
Natallia Rodrigues fala sobre as obras que continuam encontrando novas pessoas muito depois da última cena, da última página ou do último acorde.
Uma peça termina quando as luzes acendem. A experiência não obedece ao mesmo relógio. Uma cena pode voltar durante uma conversa. Uma música pode levar a um livro. Uma exposição pode mudar a maneira de entrar no próximo museu. A obra sai do palco, da tela ou da sala e começa a aparecer em outros lugares.
Natallia Rodrigues vive entre teatro, cinema e televisão, mas sua relação com a arte não termina no trabalho. No SP Afeto, projeto que nasceu da vontade de transformar uma paixão por arte em conteúdo, ela compartilha semanalmente inspirações, descobertas e encontros que atravessam seu olhar. Museus, exposições, viagens e diferentes manifestações culturais fazem parte dessa pesquisa pessoal. No teatro, essa relação ganha outra dimensão. O texto pode permanecer o mesmo. O público muda. O espaço muda. O corpo do ator responde ao que acontece naquela noite. Para Natallia, o palco capta mudanças que ainda não chegaram ao discurso público.
Na entrevista ao deepbeep, ela fala sobre o mistério que desperta curiosidade, sobre músicas que continuam fazendo perguntas depois do último acorde, sobre o desejo de compartilhar uma obra que tocou alguma coisa pessoal e sobre os pequenos deslocamentos que mudam a maneira como voltamos para nós mesmos.
A playlist “Vale a Visita” reúne músicas que abriram essas portas. Faixas que levaram Natallia até filmes, livros, artistas, exposições, cidades e conversas que começaram depois da escuta.
Marcelo Nassif, sócio editor
Natallia, como uma pessoa desperta a curiosidade da outra?
A curiosidade nasce quando alguém não tenta se impor, mas se revela. Acho que as pessoas mais interessantes são aquelas que continuam fazendo perguntas, que escutam mais do que afirmam. O mistério, quando é verdadeiro, é infinitamente mais sedutor do que qualquer tentativa de impressionar.
Por que algumas músicas continuam fazendo perguntas, mesmo depois que acabam?
Porque a música não termina no último acorde. Ela continua ressoando na memória, encontrando lugares nossos que talvez nem soubéssemos que existiam. As grandes obras não entregam respostas. Elas ampliam o nosso repertório de perguntas. Talvez seja exatamente isso que as faça permanecer vivas.
Quando uma obra deixa de ser interessante e passa a ser impossível não compartilhar?
Quando toca algo que é profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal. Quando você percebe que aquela obra colocou em palavras, imagens ou silêncio algo que você nunca conseguiu nomear. Compartilhar, nesse caso, deixa de ser um gesto de recomendação e passa a ser um desejo de encontro.
Entre cinema, teatro, música, literatura e arte, qual linguagem costuma perceber primeiro que o mundo mudou?
Tenho a impressão de que a arte, de maneira geral, percebe antes. Mas o teatro ocupa um lugar muito singular porque acontece no mesmo tempo em que a sociedade respira. O palco é um organismo vivo. O ator sente no corpo mudanças que muitas vezes ainda nem chegaram ao discurso público. O teatro tem essa capacidade rara de captar o presente enquanto ele ainda está acontecendo.
Quando foi a última vez que você saiu de um lugar sentindo que não era exatamente a mesma pessoa?
Tenho vivido isso com alguma frequência, viajando para conhecer exposições, museus e diferentes manifestações culturais. A transformação costuma ser silenciosa. Às vezes, basta uma obra, uma conversa ou um espetáculo para deslocar um pensamento que estava cristalizado. Acho que amadurecer é justamente colecionar esses pequenos deslocamentos. Eles mudam a forma como olhamos o mundo e, inevitavelmente, a forma como voltamos a nós mesmos.
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SP Afeto por Natallia Rodrigues
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Toda boa recomendação carrega uma expectativa. Não a de que alguém goste da mesma música. A de que aquela escuta continue em outro lugar. Esta playlist reúne canções que levaram Natallia até livros, filmes, artistas, exposições, cidades e conversas que começaram muito depois da última faixa.
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