “montagem” de uma música é muito similar ao de uma pintura. Começa com um traço que seria como uma base rítmica. A partir disso, as coisas vão te chamando. Os timbres e batidas de uma música podem ser muito bem explicados analogicamente através de cores. A expressão é a mesma, são apenas diferentes canais. O que eu sinto é uma coisa só, que pode ser manifestada ou externalizada através da música, da pintura ou do desenho.

Depois de tantos anos com uma identidade artística tão reconhecível, existe alguma coisa que você ainda evita fazer porque não sabe se vai funcionar?
Não. Pelo contrário. Qualquer avanço exige o enfrentamento de uma dose de risco, ainda que mínima. No último show do Sepultura no Rock in Rio, que rolou dias atrás, foi uma experiência desafiadora e extremamente gratificante. Fizemos um show da turnê de despedida da banda, em um dos maiores festivais do mundo, tocando apenas o repertório da era Derrick Green, incluindo todas as músicas do novo EP lançado este ano e deixando de fora os clássicos da banda. Em qualquer ato de pioneirismo, você vai estar pisando em um solo que ainda não foi pisado. É como jogar luz no escuro, sentir a topografia passo a passo, seguir o instinto que te levou para lá e, naturalmente, mostrar que existe um caminho diferente. O maior erro é seguir uma fórmula porque sabe que vai funcionar, ou porque já funcionou para alguma outra pessoa, mas que não é o seu caminho.

O que está ocupando sua cabeça hoje que ainda não virou projeto?
Escrever música para um corpo de dança. Recentemente assisti ao espetáculo “Réquiem SP”, do diretor artístico e coreógrafo Alejandro Ahmed, e foi uma experiência hipnótica, que me estimulou de várias maneiras diferentes e me fez pensar em formatos improváveis na frente musical.

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Serviço PRISMA
Jardim Suspenso do CCSP
12 de setembro a partir das 15h
Entrada gratuita

15h – deepbeep seletores
15h30 – Uno Vulpo
16h30 – deepbeep seletores
17h00 – Andreas Kisser e Maria Grecco
17h30 – Ana CMP
19h00 – Mubi Fest

Centro Cultural São Paulo
R. Vergueiro 1000 (Metrô Vergueiro)

Música, performance e cinema com curadoria de Marcos Guzman e produção executiva de Tatiana Farias.

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Acompanhe o trabalho de Andreas Kisser
Andreas Kisser no Instagram
Site Sepultura com Andreas Kisser

Sepultura com Andreas Kisser no Instagram
Löu Collective com Andreas Kisser e Maria Grecco

Fotos por Maneki Neto e Rodrigo Simas

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