Ana Suy e o fim das certezas amorosas

Ana Suy em entrevista e playlist para o deepbeep sobre amor, intimidade, solidão, psicanálise e as ilusões que cercam os relacionamentos.

Psicanalista e escritora, Ana Suy fala sobre intimidade, solidão, liberdade e sobre a impossibilidade de conhecer completamente outra pessoa. Ou a nós mesmos.

Ana Suy trabalha num território onde quase todo mundo parece procurar respostas. Ela costuma fazer o contrário. Ao longo dos últimos anos, a psicanalista e escritora se tornou uma das vozes mais relevantes da conversa sobre amor, relacionamentos e afeto no Brasil. Não porque oferece fórmulas para fazer dar certo. Nem porque promete decifrar os sentimentos das pessoas. O trabalho dela parte de outra direção. Da ideia de que amar não elimina a falta. Não encerra o mistério. Não produz garantias. Essa percepção atravessa toda a entrevista.

Em diferentes momentos da conversa, Ana retorna à mesma questão. A ideia de que um relacionamento deveria nos proteger da solidão, da dúvida ou do desconhecido talvez seja uma das fantasias mais persistentes da vida amorosa. O amor aparece como encontro. Mas também como liberdade. Como intimidade. Mas também como distância. Como proximidade. Mas também como algo que jamais conseguiremos compreender completamente.

A playlist “O Que Muda Sem Fazer Barulho” acompanha esse movimento. Entre Radiohead, Taylor Swift, Ney Matogrosso e outras músicas escolhidas por Ana, a seleção reúne canções para transformações discretas, afetos que amadurecem e mudanças que acontecem antes de conseguirmos nomeá-las. Na conversa com o deepbeep, Ana Suy fala sobre amor, desejo, intimidade, solidão e sobre a difícil tarefa de abandonar fantasias sem abandonar o amor.

Lísias Paiva, criador e editor
Com colaboração Cláudio Thorne, social media

Você acha que o amor fala mais sobre quem chega ou sobre quem a gente deixa entrar?
Eu acho que o amor tem vida própria. Não se trata apenas de quem chega ou apenas de quem deixamos entrar, mas sim do que acontece quando essas pessoas se encontram. E isso que acontece, quando nos interessa sustentar, é o que chamamos de amor. Precisamos cuidar e ser igualmente responsáveis por aquilo que acontece. Mas o amor, em si, tem vida própria.

Tem músicas que parecem mudar de significado sem mudar uma palavra. O que essa experiência diz sobre quem está escutando?
A música é um texto com mais informações. Para explicar isso, recorro a um termo da psicanálise: o conteúdo manifesto e o conteúdo latente. Quando falamos de um sonho, o que conseguimos contar quando acordamos é o conteúdo manifesto, porque o sonho em si já se perdeu. É um trabalho de tradução. Já o pensamento latente é aquilo que fica sem tradução, mas que está ali de alguma forma.
A música conta com essa mesma duplicidade. O conteúdo manifesto é a letra, o tom, o estilo e aquilo de que nos damos conta de que a música nos lembra. Mas há também o conteúdo latente, que são as coisas que certas músicas nos despertam sem conseguirmos reconhecer de onde vieram ou como chegaram. A música fala com lugares em nós que são desconhecidos ou inalcançáveis, quer por os desconhecermos, quer por serem muito remotos. É por isso que as músicas da infância ou da adolescência permanecem tão vivas ao longo de toda a vida e entram no jogo quando escutamos algo.

Existe alguma mentira sobre o amor que as pessoas contam para si mesmas porque ela é confortável demais para abandonar?
Com certeza. A mentira de que o amor não tem fim ou de que, se acabou, é porque não era amor. É muito reconfortante manter a fantasia de que o amor nos dá uma garantia. Assim, se o relacionamento não deu certo, a pessoa perde a relação, mas mantém a fantasia amorosa de que o amor é uma coisa imbatível, invencível e garantida. Mas, quando olhamos com honestidade, encontramos sempre um amor limitado, precisamente porque é feito de pessoas. Ainda que o amor tenha vida própria, ele é feito, cuidado e reinventado por pessoas. Portanto, ele é limitado. E lidar com isso é difícil.

