Paulo Ricardo sabe quando uma música deixa de ser sua

Paulo Ricardo em retrato para entrevista do deepbeep sobre Rádio Pirata.

Paulo Ricardo fala sobre a permanência de Rádio Pirata, quatro décadas depois do disco transformar o RPM em fenômeno de massa.

Uma música pode mudar de dono sem mudar uma nota. Rádio Pirata nasceu no RPM, atravessou o rock brasileiro dos anos 80 e encontrou outra vida na arquibancada. Há cerca de 15 anos, a torcida do Fluminense transformou o refrão em grito de guerra. Paulo Ricardo assiste a milhares de pessoas cantando uma música que um dia saiu da sua cabeça e chama isso de uma das maiores honras que um compositor pode receber.

A história da canção já carregava essa ideia de circulação. Paulo estudava jornalismo na USP quando acompanhou a explosão das rádios piratas em São Paulo. A imagem da transmissão clandestina virou metáfora de resistência e acabou dando nome à música. O disco ao vivo nasceu de outra situação improvável. Rádio Pirata começou a tocar nas rádios antes de existir uma gravação comercial disponível. O público gravava a música diretamente do rádio. O RPM precisou transformar aquele fenômeno em disco.

Agora, ele volta a apresentar o espetáculo que nasceu daquela explosão. O show recupera a estrutura da montagem original, incluindo os lasers que marcaram a apresentação dirigida por Ney Matogrosso em 1985. Quarenta anos depois, Paulo Ricardo leva Rádio Pirata ao Vivo ao C6 no Rock, neste sábado, 22 de agosto, no Parque Ibirapuera.

Para acompanhar a conversa, o deepbeep montou “Quando Todo Mundo Canta”, uma playlist que parte de Rádio Pirata e passa por Queen, White Stripes, Journey, Legião Urbana, Titãs, Caetano Veloso e The Doors. São músicas que encontraram uma maneira de escapar do próprio tempo e ganhar outra vida na voz de quem escuta. Na entrevista, Paulo fala sobre público, sucesso, jornalismo, revolução e permanência. E chega a uma distinção que parece simples, mas explica muita coisa sobre uma carreira de quatro décadas. Fazer sucesso é mais fácil. Difícil é manter o sucesso.

Lísias Paiva, criador e editor

Paulo, você vai cantar Rádio Pirata no C6 no Rock. Quando o refrão chega e o público canta mais alto que você, o que passa na sua cabeça?
É uma catarse. Na verdade, a metáfora aqui é perfeitamente adequada, porque acho que poucas coisas se comparam à energia, à vibração de uma partida de futebol, sobretudo num país fanático como o Brasil, onde o esporte é, de boa, praticamente uma religião. Essa catarse da galera, da torcida, essa explosão de energia em torno de um time, da música, de uma ideia, isso é arrepiante.
Eu fui jornalista durante quatro anos, desde que entrei na USP, e fiquei até o meu último ano, quando fui para Londres como correspondente da Som 3. E, como jornalista, biografando artistas e tal, é muito claro esse tipo de som de artista que a gente chamava de rock de arena.
Certas canções têm essa característica subliminar, subjetiva. É difícil descrever por que e como elas assumem essa característica e deflagram esse tipo de reação. We Are The Champions, do Queen, é o protótipo, o exemplo maior do rock de arena, o rock de multidões. Tem também Seven Nation Army, do White Stripes. Wonderwall, do Oasis, virou hino da seleção da Inglaterra. Don’t Stop Believin’, por exemplo, também tem essa coisa.
A gente nunca sabe exatamente o que faz uma música provocar esse tipo de reação. Os grandes sucessos têm algo em comum. Todo mundo conhece, todo mundo canta e eles provocam imediatamente uma conexão muito forte.
Eu não sou o tipo de artista que pede para as pessoas cantarem ou que deixa muito para as pessoas cantarem. Acho que elas foram lá para me ouvir e eu canto a canção com o maior tesão possível, sempre. Mas a gente sabe que, naqueles momentos, as pessoas vão cantar. Essa catarse, essa força, essa participação do público são muito bacanas. São arrepiantes.
Você já espera isso nos grandes sucessos, mas não é fundamental nem é, para mim, sinal de que as pessoas estão ou não necessariamente gostando. Tem plateias que estão adorando, mas estão mais calmas. Tem contextos diferentes. No teatro, as pessoas estão sentadas. Não é porque não estão pulando e gritando que não estão gostando.
O que aconteceu, particularmente, com Rádio Pirata é que, há mais de dez anos, talvez uns quinze, a torcida do Fluminense, que é meu time, espontaneamente fez uma adaptação da letra e transformou a música num grito de guerra.
Desde então, é muito forte e muito emocionante assistir, em todo jogo do Fluminense, ao refrão cantado pela torcida. Isso, para mim, é a maior honra que um compositor pode ter. Ter uma canção sua, como a gente costuma dizer, passa a ser de todo mundo. Ela deixa de ser sua. É de cada um. Cada um tem a sua história com ela.
Ela deixou de ser uma canção do pop rock nacional e passou a ser um grito de guerra do meu time. Em termos de reconhecimento público, de ressonância, é possivelmente o contexto mais sensacional e vibrante em que uma canção pode estar.

