
Gabz fala sobre identidade, hip hop e a curiosidade de descobrir música sem transformar gêneros em limites.
Durante muito tempo perguntaram à Gabz se ser rapper limitaria o restante da sua carreira. Ela nunca tratou essa pergunta como um dilema. O hip hop continua sendo o lugar onde reconhece a própria identidade. Continua se apresentando como rapper. Continua falando da cultura hip hop como uma parte permanente da sua formação. Vieram o slam, o teatro, o audiovisual e, agora, a novela Coração Acelerado, em que interpreta uma cantora sertaneja. Cada experiência ampliou o repertório sem pedir que a anterior ficasse para trás. O mesmo acontece quando ela escuta música.
Uma guitarra desperta a curiosidade pelo sample. Uma melodia vocal abre uma possibilidade. Uma música indiana encontra espaço na mesma playlist que um funk, um samba de coco, um pop ou uma canção tradicional. A primeira pergunta nunca é sobre gênero. É sobre intenção. O que aquela música quer provocar. O que ela desperta. O que ela tem de verdadeiro.
Esse jeito de ouvir também aparece quando Gabz fala sobre atuação, sobre desejo e sobre a ideia de “bom gosto”. Uma letra explícita pode ser mais inventiva do que uma metáfora previsível. Uma batalha de rima pode ensinar jogo cênico. Uma conexão improvável pode revelar um caminho que nenhuma categoria conseguiria antecipar.
Na conversa com o deepbeep, Gabz fala sobre identidade, curiosidade e repertório. Explica por que continua se definindo como rapper, como aprendeu a organizar a música por sensação e por que experimentar sempre ensinou mais do que proteger fronteiras.
A playlist “Não Era Pra Combinar” reúne músicas escolhidas a partir desse mesmo princípio. Faixas que aproximam referências diferentes e lembram que algumas das descobertas mais interessantes começam quando a intenção fala mais alto que o gênero.
Marcelo Nassif, sócio editor
Gabz, em que momento um rótulo começa a atrapalhar mais do que ajuda?
Eu acho que o rótulo começa a atrapalhar quando passa a limitar as nossas possibilidades. Eu sou confortável com os meus rótulos. Lembro que sempre perguntavam se me incomodava, quando eu fazia rap, ser chamada de rapper, como se isso me limitasse a fazer outras coisas. Mas eu sempre fui.
Inclusive, mesmo focando mais na carreira de atriz, eu ainda me rotulo como rapper, como alguém da cultura hip hop, porque isso, para mim, é identitário. Muito mais do que um lugar que limite onde eu vou chegar, é algo que eu carrego comigo em todos os lugares. Então, acho que quando as pessoas imaginam que a gente é monotemático, elas se enganam. A gente não é. A gente tem várias camadas, várias entrelinhas. Os nossos rótulos, muitas vezes, só servem para nomear algo muito forte da nossa identidade. Algo que a gente quer carregar com a gente, que acha bonito, que acha importante. De resto, somos só pessoas tentando se expressar no meio disso tudo.
Você já transitou entre rap, slam e sertanejo. O que muda quando a gente para de organizar a música por gênero e começa a organizar por emoção?
Cara, eu acho essa pergunta muito boa. O hip hop já me ensinou um pouco a fazer isso. Ele me ensinou a organizar música por sensação. Eu escuto quase todas as músicas pensando nelas como um sample, um possível sample interessante. Seja a guitarra, alguma melodia vocal ou uma virada. Quando isso me provoca alguma coisa, a música já fica interessante para mim.
Eu sou uma pessoa extremamente eclética. É muito doido porque tenho um grupo de amigos para me acompanhar aos shows de determinados artistas e outro grupo para me acompanhar aos shows de outros artistas de que eu gosto. E eu gosto de todos os artistas de quem eles gostam também. Porque eu realmente me sinto muito instigada. É difícil existir um gênero musical de que eu não goste de nada, que não me pegue em algum nível.
Gosto muito de ouvir coisas novas e tentar compreender novos universos. E elas realmente me tocam. Não é uma tentativa do tipo “estou pesquisando e forçando a barra para ver o que tem de interessante nisso”. Não. Realmente me toca. Ultimamente, inclusive, tenho escutado muita música indiana. Tem uma música em que estou muito viciada. Vou até pegar aqui na minha playlist. Não vou falar o nome porque ela está na playlist. Vocês vão ter que ouvir.
