Renato Lopes aprendeu a ler pessoas antes dos algoritmos

Retrato do DJ Renato Lopes para entrevista do deepbeep sobre cultura clubber, leitura de pista e discotecagem.

DJ, pesquisador musical e um dos nomes que ajudaram a formar a cultura clubber brasileira, Renato Lopes fala sobre escuta, surpresa e a arte de ler uma pista.

Muito antes de plataformas preverem gostos, existia quem aprendesse a observar uma pista de dança. Renato Lopes faz parte da geração que ajudou a transformar o DJ em protagonista da noite brasileira. No fim dos anos 1980, ao lado de Mauro Borges, foi um dos responsáveis pela identidade musical do Nation, clube que marcou a formação da cultura clubber em São Paulo ao colocar a música, a pesquisa e a curadoria no centro da experiência. Enquanto parte da cidade descobria uma nova maneira de ocupar a noite, Renato já entendia que tocar discos significava muito mais do que escolher faixas. Significava interpretar pessoas.

Essa forma de trabalhar continua aparecendo nas suas respostas ao deepbeep. Em vez de falar sobre nostalgia, Renato descreve a cabine como um lugar de observação. A sintonia da pista, a curiosidade diante do desconhecido e o silêncio depois da última música dizem tanto quanto qualquer explosão coletiva.

Na conversa com o deepbeep, Renato fala sobre sintonia, surpresa e o trabalho de observar uma pista antes de tentar conduzi-la. A playlist “A Primeira Pessoa Dançou” acompanha esse percurso. Reunida por Renato Lopes, a compilação aproxima músicas lançadas entre 1973 e 2024 que continuam formando seu olhar como DJ. Uma seleção em que clássicos convivem com descobertas recentes para mostrar que ler uma pista nunca foi um exercício de nostalgia. É um exercício permanente de escuta.

Lísias Paiva, criador e editor

Renato, o que as pessoas nunca conseguem fingir numa pista de dança?
A sintonia — ou a falta dela — com a música, com o espaço e com as pessoas ao redor. É uma coisa de ame ou deixe.

Qual comportamento apareceu primeiro na pista e só anos depois apareceu no resto do mundo?
As pessoas iam até a cabine perguntar o nome da música e anotavam num guardanapo. Hoje fazem a mesma coisa com o Shazam.

Depois de milhares de noites, o que ainda faz você levantar a cabeça da cabine?
Perceber que existem pessoas receptivas. Gente aberta ao novo, ao diferente e ao que ainda pode surpreendê-las.

Qual silêncio vale mais do que qualquer explosão na pista?
O silêncio depois de uma boa noite. Lembrar como tudo aconteceu e revisitar mentalmente as músicas que tocaram.

Quando você percebeu que não estava apenas tocando música, mas lendo pessoas?
Quando entendi que ler uma pista é encontrar as pessoas no meio do caminho e, a partir dali, conduzi-las para outros lugares.

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