
O Black Pantera mostra como a estrada transforma um país em muitos, amplia a escuta e revela histórias que dificilmente aparecem no centro do mapa.
Em poucos anos, o Black Pantera deixou de ocupar um lugar de exceção para se tornar uma das vozes centrais do rock brasileiro contemporâneo. A banda atravessou festivais, conquistou novos públicos, levou suas músicas para salas de aula e mostrou que o rock continua sendo um espaço potente para discutir identidade, memória e futuro.
Continental, quinto álbum da carreira, parte de uma pergunta simples. Como escutar um país que nunca cabe numa única versão? Na conversa com o deepbeep, essa resposta aparece muito além do disco. Ela nasce da estrada, das bandas underground que permanecem fora do radar, das cidades onde a cultura continua encontrando novas formas de existir e dos encontros que transformaram a maneira como Chaene, Charles e Rodrigo enxergam o Brasil. Cada viagem amplia a escuta. Cada show acrescenta outra camada à música.
A playlist prolonga esse percurso. Reunida pela banda, ela reúne artistas que ajudaram a formar a identidade do Black Pantera e mostra que o rock também pode ser uma maneira de conhecer um país. Na entrevista ao deepbeep, Chaene e Charles falam sobre ancestralidade, representatividade, underground e sobre tudo aquilo que a estrada revela quando a música decide percorrer o Brasil.
Lísias Paiva, criador e editor
“Continental” parece partir da ideia de que um país nunca cabe numa única versão. Qual Brasil vocês acham que ainda está sendo escutado de menos?
Chaene: Sim. Continental é isso. O Brasil é um país de dimensões gigantescas e também muito plural. Acho que o disco vem dessa vontade de olhar para o país de uma maneira mais abrangente. O que ainda está sendo menos escutado são as bandas underground do país, de todas as regiões, sobretudo das extremidades: Norte, Nordeste e Sul. Esses artistas, não só as bandas de rock, mas as bandas underground como um todo, de qualquer estilo musical, ainda acabam muito concentrados no Sudeste, no centro do país.
Existe alguma música de vocês que ganhou um significado completamente diferente depois de encontrar o público ao vivo?
Chaene: Acho que Candeia é uma música sobre a qual a gente já tinha certeza de que seria impactante. Ela parece uma celebração, uma gira, um ritual Iorubá. A gente já tinha essa sensação ouvindo a música gravada. Mas, ao vivo, ver como ela se conecta com as pessoas é incrível. Ela busca essa ancestralidade de uma maneira muito poderosa. No show, isso realmente é emocionante de ver. Existem várias outras músicas que também cresceram ao vivo. Fogo nos Racistas, por exemplo, era uma música sobre a qual a gente já imaginava que teria muita força, mas ela ultrapassa qualquer expectativa. Essas músicas levaram o Black Pantera para outros lugares imaginários da canção.
Vocês dividem uma banda, uma história e uma família. O que trabalhar juntos ensinou sobre discordar sem deixar de caminhar na mesma direção?
Chaene: O Black Pantera é maior do que nós três. Muito maior. Só dá certo porque a gente tem esse pensamento de seguir sempre em frente, mesmo quando discorda. Se for para discordar em busca do melhor, vale muito a pena. A gente tem nossas discussões, às vezes acaloradas, mas nunca permite que elas ultrapassem o respeito. É muito um pelo outro, porque estamos construindo isso juntos. O Charles começou a banda. Depois entrei eu e, um mês depois, o Rodrigo chegou. Só deu certo quando os três olharam para a mesma direção e falaram: “É isso que a gente quer. Então vamos.” É uma caminhada que exige muito esforço dos três. É mais do que família. Eu e o Charles somos irmãos. Eu toco com o Rodrigo há muitos anos. Então, é tudo família aqui. Ou o Black Pantera nos tem. A gente está sempre buscando o melhor caminho, pensando no que pode fazer para melhorar como pessoas e como banda, para que as coisas continuem fluindo dessa maneira.
Hoje todo mundo parece pressionado a escolher um lado para tudo. O que a realidade continua insistindo em mostrar que é mais complexo do que parece?
Chaene: A gente vive um mundo polarizado, realmente. Falo por nós também, mas acabamos pendendo mais para um lado depois de conhecer melhor a história dos nossos antepassados, dos nossos ancestrais, a história do mundo como um todo, os efeitos e as consequências da colonização e da pós-escravidão. Então, não tem como imaginar que o Black Pantera não tenha um posicionamento voltado para o bem-estar social de todos, sobretudo da população negra, que ainda vive, muitas vezes, à margem. É natural que a gente queira que a classe política e a sociedade também pensem nisso e busquem equilibrar essa balança. Existe um desnível. Ainda não há equidade. Basta olhar para uma Copa do Mundo. O Brasil é um país gigantesco. A maioria dos jogadores é negra, mas a maior parte da torcida que consegue comprar ingresso e viajar para assistir aos jogos não é. Isso é muito complexo e muito didático. Você percebe que a diáspora avançou pelo mundo inteiro. Ainda falando da Copa, olha quantos jogadores de outras seleções são negros. O mundo continua muito desigual.