Você escreveu músicas que hoje pertencem à memória de muita gente. Em que momento uma canção deixa de ser sua e passa a viver outras histórias?
O sucesso passa a ser de todo mundo. A Rádio Pirata tem, além da coisa melódica e dos mistérios da canção, esse apelo geracional de convocar a galera a alguma coisa. Vamos fazer essa revolução.
Ela também traz esse aspecto, esse gancho intelectual, além do musical, de convocar as pessoas a uma mudança, sobretudo a nossa geração, dentro daquele contexto em que surgiam várias bandas incríveis. O rock estava chegando ao Brasil com muita força, o Rock in Rio e tudo mais.
É sempre bom ouvir o público reconhecendo uma música, sobretudo uma música nova, hoje, num momento de tanta fragmentação. Você não tem mais aquela certeza. Eu toco no rádio; é tudo muito nichado, muito digital, difícil de aferir.
Quando a música extrapola o seu nicho, os seus seguidores e se transforma em sucesso, é muito bacana ouvir. Muitas vezes você está no seu show e é natural que o seu público cante as canções. Mas, em um festival, por exemplo, com outros três ou quatro artistas, quando alguém canta uma canção sua sem ser exclusivamente seu público, é uma prova de que aquela canção extrapolou o nicho e está atingindo todo mundo.
A gente faz a canção, claro, para ela chegar ao maior número de pessoas possível. No caso específico de Rádio Pirata, ela é realmente um fenômeno. E isso me provoca, além da lisonja e do reconhecimento, esse arrepio da sensação de um grito de guerra, tanto no sentido da torcida do Fluminense quanto no sentido da nossa geração, naquele momento, de ocupar um espaço que a gente ocupou.
Acho que estar aqui hoje, falando contigo, no sábado, nesse festival tão emblemático, é sinal de permanência, de relevância, de que a canção realmente cumpriu o seu papel. Essa revolução, de certa forma, foi feita. Continua sendo feita, mantida. Não basta fazer a revolução. Você tem que manter. É mais difícil. A gente costuma dizer que fazer sucesso é muito mais fácil do que manter o sucesso.

De onde veio a ideia de Rádio Pirata?
Rádio Pirata é a canção que, claro, pelo próprio conceito, veio muito da minha formação jornalística. Havia uma explosão de rádios piratas em São Paulo na época e amigos meus estavam fazendo uma matéria sobre isso. Eu mesmo, com amigos de rádio, televisão e jornalismo, estava cogitando comprar o equipamento para uma rádio pirata.
Em algum momento, aquilo me deu um estalo. Pensei que era uma belíssima metáfora da pirataria enquanto resistência contra o império, contra reis e rainhas. Eu não teria chegado a essa ideia sem estar cursando jornalismo naquele momento.
A gente vinha de uma sequência mais pop, com Louras Geladas, nosso primeiro sucesso, uma coisa bem new wave. Depois veio Olhar 43, muito bom, dançante, um retrato de uma época mais leve. Rádio Pirata tem essa coisa da letra, da mensagem, algo que começa a engrossar esse caldo de 1985 para a frente. A primeira metade dos anos 80 ainda tinha um pop rock mais inocente. Em 1985, chega o primeiro álbum da Legião Urbana, os Titãs dão aquela guinada com Cabeça Dinossauro. E Rádio Pirata vem como uma espécie de metáfora da revolução.

