
Antes da atuação ganhar o país, Sergio Guizé pintava telas a óleo. O ateliê continua sendo o lugar onde ele organiza o mundo.
Antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos da televisão brasileira, Sergio Guizé imaginava outro caminho. Pintava telas a óleo, vendia quadros e entrou na universidade para estudar artes plásticas. O teatro apareceu depois. A música também.
Talvez isso ajude a explicar uma característica que atravessa toda esta conversa. Guizé parece enxergar criação como ofício manual. Algo que exige tempo, observação, tentativa, erro e convivência. Não importa se o resultado final vira personagem, canção ou pintura.
Existe uma desconfiança constante em relação ao automático. Ao que chega pronto. Ao que nasce apenas para exposição. Quando fala sobre atuação, ele volta para a ideia de mistério. Quando fala sobre música, fala de urgência. Quando fala sobre arte, retorna ao processo, ao coletivo e à experiência compartilhada.
A playlist “Depois do Barulho” ajuda a entender esse lugar. Entre Johnny Cash, Belchior, Nina Simone, Itamar Assumpção, Tim Maia e Milton Nascimento, a seleção não funciona como fuga da intensidade. Funciona como extensão dela. São músicas que permanecem quando o palco esvazia, a gravação termina e sobra apenas o tempo necessário para ouvir com mais atenção.
Na conversa com o deepbeep, Guizé fala sobre atuação, música, pintura, presença e sobre o valor de preservar espaços onde a criação continua sendo maior que a exposição.
Lísias Paiva, criador e editor
Sergio, você transita entre atuação, música e composição sem parecer tratar uma linguagem como pausa da outra. O que muda em você quando sai da cena e vai para a música?
Sempre me pergunto, honestamente, por que estou fazendo tudo isso ao mesmo tempo. Mas a verdade é que uma linguagem não pausa a outra, porque ambas nascem do mesmo impulso de comunicar. Transborda.
A diferença é que a música é imediata e independente. É o “faça você mesmo”. Vivo escrevendo, principalmente nos longos períodos de gravação do audiovisual, e às vezes esses versos viram músicas.
Não sinto como uma mudança de canal, mas de perspectiva. Na atuação, me coloco a serviço da história de outra pessoa, emprestando meu corpo e minhas emoções para uma personagem. Já na música, o processo é mais direto, o filtro é menor. Não há o escudo de um roteiro ou de um papel. Sou eu ali, dividindo minhas composições, o que penso, minhas referências, as parcerias e as minhas histórias.
Existe uma intensidade muito física na forma como você canta e interpreta, mesmo em registros completamente diferentes. O que a música permite acessar que a atuação às vezes não alcança?
No palco, com a guitarra, o lance é o aqui e agora. Não dá para voltar atrás. A música tem o poder da urgência. É como se fosse a última vez: a última música, a última oportunidade. Tem muita coisa envolvida ali, muitas emoções e muita adrenalina. Enquanto isso, a atuação muitas vezes pede um trabalho mais detalhado de construção, camadas e tempo.
Grande parte dos seus personagens parece viver algum tipo de excesso emocional, mas você quase nunca interpreta isso de forma explosiva. O que você aprendeu sobre força na contenção?
Aprendi que todo ser carrega um mistério. Acho que todo homem pensa, até mesmo por milésimos de segundo, antes de falar. O mistério é instigante e o silêncio é devastador. Quando você contém, o público é convidado a decifrar aquilo junto com o personagem, o que cria uma conexão muito mais profunda. A contenção acumula energia. É nas pequenas vibrações que a humanidade se revela de verdade. O silêncio e o mistério costumam ser muito mais potentes do que o grito e as explosões, principalmente na comédia.
Hoje muita gente parece viver já pensando em imagem, reação e performance pública. O que você percebe que ficou mais raro nas pessoas fora das telas?
Acredito que o que ficou mais raro foi a capacidade de apenas estar presente. Hoje a gente sente uma pressa enorme de registrar tudo, postar e esperar uma aprovação imediata. Isso gera uma ansiedade sem fim. Para mim, o segredo está em tentar desacelerar um pouco, viver o momento real, mexer o corpo e deixar a arte salvar a gente dessa correria.
Você vem do teatro de grupo e mantém uma relação muito artesanal com a criação, mesmo atravessando produções enormes. O que você faz questão de proteger para não virar automático?
Mantenho vivo o prazer de experimentar e a consciência de que a arte é um fazer manual, que exige tempo, estudo, erro e dedicação. Faço questão de proteger o espírito de coletivo e o respeito pelo processo. O que importa, no final das contas, é a troca entre as pessoas ali presentes, o olho no olho, a escuta, as referências. Essa combinação vira escola, e o que aprendemos fica como bagagem eterna de conhecimento.
Se você entra como se estivesse tudo pronto, com o jogo ganho, acreditando que basta estar presente e valorizar apenas a estética para alimentar o próprio ego, tentando fazer arte no modo automático, o trabalho perde a alma e vira apenas repetição burocrática e comercial.
Depois de tantos personagens, músicas e versões públicas de você circulando por aí, o que ainda continua existindo completamente fora da exposição?
Muita gente não sabe, então aproveito para vender o meu peixe (risos), mas eu sou artista plástico. Pelo menos me considero um. Pinto telas a óleo desde criança e já vendi muitos quadros.
Foi justamente quando entrei na faculdade para cursar Licenciatura em Educação Artística, com bacharelado em Artes Plásticas, que acabei descobrindo o teatro.
Embora eu tenha feito poucas exposições e esse meu lado seja menos conhecido do grande público, o ateliê continua sendo o meu espaço de recolhimento e criação. Essa produção silenciosa, junto com a minha rotina, o sossego da casa no interior e o tempo com quem eu amo, é o que me alimenta. O direito de me perder nas cores, nas letras, nas notas e nos traços, sem pressa. É o direito de simplesmente viver o meu próprio tempo, do jeito que eu escolhi.
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