A gente canta sobre isso para que as pessoas enxerguem essa realidade e para que as crianças que estão aqui hoje pensem em que mundo querem construir. Um mundo mais igual. O Black Pantera tem um posicionamento muito claro, e nossas músicas caminham nessa direção. Todo mundo é bem-vindo aos nossos shows. A não ser que seja nazista, fascista, racista, machista ou misógino. Algumas coisas são inegociáveis. Mas seguimos acreditando no diálogo. Ouvir continua sendo importante.
Depois de tantos quilômetros de estrada, o que continua surpreendendo vocês no Brasil?
Chaene: Cara, o Brasil é muito grande. A gente toca com bandas do país inteiro. Os costumes, a comida e a regionalidade de cada lugar continuam nos surpreendendo. A história de cada cidade por onde passamos é única. Cada lugar tem seus mártires, seus santos, suas pessoas importantes. A estrada nos dá isso. Várias músicas do Black Pantera nasceram nesse período de viagem, reflexão e entendimento de que o Brasil é um país gigantesco, cheio de características diferentes. A gente acaba funcionando como uma esponja, absorvendo tudo isso para construir músicas que consigam transmitir a nossa visão sobre o que encontramos pelo caminho.
Charles: O Brasil é gigantesco. Existem mil Brasis dentro de um Brasil só. E a gente continua sendo surpreendido não apenas pela geografia, mas principalmente pelas pessoas. Não importa se estamos em grandes centros ou em cidades pequenas. Recentemente passamos por cidades muito pequenas do Nordeste, daquelas que parecem os quadros da casa da avó da gente. Casarões antigos, a praça em frente à igreja, uma geografia que atravessou o tempo. Mesmo nesses lugares existe um movimento cultural muito forte. Foi fenomenal conhecer tantas cidades do interior e perceber a força que o rock, a música e os festivais de cultura têm nesses espaços. Isso também acontece em Minas Gerais, em São Paulo e em tantos outros estados. Outra surpresa enorme é encontrar tanta gente jovem envolvida com essas discussões. Recentemente fizemos um show em Esteio, no Rio Grande do Sul. A praça estava tomada por adolescentes cantando nossas músicas, conversando com a gente sobre os Black Panthers, racismo e política. Ver essa molecada de 13, 14, 15 anos interessada em tudo isso, num momento em que tanta coisa disputa a atenção deles, é uma das maiores recompensas da estrada.
Se o rock tivesse que convencer um jovem de 15 anos de que ainda importa, por onde ele começaria?
Chaene: O rock é libertador. Na verdade, a música é uma ferramenta. A gente percebe isso quando vê milhares de estudantes usando músicas do Black Pantera na redação do Enem de 2024 para falar sobre negritude e África. Isso mostra que uma banda de rock preta e antirracista pode ajudar a abrir conversas que muitas vezes nem aparecem com a profundidade que deveriam dentro da escola. Hoje muita gente conhece o Black Pantera em sala de aula. Isso é muito importante para nós. Quando fazemos shows em espaços públicos, encontramos crianças, adolescentes, pais, mães, avós… É bonito perceber que, além da música, existe uma troca de ideias. Se a nossa banda consegue fazer essa molecada pensar um pouco diferente sobre o mundo, já valeu a pena.
Charles: Eu diria para essa pessoa começar ouvindo o que está sendo feito agora. Tem Black Pantera, Malvada, Krüta, Demonic, Sepultura e muitas outras bandas brasileiras incríveis. Também tem Rage Against the Machine, System of a Down, Metallica… Existe uma infinidade de bandas falando sobre questões importantes. Cada pessoa vai encontrar um caminho diferente. Tem quem goste de punk, de metal, de rock gótico… O importante é procurar artistas que façam pensar. O rock continua sendo um espaço de questionamento. E músicas que ajudam a construir — ou até desconstruir — ideias são muito importantes, principalmente quando a gente está formando a própria visão de mundo. É isso que faz o rock continuar relevante.
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Fotos por Marcos Hermes
Agradecimentos à Piky Candeias da Piky Comunicação pela conexão
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Black Pantera reuniu músicas para quem acredita que toda viagem também muda a forma de escutar um país.
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