
Entre música, pintura, performance e moda, Samuel de Saboia constrói um trabalho onde imaginação, desejo e deslocamento deixam de funcionar como conceito e viram espaço real de existência.
Samuel de Saboia nunca pareceu muito interessado em separar linguagem, imagem e emoção em compartimentos organizados. Entre música, pintura, moda, performance e direção criativa, construiu um universo onde tudo funciona como continuação do mesmo impulso interno. Uma canção prolonga uma imagem, uma roupa vira personagem, o palco deixa de ser apenas apresentação e passa a operar como ambiente emocional. Esse imaginário também atravessa Introdução ao Infinito, exposição em cartaz no Farol Santander, onde Samuel transforma memória, espiritualidade e desejo em paisagens visuais que parecem existir entre sonho e corpo físico. Existe também uma recusa importante atravessando o trabalho dele. Em vez de adaptar a própria criação para caber em circuitos já prontos, Samuel preferiu construir um mundo próprio mesmo quando isso significava permanecer fora dos lugares mais óbvios. Talvez por isso suas músicas, pinturas e performances carreguem essa sensação constante de deslocamento, fantasia e presença sem depender de excesso de conceito ou misticismo fácil. Agora, enquanto prepara sua apresentação no C6 Fest no domingo, dia 24, Samuel fala menos sobre mostrar ideias e mais sobre dividir um universo inteiro com quem estiver ali diante dele. Na conversa com o deepbeep, ele fala sobre liberdade criativa, imaginação, transformação e sobre como aprendeu a não ter medo daquilo que realmente deseja.. A playlist “O Mundo Antes da Forma” que acompanha a entrevista atravessa Gal Costa, Di Melo, Grimes, Erasmo Carlos, Mk.gee e faixas próprias como parte desse espaço construído entre sonho, corpo e movimento.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Samuel, seu trabalho atravessa música, pintura, performance e moda sem parecer dividido entre linguagens. Em que momento você percebeu que não precisava separar tudo para ser levado a sério?
Eu sempre fiz uma distinção entre o que era esperado pelo ambiente externo e aquilo que eu realmente queria. Nesses anos de carreira, tive a liberdade como norte e, diante disso, nunca me opus a ser todas essas versões. Sempre vi tudo de maneira conectada: uma ideia faz crescer a outra, não a partir de uma zona de importância, mas de um estado de espírito.
No seu universo, a música parece menos trilha e mais ambiente físico. O que um som precisa ter para realmente transportar alguém para dentro de um mundo?
O som precisa ser. Cantar é, para mim, um trabalho emocional, um exercício de pintura no ar. Se com meus quadros posso estabelecer a cor como guia, com a música a voz se torna caminho, e o corpo corrobora e afirma para onde se vai. Cantar no palco tem sido uma catarse que me instrui e explica o que acontece quando coloco em voz alta sentimentos que antes eram só meus. Essa entrega tem me conectado com as pessoas, me ensinado que muitos de nós estamos passando por momentos similares. A música me reumaniza, me aproxima do sentir e convida outros a sentirem comigo.
Existe uma sensação muito forte de espiritualidade, desejo e imaginação no que você faz, mas nada soa místico de forma óbvia. O que você tenta proteger para que o trabalho continue vivo e não vire só estética?
Carrego meus sonhos sempre junto ao peito. Tenho sido assertivo e honesto desde o início da minha carreira, suspendendo e retirando da minha vida aquilo, e aqueles, que tentaram, de alguma maneira, mostrar minha existência como impossível. Existe um preço a ser pago para ser de verdade: o preço do não. E eu não tive medo dele. Talvez, no começo, eu não entendesse tanto por que não estava nos círculos, não me via como parte de algo, mas hoje vejo isso como uma bênção. O não caber me deu espaço, tempo e força para criar algo novo, e continuo seguindo feliz por me manter fiel ao Samuel criança que imaginou tudo aquilo que vivo hoje.
Você falou recentemente que no C6 Fest vai apresentar “seu mundo”, não apenas suas ideias. O que mudou entre essas duas coisas?
Ideias são minhas e para mim. Quando falo do mundo, falo do lugar onde essas ideias se tornam reais. Não tem como ficar fechado em cima do palco; cantar é, de alguma maneira, reviver. Então, se assim posso, que essa vida ali, naquele momento, seja espetacular.
Grande parte do seu trabalho parece nascer de deslocamento, trânsito e transformação constante. O que você percebe que ainda continua igual em você, mesmo mudando tanto de linguagem e cidade?
Meu trabalho existe antes das mudanças; elas são resultados de um movimento interno, e esse, sim, continua sendo o primeiro impulso. Parte desse ir e vir foi para constatar minha existência.
Com o passar dos anos, enxerguei potência e, trabalhando tanto meus sentimentos quanto minhas criações, pude dar um significado maior aos meus dias. Quando sonho e trabalho se misturam, a vida se torna descaradamente poética. Porém, é necessário lembrar que, além do que nos tornamos, há muita coisa que já somos.
Eu sou um sonhador prático. Vou até onde minhas forças aguentam. Esses anos me ensinaram que sou mais forte do que imaginei. A arte me ensinou que não se deve ter medo daquilo que o coração realmente deseja, esse desejo que nos transforma e que se transforma, às vezes em momento, às vezes em pintura, às vezes em canção.
Aprendi a não ter medo daquilo que eu quero, e isso mantém meu olhar claro e certo de que tudo, por fim, acontecerá.
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Exposição “Introdução ao Infinito” de Samuel de Saboia
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Fotos por Camila Cornelsen
Agradecimentos ao Surabhi Dasa da Assessoria Bianco
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