
Depois de décadas entre música, publicidade e tecnologia, Felipe Vassão fala sobre processo, repertório e as perguntas que ajudam a tomar melhores decisões.
Felipe Vassão passou as últimas décadas trabalhando num dos cruzamentos mais disputados da economia criativa. Música, publicidade e tecnologia. Poucas pessoas acompanharam tantas mudanças a partir de dentro. Novas plataformas, novos formatos, novas ferramentas e novas promessas de que agora tudo ficaria mais simples, mais rápido ou mais eficiente. Nem sempre ficou.
Em diferentes momentos da carreira, Felipe viu discussões inteiras girarem em torno da execução enquanto perguntas mais importantes ficavam sem resposta. Por quê? A pergunta aparece várias vezes nesta entrevista. Antes da tecnologia. Antes da ferramenta. Antes da opinião. Antes do gosto pessoal.
Para Felipe, boa parte dos problemas criativos começa quando a execução ocupa o lugar da intenção. Quando a novidade recebe mais atenção do que a necessidade. Quando ninguém consegue explicar com clareza por que alguma coisa precisa existir. O mesmo olhar aparece quando ele fala sobre música. Uma obra encontra sua forma quando nada sobra e nada falta. Quando deixa de chamar atenção para si mesma e passa a funcionar como uma peça única.
A playlist “Ideias Que Encontraram Forma” acompanha esse raciocínio. Reunida pelo próprio Felipe, ela atravessa Prince, Chico Buarque, Elza Soares, Britney Spears, The Police, Bonnie Raitt, Rick James, Jimi Hendrix, Charli XCX, Oklou e Milton Nascimento. Músicas muito diferentes entre si que compartilham uma característica rara. Parecem ter encontrado exatamente a forma que precisavam ter. Na entrevista ao deepbeep, Felipe Vassão fala sobre criação, repertório, escolhas e sobre a pergunta que continua organizando o resto.
Lísias Paiva, criador e editor
Felipe, você já trabalhou com artistas, marcas, tecnologias e linguagens muito diferentes. O que costuma permanecer igual quando as ferramentas mudam?
O “porquê” nunca muda. Aprendi isso numa palestra do Hans-Joachim Koellreutter, com quem anos depois fiz algumas aulas de composição. Sempre se perguntar “por quê?” é uma ferramenta que nunca vai se tornar obsoleta. Isso evita que você entre no piloto automático e ajuda a estar atento ao que aquele trabalho realmente precisa. O “como” — no caso, a tecnologia — vai sempre mudar. O “porquê” não.
Existe alguma coisa que a música ajuda você a entender sem precisar explicar?
Tem uma frase famosa de um letrista chamado Yip Harburg, que compôs “Over the Rainbow”, de O Mágico de Oz, que traduzida para o português, seria mais ou menos assim:
“A palavra te desperta um pensamento.
A música te desperta um sentimento.
Uma canção te faz sentir um pensamento.”
A música sozinha te aciona emocionalmente antes de qualquer racionalidade. Quando essa sensação se encontra com a racionalidade de uma letra, acontece algo muito poderoso. A gente não só entende coisas. A gente provoca outras que não seriam possíveis de outra forma.
Grande parte do seu trabalho acontece entre a ideia e a forma. Em que momento você percebe que uma intuição finalmente encontrou a linguagem certa?
Quando nada mais me chama a atenção. Se eu ouço uma música pela primeira vez e algo específico me chama a atenção, já era. Provavelmente aquele detalhe não deveria estar ali, ou então falta alguma coisa que dê sentido para aquilo. Quando estou trabalhando, tento exercitar isso: vamos ouvir como se fosse a primeira vez. Ajuda muito ficar alguns dias afastado daquela música. Algo acabado tem uma fluidez com a qual você se conecta sem pensar.
O Bernard Herrmann, compositor das trilhas do Hitchcock, falava que, se você saísse da sala de cinema assobiando um tema dele, ele tinha falhado. O filme precisava fluir como uma peça única. Para mim é a mesma coisa. Se flui, está pronto.
O que as pessoas costumam complicar sem necessidade?
A ordem das prioridades. Lembrar do “porquê” é uma forma de organizar isso e trazer nitidez para qualquer processo. Na publicidade, vi muita decisão sendo tomada por gosto pessoal ou por falta de repertório para avaliar qual caminho seguir. Sendo que gosto pessoal não importa numa campanha para vender toneladas de blusinhas. E a falta de repertório — de vida até — deixa tudo muito raso.
Qual é a prioridade daquilo que estamos fazendo? Qual é a motivação? Qual é o propósito? Sem firula. Sem fantasiar. Quando isso não tem nitidez, a tendência é complicar o processo para mascarar a falta de competência em lidar com a situação.
Existe alguma característica que separa quem continua criando por muitos anos de quem para no meio do caminho?
Entender que se frustrar faz parte do processo. E estar bem com isso. Estar bem com a falha. E acho que fazer terapia também. (risos)
Qual foi a observação mais simples que mudou completamente a forma como você trabalha?
“Eu consigo viver sem isso?” Abrir mão de algo é difícil nestes tempos em que parece possível ter tudo.
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Agradecimentos ao Théo Pires da Pypa
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