
Entre memória, confronto e permanência, Punho de Mahin usa o punk para recuperar histórias apagadas sem transformar denúncia em nostalgia.
Punho de Mahin não trata o punk como herança estética. Trata como disputa de memória. O próprio nome da banda já aponta para isso. Luísa Mahin, figura histórica ligada às revoltas negras do século XIX no Brasil, segue atravessando a cultura brasileira mais como ausência do que como presença oficial. E é justamente nesse espaço entre apagamento e permanência que a banda constrói sua linguagem. Formada por músicos negros da periferia de São Paulo, Punho de Mahin tensiona uma narrativa ainda muito repetida dentro do rock brasileiro: a de que o punk seria essencialmente branco, europeu ou distante das experiências negras periféricas. Para eles, o apagamento começa antes. Na própria origem do rock. Quando afirmam que “o punk nasceu preto”, não estão propondo revisionismo vazio nem provocação gratuita. Estão apontando para uma estrutura cultural que historicamente transformou influência negra em estética embranquecida. Mas a banda não trabalha apenas no campo da denúncia. Existe também construção de memória, pertencimento e movimento. As músicas funcionam como enfrentamento, mas também como permanência física e coletiva. Algo que continua reverberando depois do show acabar. Na conversa com o deepbeep, Punho de Mahin fala sobre apagamento histórico, energia de palco, exclusão e sobre por que certos rótulos ainda funcionam como “olhar de porta de serviço”. A playlist “O Som Que Não Se Apaga” acompanha essa lógica entre confronto, ancestralidade e ruído. Jards Macalé, Juçara Marçal, Anelis Assumpção, Patti Smith e Ratos de Porão aparecem como parte dessa memória que insiste em permanecer viva.
Lísias Paiva, sócio-editor
O nome de vocês carrega uma história que não costuma estar nos livros mais acessíveis. Em que momento a música virou também uma forma de recontar o que foi apagado?
Eu (Natália) já escrevia muitos textos que retratavam a vivência da população negra, fruto da minha experiência na capoeira e das participações em saraus com diversos movimentos negros. Naturalmente, trouxe esse legado de resgate para a Punho de Mahin. Na verdade, continuamos denunciando as mesmas mazelas sociais que o punk sempre abordou, resgatando pessoas e legados negligenciados, mas agora sob o olhar e a vivência de pessoas negras.
O punk sempre foi associado a uma estética branca e europeia, mas vocês tensionam isso diretamente. O que muda quando vocês afirmam que esse som também é preto e periférico?
Quando trazemos a provocação de que “o punk nasceu preto”, queremos reforçar que toda a base do rock veio de homens e mulheres negras cujos nomes foram apagados pela história. Em São Paulo, o punk surge nas periferias, expondo a realidade de jovens que precisam subverter a lógica da própria existência para sobreviver. E, quando falamos de periferia, precisamos encarar o óbvio: qual é a cor predominante dessas pessoas?
As músicas de vocês não parecem só denúncia, mas também construção de memória. O que vocês querem que permaneça depois que o som acaba?
Queremos que o som reverbere como um convite à ação. Mais do que a denúncia, buscamos plantar uma vontade real de transformar o entorno. O mundo exige movimento. A estagnação, tanto em pensamentos quanto em atitudes, já não é mais uma opção para o tempo em que vivemos.
Existe uma força muito física no que vocês fazem, quase como um confronto. O que o corpo de vocês sente no palco que não cabe na letra?
A conexão entre os quatro membros da Punho de Mahin cria uma energia única no palco. Temos um suporte mútuo muito forte, mas o que o corpo sente vai além do ensaio: é uma força interna avassaladora que se manifesta fisicamente, algo que a escrita nem sempre alcança.
O que mais incomoda quando tentam reduzir o que vocês fazem a um único rótulo?
O que mais incomoda é quando esses rótulos vêm carregados de insinuações por pura maldade ou preconceito. Uma pessoa negra reconhece o “olhar de porta de serviço” de longe. Sabemos exatamente quando o rótulo serve apenas para nos excluir.
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Fotos por Daniel Arantes e Lola Silva
Agradecimentos à Piky Candeias da Piky Comunicação pela ótima conexão
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