Como um disco que parecia impossível acabou se tornando Rádio Pirata ao Vivo?
O conceito era o de uma rádio imaginária que todos nós tivéssemos sintonizado, na qual pudéssemos colocar qualquer coisa no programa. O Ney Matogrosso, que dirigiu o show, trabalhou brilhantemente esse conceito. Dentro dessa rádio, nós podíamos colocar qualquer coisa. Improvisávamos. Tanto que há um trecho de Light My Fire, do The Doors, que foi para o Rádio Pirata ao Vivo.
Na época, o vinil tinha uma limitação física de cerca de 40 e poucos minutos de música. Você não podia fazer um show apenas com esse tempo. O show precisava ter uma hora, uma hora e dez, uma hora e vinte. Então, necessariamente, tínhamos que fazer mais músicas, colocar regravações e tal.
Foi através dessa necessidade que o Ney pediu uma canção mais tranquila. Eu sugeri London, London por estar voltando de Londres. Aquilo estava muito na minha cabeça. O Luis Schiavon, que era um tecladista de formação clássica, fez um arranjo simples, mas sofisticado. Só alguém realmente com formação clássica faria aquele desenho daquela forma. Aquilo preencheu perfeitamente a função que o Ney imaginava para aquela canção.
O show estreou em São Paulo, em setembro, na noite do meu aniversário, quando eu tinha 22 para 23 anos, no Teatro Brigadeiro. Na semana seguinte, fomos para Porto Alegre, para o festival Atlântida Rock Sul. A Rádio Transamérica transmitiu o show ao vivo e passou a incluir aquela canção na programação. Foi uma apresentação no Gigantinho, uma apoteose, milhares de pessoas gritando. Foi a primeira vez que surgiu um raio laser e as pessoas nunca tinham visto aquilo.
Aquilo desencadeou um fenômeno de pirataria em massa. A metalinguagem de uma Rádio Pirata estourar uma canção pirateada nas rádios de todo o Brasil.
A música estava em primeiro lugar no Brasil inteiro sem que houvesse possibilidade de comprá-la. Não havia compacto, não havia LP, não havia cassete. As pessoas só podiam ouvir a música gravando do rádio na hora em que ela tocasse. Foi necessário fazer um álbum ao vivo. No primeiro momento, pareceu absurdo e redundante. Como uma banda que só tinha um álbum de estúdio faria um disco ao vivo? Só que a gente já não era mais aquela banda que gravou o álbum de estúdio. Já éramos um fenômeno de massa, uma banda muito azeitada, com sete shows por semana. Éramos uma máquina na estrada de rock and roll, de energia, e havíamos criado aquela loucura dos fãs que reverberava no disco.
Acho que o disco todo tem um protagonista. Talvez seja realmente o público. Eles estão gritando muito. É um disco ao vivo, com muita energia. As versões são bem diferentes e se justificam. São uma polaroide daquela época, daquele momento.

O que o público de 1986 ainda faz com uma música hoje?
Rádio Pirata é uma coisa única pela força da música, pela mensagem do momento, mas, ao mesmo tempo, tem essa energia de um hino, de uma geração, de uma mensagem que permanece relevante e emocionante. Em segundos, tudo isso passa rapidamente pela minha cabeça quando a gente faz Rádio Pirata, quando chega a hora do refrão. Tudo está contido ali. Não é uma reflexão que eu faço a cada apresentação, mas aquela força toda está ali e se manifesta, sem dúvida nenhuma, nos momentos mais fortes do show.

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[Serviço]

C6 no RockPaulo Ricardo canta Rádio Pirata ao Vivo e grandes sucessos

Sábado, dia 22 de agosto de 2026, às 15h45, na área externa do Auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

A programação completa reúne Ira!, Marina Lima, Plebe Rude, Os Paralamas do Sucesso, Blitz, Titãs, Legião Urbana (com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá), Paulo Ricardo, uma homenagem a Rita Lee e um tributo a Cazuza.

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Fotos por Bella Pinheiro

Agradecimentos a Camila Ribeiro e Davi Maia pela conexão

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Quando Todo Mundo Canta. Uma seleção do deepbeep a partir da conversa com Paulo Ricardo sobre músicas que escaparam dos seus autores e ganharam outra vida no público.

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