Isso acontece com muita frequência comigo porque eu recorro à música para qualquer coisa. Para organizar a minha mente e o meu corpo. Para me estimular, para acordar, para me acolher quando estou sentindo alguma coisa, para comemorar, para entrar numa deprê enorme, para me divertir ou para rir. Escuto muita música que tem uma sacada engraçada.
A música me pega, e eu evoco a música por diferentes motivos. Acho que isso me dá uma facilidade de separar a música por sentimento, e não por gênero musical. Mesmo quando separo por sentimento, presto muita atenção no gênero, porque me interessam muito a história e a identidade que as músicas carregam.
O que realmente importa para mim é sentir que existe uma intenção forte por trás de toda música. Seja uma música mais tradicional, daquelas que pegam a gente justamente por serem populares, um samba de coco, por exemplo, ou uma música pop, pop. Eu preciso sentir a intenção. Quando sinto que aquilo é verdadeiro, já começo a me interessar.
Qual fronteira as pessoas defendem com mais convicção e menos necessidade?
Eu acho que existem duas. A primeira é a fronteira do chamado “bom gosto”. As pessoas defendem isso com uma convicção enorme, como se realmente fosse algo muito palpável. Geralmente, essa ideia nasce de aspectos muito elitistas ou muito limitados. A coisa mais gostosa do mundo é entender que a gente é limitado e precisa se desafiar para ir um pouco além. Assim a gente aprende mais, fica mais sensível e desperta coisas dentro da gente. Existe esse limite que as pessoas defendem com muita convicção e nenhuma necessidade.
Mas tem outro ponto sobre o qual eu tenho falado muito recentemente: a ideia da “letra boa”. Geralmente, as pessoas usam isso para dizer que letras que falam de sexo não são boas. Acho que elas estão extremamente equivocadas. Muitas vezes vale mais uma putaria bem feita, bem escrita, com uma sinceridade interessante — e isso pode ser genial — do que uma música falando de forma rasa sobre amor ou qualquer outro sentimento. O sexo, inclusive com palavras consideradas de baixo calão, faz parte da experiência humana. A arte precisa expressar isso. O desejo também é uma temática importante da existência. Falar sobre sexo de formas diferentes, inclusive de maneira explícita, pode resultar em uma grande obra artística. As pessoas defendem com muita convicção a ideia de que a forma “boa” de falar sobre sexo é a forma metafórica. Nem sempre. Às vezes, a gente quer uma boa batida, uma rima interessante, uma rima inovadora ou simplesmente uma rima que faça rir falando de sexo de forma escancarada. Às vezes, a gente quer se divertir. Às vezes, quer se sentir depravado. Isso é totalmente válido. Totalmente humano. E, muitas vezes, a arte produzida a partir desse lugar é maravilhosa. Genial. No fim do dia, se tocar um funk muito bom, com uma batida incrível e falando de sexo da forma mais chula possível, você vai querer rebolar até o chão. Isso vai mexer com você.
O que você aprendeu em um lugar que acabou funcionando em outro completamente diferente?
Aprendi jogo cênico dentro da batalha de rima. Aprendi ali o conceito de disputa. Depois fui aplicar isso na atuação. As coisas foram aparecendo de diversas formas, mas aprendi esse jogo cênico da disputa na rua, na batalha de rima. Mais tarde comecei a perceber isso em vários trabalhos de teatro e audiovisual que já tinha feito alguns anos antes. Eu simplesmente não tinha associado uma coisa à outra. Funcionou perfeitamente. Inclusive, quando associo ao que aprendi nas batalhas, geralmente consigo um resultado melhor.
Qual foi a conexão mais improvável que fez sentido na sua vida?
Vou dizer que foi o meu namorado. Porque a gente é muito diferente. Vem de realidades muito diferentes. E deu muito certo. Ele é totalmente do orgânico. Eu, apesar de também ser, sempre vou sentir falta de um 808, de um grave eletrônico dentro das músicas. Brinco que ele é MPB e eu sou eletrônica. É a mistura mais improvável. Foi a conexão mais improvável que aconteceu, num momento também muito improvável, e deu perfeitamente certo. Confirma tudo o que a gente conversou durante a entrevista. Não existem limites para os gêneros musicais. O melhor que a gente pode fazer é experimentar.
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Uma guitarra pode virar sample. Uma batalha de rima pode ensinar atuação. Uma música indiana pode dividir espaço com um funk. Esta playlist da Gabz reúne canções que recusam fronteiras e lembram que a intenção sempre chega antes do gênero. Depois da última faixa, a conversa continua na entrevista do deepbeep.
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