Larissa Maciel e tudo que a música consegue abrir dentro de uma cena

Entrevista e playlist de Larissa Manoel para o deepbeep

Larissa Maciel constrói personagens como quem altera lentamente a temperatura emocional de uma cena.

Existe uma diferença importante entre interpretar emoção e criar condições para que ela realmente aconteça dentro de uma cena. O trabalho de Larissa Maciel parece nascer dessa busca. Embora tenha atravessado teatro, televisão e personagens historicamente marcantes, a atriz parece menos interessada em intensidade performática e mais obcecada pela construção invisível que sustenta presença emocional real.

Talvez por isso a música ocupe um espaço tão importante dentro do processo dela. Não como trilha decorativa ou referência estética distante, mas como ferramenta concreta de preparação emocional. Larissa constrói personagens através de cadernos, músicas, cheiro, textura emocional e pequenas obsessões privadas que ajudam a alterar o estado interno de uma cena. Algumas personagens começam a existir no corpo antes mesmo da câmera ligar.

Existe também uma relação muito particular dela com contenção. Em vez de associar força dramática a excesso emocional, Larissa parece interessada justamente no contrário, conflito interno, tensão silenciosa e presença que cresce através de pequenas rupturas quase imperceptíveis. O audiovisual aprofundou ainda mais essa percepção. Quando o corpo permanece quieto, o movimento interno ganha escala.

Ao mesmo tempo, a fala dela revela um processo profundamente aberto ao inesperado. Mesmo extremamente detalhista, Larissa parece desconfiar da ideia de controle absoluto. As personagens mudam durante o caminho. O set interfere. A música interfere. O outro ator interfere. Algumas cenas simplesmente acontecem quando todo mundo para de tentar racionalizar demais o que está sentindo.

Na conversa com o deepbeep, Larissa Maciel fala sobre atuação, música, preparação emocional e sobre por que certas cenas conseguem existir de um jeito que o texto sozinho nunca alcançaria completamente.

A playlist “O que fica no corpo” acompanha essa lógica. Entre Nick Cave and the Bad Seeds, Björk, David Bowie, Maysa, Gilberto Gil e Chico Science & Nação Zumbi, Larissa organiza músicas que continuam fisicamente presentes mesmo depois da cena terminar.

Por Claudio Thorne, social media
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor

Você já interpretou personagens muito intensos sem transformar tudo em excesso. Em que momento percebeu que contenção também pode ser impacto?
Acho que percebi isso quando comecei a estudar interpretação para audiovisual. Porque no teatro existe uma exteriorização da emoção que se faz necessária. Você precisa levar para o corpo inteiro aquilo que está sentindo.
Quando está interpretando para televisão ou cinema, o corpo continua extremamente presente, mas o movimento interno se torna visível. Aí você pode explorar tudo o que está acontecendo por dentro, porque isso transparece na cena. Acho que quanto mais contraste e conflito interno você leva para a cena, mais viva e arrebatadora ela fica.

Existe uma diferença entre ouvir música e deixar que ela altere o ritmo de uma cena. O que a música consegue abrir em você que o texto sozinho não alcança?
A música abre outros canais de sensibilidade. Ela comunica através de outras vias. O texto pode entrar de uma forma muito racional às vezes, enquanto a música vai direto na emoção.
É bem interessante responder isso hoje porque ontem aconteceu algo muito especial relacionado ao uso da música em cena. Estou trabalhando com o Davi Lacerda, que dirige a série Amor em Ruínas, e tínhamos uma cena muito delicada para gravar. Eu estava angustiada, mas nem tinha comentado isso com ele.
O Davi colocou uma música no set que deu completamente o tom da cena. Criou toda a cama emocional para ela acontecer. Foi muito emocionante para o elenco e acho que para a equipe também. A gente não precisou discutir racionalmente o caminho da cena. Bastou ouvir a música, olhar nos olhos uns dos outros e deixar acontecer.
Foi um daqueles momentos bonitos que ficam para sempre.

Você já trabalhou com personagens emocionalmente muito fortes sem excesso aparente. O que aprendeu sobre força na contenção?
Acho que essa contenção é, na verdade, a busca constante pela verdade da cena. O que realmente importa naquele momento. Porque, quando você encontra isso, todo o resto vira supérfluo.
Você consegue focar apenas no que realmente faz a cena acontecer e comunicar aquilo que ela precisa comunicar.

Sua trajetória passa por teatro, televisão e personagens históricos muito marcantes. O que muda na forma como você constrói presença em cada linguagem?
Sou meio obcecada pela construção da personagem. Muito detalhista e específica. Escrevo biografias inteiras usando as informações dadas pelo autor ou pela autora, mas preenchendo todas as lacunas da forma mais específica possível.
Tenho cadernos de cada personagem onde vou criando essas vidas. Gosto muito de usar escrita para isso. E junto com a escrita monto pastas com imagens, lugares, objetos importantes para a personagem. Seleciono sabores, escolho perfume e também as músicas que fazem parte da vida dela.
No teatro, por exemplo, faço toda a preparação no camarim ouvindo a playlist da personagem. Acho que construo minhas personagens de maneira muito parecida, independentemente de ser teatro ou audiovisual.

Depois de tantos personagens passarem por você, existe algo que hoje protege mais para não se perder completamente no processo?
Acredito que o processo de criação é contínuo e funciona como um somatório de tudo o que vai acontecendo. Então acho difícil perder alguma coisa. As coisas vão se transformando.
Às vezes começo imaginando que a personagem será de um jeito e sou surpreendida no meio do caminho por coisas que não tinha previsto e que acabam fazendo ela ser exatamente quem precisava ser. Acho isso bonito.
Não ter controle absoluto e se permitir afetar pelo inesperado. Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que aprendi: não me agarrar demais às minhas certezas e não ter medo de experimentar.

Acompanhe o trabalho de Larissa Maciel
Larissa Maciel no Instagram


Agradecimentos à Carolina Taulois da Caju Agenciamento

Ouça a playlist de Larissa Maciel no seu player preferido

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