Lan Lanh e o ritmo que atravessa o corpo

Entrevista e playlist de Lan Lanh para o deepbeep

Lan Lanh fala sobre percussão, presença e por que certos ritmos conseguem reorganizar emoção, energia e memória antes mesmo da razão perceber.

Lan Lanh nunca tratou ritmo como acompanhamento. Desde o começo, a percussão apareceu para ela como linguagem, presença física e forma de conexão antes mesmo de virar técnica ou performance. Nascida em Salvador, cresceu permeada pelos blocos afros, pelos tambores e pela experiência coletiva do som ocupando o corpo inteiro. Talvez por isso sua trajetória nunca tenha separado música, energia, espiritualidade e encontro. Em Lan Lanh, ritmo raramente funciona como fundo. Ele organiza atmosfera, intensidade e movimento. Agora, no reencontro com Os Elaines no dia 24 de maio, na Casa Natura Musical, Lan revisita as músicas de Com Ela, álbum lançado originalmente em 2003, ao lado da formação original da banda e de convidados como Nando Reis e Emanuelle Araújo. O show funciona como continuação natural de uma trajetória construída por presença, química e pulsação coletiva. Na conversa com o deepbeep, Lan Lanh fala sobre transe, escuta, corpo, ancestralidade e sobre o que acontece quando a música deixa de passar pela razão e vai direto para a alma. A playlist “pele e ritmo” acompanha essa lógica com músicas pensadas menos como trilha e mais como força física capaz de alterar temperatura, energia e movimento no ambiente.

Lísias Paiva, criador e editor

Você construiu uma trajetória inteira fazendo do ritmo uma forma de presença, não só acompanhamento. Em que momento a percussão deixou de ser fundo e virou linguagem para você?
Antes de tocar, eu fui tocada pela percussão. Nascida em Salvador, Bahia, já me encantei desde menina com os blocos afros. Depois, na garagem da minha casa, assistia aos ensaios da banda só de mulheres violonistas que a minha irmã, de 15 anos, formou com estudantes da Universidade de Música da Bahia.
Um dia, sentiram falta do ritmo e foram buscar um baterista. Chegou um cara de 19 anos, montou a bateria e começou a tocar com elas. Aí fiquei ligada nele e, numa pausa da banda, peguei as baquetas e saí tocando, tentando reproduzir o que ele fazia. Esse cara era Carlinhos… Na época, ainda não tinha o Brown. E ele falou: “Você tem ritmo”.
Eu comecei a tocar bateria, montei uma banda, “Rabo de Saia”, e convidei Mônica Millet, neta da Mãe Menininha do Gantois, para a percussão. Antes de tocar, eu fui tocada pela percussão. Não deixei as baquetas. A percussão já era linguagem na sua origem, pelas deusas egípcias que tocavam seus tambores antes mesmo dos homens tocarem. E depois, para comunicar algum acontecimento na África, eles tocavam os tambores. Eu toco pra subir, sempre.

Percussão trabalha muito o corpo, repetição e escuta coletiva. O que um ritmo consegue organizar nas pessoas antes mesmo delas perceberem?
O tempo, a dinâmica, a alma, o transe, a intensidade. O Ogan no terreiro é quem toca, e o toque é sagrado, atua como conexão, permitindo que a energia dos orixás e entidades se manifeste.

Você já passou por universos muito diferentes da música brasileira sem perder identidade. O que faz você reconhecer que alguma coisa realmente combina com você?
Quando me toca o coração e me provoca alguma sensação, minha alma dança… aí eu sou eu.

Grande parte da sua carreira foi construída tocando com artistas muito intensos no palco e fora dele. O que você aprendeu sobre energia depois de tantos encontros diferentes?
Energia é ritmo. Tem gente que chega como um tambor em festa, outras como maré mansa antes da onda virar. E aí acontecem os encontros, o encantamento, a química. E a química é tudo — e como é difícil de acontecer… Tive sorte, ou destino, ou intuição na figura de um Ogan feminino. O palco é um ritual: quando a energia circula, a música acontece.

Depois de tantos anos vivendo música de forma tão física, o que ainda consegue te emocionar imediatamente sem passar pela razão?
Nunca passa pela razão — vai direto pra alma, faz meu coração bater mais forte e me sentir bem viva, em contato com meu eu mais profundo. Eu preciso tocar.

Acompanhe o trabalho de Lan Lanh
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Show de Lan Lanh na Casa Natura

Fotos por Mari França  

Agradecimentos à Cláudia Rocha da Agência Enne

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