
Entre narrativa, risco e leitura coletiva, o Aerobica constrói sets que nem sempre estabilizam a pista e é justamente aí que ela se move.
Aerobica não tenta acertar o tempo todo. Quando tocam juntos, o objetivo não é manter a pista estável, mas ver até onde ela pode ir sem se acomodar. Às vezes isso significa perder um pouco. Mudar o clima, quebrar a sequência, sair do que estava funcionando. Isso não vem de improviso. Vem de tempo. Sets longos, horas suficientes para testar caminhos, errar, ajustar e entender o que sustenta uma pista de verdade. Não como sequência de acertos, mas como processo. O que eles constroem não depende de gênero. Depende de energia. E, principalmente, de como essa energia se move ao longo do set. Nem sempre de forma linear. A pista entra nisso como parte ativa. Às vezes responde, às vezes resiste. E é nessa troca que o set ganha forma. Se tudo funciona o tempo inteiro, nada realmente acontece. Essa entrevista faz parte da série do deepbeep no Gop Tun Festival, onde o Aerobica toca no domingo, dia 12, no Mainstage. Um contexto em que esse tipo de decisão fica mais exposto. Mais gente, mais ruído, menos margem para controle. A seleção que acompanha o papo segue essa mesma lógica. Parte dela simplesmente não está nos players. E isso diz mais sobre os players do que sobre a música. Por isso, virou videolist. E um guia direto, “Como não desperdiçar a pista”.
Lísias Paiva, sócio-fundador

COMO NÃO DESPERDIÇAR A PISTA
▶︎ COORDENADAS
★ Quando e Onde: Aerobica no domingo, 12/4 às 17h00 no Mainstage.
▶︎ PRESTE ATENÇÃO
★ Se tudo está funcionando o tempo inteiro, alguém está jogando seguro. E isso quase nunca é um elogio.
★ Nem todo momento vem para te ganhar. Alguns vêm para te tirar do lugar.
★ Quando o set “perde” a pista, presta atenção. Pode ser exatamente onde ele começa de verdade.
★ Conforto prolongado é o começo do tédio. E pista entediada não sustenta nada.
★ Nem toda escolha vem para melhorar. Algumas vêm para tensionar o que já estava fácil demais.
★ Se você só fica quando entende rápido, você se sabota. A melhor parte raramente é imediata.
★ E quando encaixa, não é uma faixa. É porque tudo antes permitiu que aquilo acontecesse.
Vocês começaram tocando juntos de forma despretensiosa e isso rapidamente virou um projeto com identidade própria. Em que momento perceberam que já não eram dois DJs dividindo a cabine, mas outra coisa acontecendo ali?
Muito cedo na nossa história. Quando começamos a tocar juntos, há quase 7 anos, cada um já vinha de um percurso longo sozinho. Mas à medida que fomos aprofundando essa parceria dentro da festa, começou a parecer mais um conceito do que uma soma. A gente começou fazendo sets de 6 horas, e isso permitiu desenvolver um som e uma personalidade que só existem quando tocamos juntos.
Os sets de vocês passam por vários gêneros sem hierarquia clara, mas ainda assim existe um recorte. O que uma música precisa ter para entrar nesse universo sem virar concessão?
Esses sets longos ajudaram a entender muito bem o território do outro e onde podíamos nos encontrar. Assim, fomos percebendo que havia uma música que encaixava perfeitamente no universo da Aerobica, independentemente do gênero.
O que buscamos não é um som específico, mas uma energia. Algo que faça sentido no ecossistema da pista.
Tão importante quanto escolher as músicas é como contamos a história. Por isso acreditamos que alguém pode até ter nossas músicas, mas dificilmente conseguiria tocar como a gente. Para o bem ou para o mal.
Existe uma leitura de pista muito forte no que vocês fazem. Em que momento a pista deixa de ser pública e passa a ser conduzida junto com vocês?
Desde o início. Nada do que fazemos faz sentido sem o feedback da pista, que é para quem estamos tocando. Como começamos tocando para festas menores, com cerca de 200 pessoas, a resposta sempre foi essencial. Gostamos de brincar com as expectativas e levar a pista por caminhos que não são lineares. Tem vezes que reagimos à energia. Outras vezes fazemos o contrário e tomamos decisões inesperadas para provocar movimento.
Nunca seríamos DJs que tocam para si mesmos sem olhar o que está acontecendo. A pista sempre foi protagonista e continua sendo sagrada para nós.
Em um cenário cada vez mais previsível, qual é o sinal de que vocês estão jogando seguro e como quebram isso?
Quando ficamos muito tempo soando parecido ou mantendo a mesma energia, a reação começa a diminuir.
Aí é hora de mexer. Podemos baixar drasticamente o tempo depois de um trecho rápido ou trazer algo mais arriscado quando tudo está confortável demais.
Admiramos artistas que conseguem fazer conversar músicas que aparentemente não têm nada em comum. É isso que tentamos fazer, principalmente em sets mais longos.
Já tiveram momentos em que a pista não respondeu como esperado? O que isso muda?
Muitas vezes. Parte do aprendizado é entender que às vezes você vai perder a pista. O importante é saber lidar com isso, aprender e seguir. Isso vem com experiência e respeito por quem está ali. Admiramos DJs com décadas de estrada porque dá para ver claramente como eles lidam com a pista. É algo que queremos construir com o tempo.
O que muda ao tocar em um festival como o Gop Tun?
O Gop Tun é nosso festival favorito na América Latina e tem um lugar muito especial na nossa história. Foi onde tocamos juntos pela primeira vez no Brasil. Um festival tem outra dinâmica. Mais palcos, mais dispersão, mais estímulos. O desafio de manter a atenção é maior. Mas estamos preparados e muito animados para fazer um set memorável.
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