Muita gente fala sobre medo de ficar sozinha. Você acha que existe também um medo de ser realmente conhecida por alguém?
Eu acho que, mais do que um medo de ser realmente conhecido por alguém, há um desejo de ser conhecido para que possamos, através desse outro, conhecer a nós próprios. No limite, nós não nos conhecemos assim tão bem. Não sabemos tanto de nós mesmos, não apenas porque existem partes inconscientes, mas também porque não estamos prontos para nos conhecer. Existe uma ilusão de que, ao fazer terapia ou análise, vamos nos investigar e finalmente nos conhecer, mas isso não existe, porque estamos mudando o tempo todo. E não mudamos apenas para a frente. Mudamos para trás também, porque, quando alteramos a nossa forma de ver a vida agora, mudamos a forma como vemos a vida que tivemos até então. Somos muito vivos, no sentido de que estamos em constante movimento. A ideia de que alguém pode nos conhecer completamente é apenas uma ilusão, porque nem nós mesmos conseguimos esse feito. Estamos em constante mutação. É por isso que precisamos dos outros, inclusive. Eles conseguem acessar lugares em nós que, muitas vezes, nós próprios não conseguimos. Tentamos encontrar algo em nós através do outro.

Qual tipo de intimidade parece pequena por fora, mas muda completamente uma relação?
Olha, eu acho que isso pode variar muito. Depende bastante de quem são as pessoas envolvidas. Mas a resposta que me vem à cabeça, e que talvez sirva para bastante gente, é o silêncio. A capacidade de fazer silêncio com alguém é uma coisa muito importante. Muito íntima mesmo. Porque uma coisa é ficar quieto. Ficar quieto no sentido de pensar: “Ah, eu queria falar tal coisa, mas não vou falar.” Ou então: “Eu queria falar tal coisa, mas não vou falar porque vou incomodar.” Também não estou falando daquele silêncio em que cada um está ali preso ao seu próprio algoritmo. Estou falando da capacidade de fazer silêncio de verdade. De estar ali em silêncio sem ficar tomado pelo inferno que é tentar atender à demanda do outro.
O que isso significa, mais ou menos? Significa que eu consigo ficar em paz, de alguma forma, na presença de alguém, sem tentar agradar, sem ficar imaginando o que essa pessoa quer, sem tentar me adaptar para caber na satisfação alheia e em coisas desse tipo.

O que o amor adulto entende que o amor idealizado ainda não consegue compreender?
Eu não sei se captei bem essa pergunta, porque não sei exatamente o que você chama de amor adulto e amor idealizado. Vou tentar entender, e aí você me diz se é isso. Vou considerar que o amor idealizado seja esse amor mais infantilizado, no sentido de acreditar em uma fantasia de completude, em uma fantasia de fusão amorosa que dê conta de tudo. E vou pensar o amor adulto como um amor que está advertido desse impossível.
Pode ser? E eu acho que, só de nomear isso, talvez eu já tenha respondido à sua pergunta. Porque esse amor que você está chamando de adulto — e vale diferenciar que não é o amor do adulto, porque o amor do adulto muitas vezes é o mais infantil que existe — é um amor que contempla a noção de falta, que inclui a solidão, que considera o vazio. E é um amor que produz efeitos de liberdade. Porque ele sai da posição de exigir que o outro se fusione comigo, que eu me fusione com o outro, que a gente forme um par completamente colado, um “match” perfeito e eterno, alguma coisa nesse sentido. Então, o amor adulto, o amor que está advertido desse impossível, tem efeitos de liberdade. Enquanto o amor idealizado, esse excessivamente infantilizado, fica capturado tentando corresponder a uma imagem que não existe em outro lugar senão nas nossas próprias cabeças.

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Mudanças importantes raramente anunciam a própria chegada. Nesta seleção, Ana Suy reúne músicas para afetos que amadurecem, certezas que perdem força e transformações que acontecem antes de conseguirmos explicá-las. Canções para aquilo que muda primeiro por dentro.

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