Zezé Motta escolheu não se abandonar

Zezé Motta durante entrevista ao deepbeep sobre carreira, interpretação, liberdade e a playlist Presença.

Atriz, cantora e uma das maiores artistas da cultura brasileira, Zezé Motta fala sobre interpretação, liberdade e as escolhas que fizeram sua obra atravessar diferentes gerações sem abrir mão de quem ela sempre foi.

É difícil pensar a cultura brasileira das últimas cinco décadas sem encontrar Zezé Motta em algum momento decisivo. Atriz, cantora, protagonista de mais de cem personagens no cinema e na televisão, fundadora do Movimento Negro Unificado e dona de uma trajetória que também transformou a música brasileira, Zezé construiu uma obra que nunca coube em uma única linguagem. Agora, com Xica da Silva de volta aos cinemas em versão restaurada em 4K, esse percurso volta a ser revisitado por uma nova geração.

Essa permanência costuma ser atribuída aos personagens, às interpretações ou às canções. A conversa com o deepbeep aponta para outro lugar. Ao revisitar momentos decisivos da própria trajetória, Zezé revela como escolhas feitas longe dos palcos ajudaram a construir a artista que o público conhece. A personagem que recusou interpretar por não reconhecer humanidade nela. O relacionamento que não justificava abandonar o teatro. A atriz que continua entrando em cena sempre que canta.

A playlist “Presença” prolonga essa conversa por meio de interpretações escolhidas por Zezé Motta. Uma seleção que lembra que algumas vozes não apenas cantam grandes canções. Elas continuam ampliando o que essas canções podem dizer.

Lísias Paiva, criador e editor

Zezé, existe alguma expectativa que as pessoas continuam projetando sobre você e que nunca combinou com quem você é?
As pessoas costumam esperar da Zezé Motta uma mulher aguerrida, destemida, sempre pronta para o confronto. Eu entendo de onde isso vem. Nos anos 1980 e 1990 fui muito combativa, denunciei a forma como atores negros eram tratados na televisão e lutei por mais espaço e representação.
Mas também sou canceriana, filha de Oxum, uma mulher que gosta de paz, de leveza e de silêncio. Nunca gostei de muito barulho.

Tem músicas que atravessam décadas sem perder força. O que faz uma canção continuar viva dentro de alguém?
Quando existe melodia, poesia e uma letra de verdade, uma música nunca desaparece.

Qual foi a melhor desobediência da sua vida?
Foi dizer “não” quando muita gente esperava ouvir “sim”.
Depois de Xica da Silva, recebi um convite da Globo para um projeto dirigido por Ziembinski, baseado em Clarice Lispector. Achei que encontraria uma personagem à altura daquele momento da minha carreira. Quando li o roteiro, percebi que ela entrava em cena apenas para servir café, abrir a porta e sair. Não tinha voz, não tinha história, não existia dramaticamente.
Muita gente me aconselhou a aceitar. Diziam que recusar um papel na Globo poderia prejudicar minha carreira. Mas eu respondi que não tinha estudado Arte Dramática com Maria Clara Machado para interpretar uma personagem sem direito de existir em cena.
Nunca foi por ela ser empregada doméstica. O problema era que, naquela época, personagens negros quase sempre apareciam mudos, sem passado, sem opinião e sem humanidade.
Aquele “não” ajudou a abrir uma discussão importante sobre os papéis oferecidos aos atores negros na televisão brasileira. Às vezes, desobedecer é justamente o caminho para que outras pessoas não precisem enfrentar as mesmas limitações.

O mundo fala muito sobre autenticidade. O que as pessoas ainda fazem só para serem aceitas?
Elas tentam caber em padrões que não são delas. Vestem coisas, gravam músicas, cantam, se apresentam de maneiras que nem elas mesmas aprovam. Fazem isso para agradar alguém, por dinheiro ou simplesmente para copiar um comportamento que está em alta.

Existe alguma ideia sobre amor, desejo ou liberdade que você precisou abandonar para continuar crescendo?
Precisei abandonar muito cedo a ideia de que amar significava diminuir a mim mesma. Eu tinha 21 anos, estava noiva e prestes a estrear Roda Viva. Meu noivo me disse que eu precisava escolher entre ele e o teatro. Escolhi o teatro.
Naquele momento entendi que um amor que pede para você abandonar aquilo que te faz viva nunca será um amor inteiro.
Durante muito tempo ensinaram às mulheres que amar era ceder, acompanhar e colocar os próprios sonhos em segundo plano. Eu precisei abandonar essa ideia.
Quem ama você não pede que a sua luz diminua para caber na vida dele.

Você já cantou músicas escritas por outras pessoas e também transformou muitas delas em algo seu. Em que momento uma canção muda de dono?
Luiz Melodia brincava que precisava dividir os direitos autorais comigo porque eu sempre mudava uma palavra, inventava outra durante os shows. Tenho dessas coisas.
Outro dia um jornalista comentou que eu era a cantora que mais gravou a obra dele. Fiquei muito feliz.
Sempre imagino uma história para cada música que levo ao palco. A atriz entra junto com a cantora. Fecho os olhos e começo a viver aquela personagem.
É aí que a canção muda.

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Fotos por Rogerio Ehrlich, Steph Munnier, Thiago Bruno

Agradecimentos ao Vinicius Belo da VB Experiência pela conexão

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